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Porque a mídia deve se preocupar, parte III

Naturalmente surge a questão: “mas a Internet não é só mais uma mídia, por mais poderosa que pareça? Como tal, não estaria sujeita à máquina da publicidade? Será que todo esse debate não estaria terminado quando se descobrisse a forma certa de se anunciar em ambientes online?”

blindnessFica difícil contestar um argumento tão aberto, até porque ninguém descobriu ainda as maneiras “certas” de se viver em sociedade, de explorar os recursos do planeta, de combater a dor e o sofrimento etc etc etc. Há algo de fascista na busca pelo absoluto, mas aí já se mudou de assunto.

Vale, então, examinar o que se entende por propaganda na Internet. Pra começar, o que passa pela cabeça de 150% da pessoas: banners. Por mais que sempre haja um ou dois que acreditem em sua eficácia, a tendência atual é acreditar que eles foram feitos apenas para serem vistos, não clicados.

Seriam, assim, uma ação de branding. Sem dúvida. Para a concorrência.

Taí um argumento com a profundidade de uma folha de papel. E que ainda peca pelo fato de nem mesmo ser inédito. Já se falou em poluição visual como imagem de marca até para defender os Outdoors. Em São Paulo eles se foram e, pelo que eu saiba, ninguém parece ter se importado.

Mas banners não são Outdoors. Eles não estão com essa bola toda. Na verdade eles são tão irrelevantes que ninguém chega a lembrar que existam. Você clicou em algum neste século? Foi por engano, não foi?

Na mesma categoria de poluição invisível que não comunica estão os ícones que teimam em habitar as margens superiores de muitos aplicativos. Responda rápido, sem colar: quantos botões tem a barra de navegação do Firefox? Do Word? Há quanto tempo você não clica em um deles?

Em comunicação isso se chama “paisagem, mas deveria se chamar “inseto”. Dos que nem picam. Como o apêndice no intestino, eles nada mais são do que relíquias arqueológicas de um tempo em que era preciso imitar as teclas para mostrar uma ação possível. O mesmo vale para o cursor e sua transformação em dedinho toda vez que se passa o mouse sobre um link. Há quanto tempo você não repara nisso? Se deixasse de existir, faria diferença?

pop-ups
Lembrei dos pop-ups.
Já se acreditou que eles eram mídia. Tsk.

Outra ação comum de (des)comunicação na Internet são os sites promocionais, também chamados de “Hot Sites”. Não sei o que essas pequenas ações temporárias têm de “quente”, principalmente se levarmos em conta que a maioria dos publicitários que os coloca no ar esquece de removê-los depois, no melhor estilo NASA. Mesmo os sites de empresas, que hoje em dia são tão caros e empregam 99% dos designers e desenvolvedores, são visitados por quem? Em que periodicidade, com que motivo?

É claro que eles servem para identificar a empresa, seu telefone e até um eventual nome de funcionário, mas não seja ingênuo: eles não influenciam a decisão de compra de ninguém. Essas decisões são tomadas via Flickr, Twitter, Google, blogs, fóruns. Do jeito que são hoje, a maioria dos sites são catálogos estéreis. Isso quando não são feitos em Flash ou coisa pior e se tornam inacessíveis para os iPhones e Blackberries presos no trânsito das cidades.Internet is full

Se pretendem ter uma mínima idéia do que trata o século XXI, as empresas precisam compreender que não adianta falar para quem não está interessado em ouvir. Não há dúvidas que a Internet é um meio comercial. O problema (para as agências) é que ela é controlada pelo consumidor. Ou seja, é uma arena de compra, não de venda.

O problema não está nas mensagens comerciais, mas em suas práticas. Enganar o consumidor, interromper sua experiência, berrar para chamar a sua atenção são atitudes que não funcionam mais, além de serem extremamente irritantes. Em um cenário de comunicação interativa, social e de intercâmbio, valem as mesmas regras de conduta de qualquer outro ambiente coletivo. Quem se destaca não o faz por pentelhar os outros, mas por se mostrar interessante e atrair os outros naturalmente. Parece regra de sedução? É.

Minha suspeita é que não se encontrou o formato ideal de propaganda online por um motivo bem mais simples: ele não existe. Por mais que algumas agências “ishpiertas” teimem em inventar novas formas de dilapidar marcas e iludir consumidores com bobagens feito posts pagos ou personas falsas nos Orkuts, o fato é que o público geral foi tão explorado que se tornou pragmático. Ninguém mais “surfa” ou “zapeia” no ambiente digital hoje em dia. Apressado, o homem digital acessa, busca, lê (na diagonal), tecla, clica e sai o mais rápido possível. Qualquer coisa que o interrompa nesse processo será irritante. E, naturalmente, odiada. Nesses termos, a conta da publicidade online simplesmente não fecha.

SpamalotMas como se tornar interessante? Certamente não é mandar SPAM ou partir para qualquer prática escusa, mas compartilhar com honestidade a informação que se tem. Qualquer empresa - qualquer, qualquer empresa - tem acesso a muita informação de alta qualidade para seus consumidores. É essa informação, que em períodos pré-Internet, era guardada a sete chaves e hoje pode ser encontrada em uma rápida busca na Wikipedia, que deve ser compartilhada.

Não tem nada de bonzinho, comunitário ou comunista nisso, muito pelo contrário. A era da escassez da informação acabou e é preciso aproveitar as novas oportunidades. Todo mundo sabe que tem muito lixo na Internet, que muitas informações são desatualizadas, imprecisas ou claramente erradas. Isso não é uma má notícia. É sinal que o terreno continua virgem para qualquer empresa que faça uma coisinha qualquer para melhorar o caos.

A Cultura Inglesa de São Paulo, por exemplo, colocou um link meia-boca para três grandes dicionários de inglês online - Cambridge, Oxford, Longman. Só isso. Virou case de sucesso. Quem quiser concorrer com ela não deve patrocinar um link do Google, bobagem que só vai desviar o usuário da sua rota e o irritá-lo -  mas fazer melhor. Um blog para explicar os erros de inglês mais comuns? Um podcast para ensinar inglês básico? Um curso online para iniciantes? São tantas as possibilidades que nem sei por onde começar. Nenhuma delas afasta os consumidores. Além de serem simpáticas, essas ações mostram a importância do produto comercializado e chamam a atenção para ele. É comunicação orientada a valor, uma prática que pode ser reproduzida em qualquer indústria.

Quem fala da economia da atenção hoje em dia não se refere a fazer escândalos ou baixarias para ver se consegue alguma visibilidade, mas em criar relevância e ser íntegro. Em agradecer ao consumidor por ter se interessado em você e nos produtos que vende, e retribuir essa gentileza da melhor forma possível.

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