Carreira, Cultura Digital, Inovação

Porque a mídia deve se preocupar, parte I.

À primeira vista esse vexame aí de cima seria só mais uma daquelas polêmicas vazias de publicitários. Não se pode levar a sério um bate-boca inconveniente, deslocado e de baixo nível travestido de (ahem) debate se este não estivesse em um tipo de arena circense de cujo público está acostumado com micagens. No melhor estilo dos barracos promovidos por “celebridades” e “artistas”, nada diferenciaria o confronto acima de qualquer bobagem à Caras, completamente irrelevante para o mundo aqui fora. É certo que o gigantesco desdém que o sr. Guanaes aparenta ter com relação à língua portuguesa – “não invistam DO novo“? – levam a pensar que o nome ABC do grupo de empresas que controla deve ser alguma ironia de mau gosto, mas isso é mudar de assunto.

Na minha opinião, os dois perderam. Mas quem sou eu para criticá-los? Prefiro me concentrar no que se lê nas entrelinhas desse arranca-rabo. Não é preciso um bacharelado em psicologia para perceber que a reação exagerada parece típica de quem tem muito dinheiro, poder e influência e está com um medo enorme de perdê-los. Perdidos feito cães acuados, os nobres senhores não sabem direito para onde devem latir. E se descabelam feito turistas perdidos no meio da mata que, percebendo que estão a perigo, começam a culpar uns aos outros em vez de tentar entender aonde estão.

Não é preciso explicar para o cliente o que um publicitário é capaz de fazer. Ele o sabe bem. Tão bem que começa a pulverizar a verba para uma variedade de fornecedores. Já foi chique ser publicitário. Hoje não é mais. À medida que o prestígio escorre pelos vãos dos dedos feito areia fina, tenta-se de tudo para parar a Tsunami do progresso. E feito uma criança que tampa os olhos e finge que é invisível, tenta-se pregar em fóruns públicos uma realidade alternativa.

zappa

Crisechinês

Virar as costas para o progresso é uma estratégia suicida. Mais do que isso, é incoerente com a própria indústria da criatividade e inovação. Isso não é só a minha opinião. Qualquer zé mané sabe que a crise é a mãe da invenção, até a banda que tocava com o legendário Frank Zappa carrega esse nome. Qualquer powerpoint de auto-ajuda defende a maledeta idéia de um tal ideograma chinês para “crise” seria composto de “perigo+oportunidade” (o que, bem lembra minha amiga Rosana Hermann, é só uma lenda urbana, mas estamos mudando de assunto).

Em resumo: quem propõe evitar o novo não quer causar polêmica, quer manter tudo exatamente do jeito que está.

Mas o que aconteceu com esses caras para mudarem de lado tão rápido? Não deve ter sido o dinheiro ou os clientes, até porque esse movimento é novo e atinge praticamente toda a indústria de mídia de massa, da propaganda aos veículos. Todo mundo, de uma hora para outra, ficou meio “careta”.

Na minha opinião a revolução foi provocada por vocês. Por todos nós que usamos, produzimos e veiculamos conteúdo nessa sopa primordial de dados sem suporte. Nós somos o início de uma revolução sem par. Ela não começou em um dia ou local específico e absolutamente não pode ser mensurada.

As revoluções sociais são assim, elas começam aos poucos e são praticamente imperceptíveis em seus primeiros dias. A queda de Roma não aconteceu em uma terça-feira, a pandemia de AIDS não começou às 14h de um dia de agosto, o aquecimento global não tem data de aniversário e até mesmo para essa crise econômica mundial que se avizinha não é fácil determinar. Por mais que esperneiem os defensores da indústria do petróleo, a Idade da Pedra não acabou por falta de pedras, mas pelo surgimento de novas tecnologias para substituí-las.

É certo que a mídia de massa ainda é um segmento potente e influente da economia, mas não há dúvidas que ela já não é mais como era antigamente. O cenário fica bem pior se você imaginar as grandes empresas do segmento (Abril, Globo, McCann-Erickson) daqui a 10 anos. É preciso ser um otimista desvairado para acreditar que elas continuarão do mesmo tamanho que são hoje, e olhe lá. O mais provável, nesse cenário, é que elas estejam menores. Bem menores. Agora imagine-se investidor. Você colocaria dinheiro em uma empresa cujo melhor cenário em uma década seja permanecer como está? Acredito que não.

Sob esse aspecto fica mais fácil entender o apelo de quem (ainda) é grande em evitar o novo, em bradar que é valente, competente e potente, em usar os últimos fiapos de prestígio que ainda sobram para tentar garantir uma sobrevida. O novo é ameaçador, é preciso matá-lo enquanto ainda é pequeno.

A mudança, no entanto, veio para ficar. Estamos à beira de uma gigantesca mudança na economia. Não me refiro à crise financeira que abala os Estados Unidos e, com eles, todo o mundo. Essa crise, como todas as outras mudanças sociais, estava anunciada há bastante tempo. Nós é que, como os czares da mídia, nunca prestamos atenção nela e alguns ainda fingem que ela não existe.

Tsk.

A mudança de que falo é outra. Ela não é maior nem menor, apenas diferente. A plenitude de conteúdo que vemos hoje em dia torna desnecessária toda uma indústria que se alimentou da escassez de informação. Como bem o sabe qualquer estudante de primeiro ano de Economia, sem escassez não há valor. Sem valor não há mercado. Talvez seja por isso que ainda seja tão difícil promover políticas ambientais.

O tema é grande demais para um post. Continuo no próximo, semana que vem.

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