Inovação, Palestras e entrevistas, Tendências

iMasters Intercon 2008 (e FF)
parte III - a execução.

Lixeiro

No dia do evento, acordei tranqüilo, sem saber que a Lei de Murphy me preparava uma das suas. Cheguei ao InterCon vestindo um macacão laranja, para satirizar a quantidade de lixo que estamos acostumados a ver nesse tipo de evento, seja na forma de jabá, seja na forma de repetecos. Estávamos arrumadíssimos e com uma tropa de elite em palestrantes. Às 08:20 eu estava no palco, pronto. Não tinha como dar errado. Mas…

…para começar com o pé esquerdíssimo - e torcê-lo - o equipamento de áudio e vídeo, por algum motivo esdrúxulo, não falava com Mac. E a maioria das palestras estava em Mac. Com o meu, não falou de jeito nenhum. Depois de muita troca de fios, o projetor falou com a máquina do Amstel. Precisei copiar minha apresentação (e reformatá-la) rapidamente. Enquanto isso o tempo corria. Seguramos as pessoas do lado de fora para evitar o vexame e quase que a emenda foi pior que o soneto. Era muita gente e estava muito quente. Quando liberamos, já estávamos com meia hora de atraso.

Lotado

A platéia não estava nem um pouco satisfeita, e com razão. Muitos acreditaram que a demora na espera traria uma apoteose no palco, mas não viram nada disso. O auditório mostrava um palco comum, sem graça nem nada de novo. Não era nossa culpa, mas certamente era nossa responsabilidade.

As confusões com o pessoal de vídeo se acumularam. Mas como, se eram os mesmos dos eventos anteriores? No fim do dia me contaram que algum técnico importante da empresa tinha pedido demissão dois dias antes. Resultado: os caras fizeram o maior esforço, mas não tinha jeito: metade do palco ficou sem retorno, o áudio falhou e parte do vídeo também. Me irritei e perdi o controle, cheguei a dar uma bronca direto do palco. Foi meu momento Tim Maia, peço perdão. Mas quem não se irritaria? Se o áudio não funcionasse, não haveria como haver palestras simultâneas.

Stelleo

A palestra do Stelleo Tolda sofreu um bocado. Ainda bem que ele foi compreensivo e levou no bom humor quando sua apresentação, que não funcionou no micro do auditório e teve de ser pilotada à distância, travou perto do final. Naquele momento eu já me sentia com uma úlcera perfurada.

Logo depois teve o primeiro momento InterCon+FF, a grande estréia. Eu deveria estar ansioso, mas na verdade estava desesperado. Se o áudio não funcionasse agora, o evento praticamente iria para o saco. Ainda bem que eu contava com o apoio de gente muito boa. Os primeiros palestrantes tinham sido escolhidos a dedo para dividir a platéia. De um lado, meu amigo Gil Giardelli. Do outro, o super Cris Dias.

O áudio instável demorou um tempão para funcionar, mas de repente deu certo. Parecia mágica. De cima do palco, via as cabeças viradas para os dois lados, mudando de vez em quando de um para o outro. Casais de namorados olhando para lados opostos. Fileiras inteiras olhando para um lado, com um ou outro a quebrar o padrão. E de repente tudo mudava. Uma imagem mais forte, um vídeo, um comentário divertido era o suficiente para fazer as cabeças virarem. Eu quis chorar.

Cabeças

Mas a alegria durou pouco. Quando o Cris Dias cumpriu rigorosamente seu tempo e foi substituído pelo prodígio Marco Gomes, o microfone do Gil misteriosamente falhou. E passamos a ver a agonia de ter um palco dividido: metade a mostrar uma belíssima visão de futuro das agências, metade a repetir a triste frase “som? Som? Canal um? Estão me ouvindo?”

Não teve jeito, tivemos que cortar o Gil pela metade. Como ele é um excelente profissional, aceitou numa boa e ainda parabenizou a organização pela idéia das palestras simultâneas. É inevitável ser fã de um cara desses.

Mac(k)

Fomos salvos pelo Super Mackeenzy que interviu na mesa de som e a remontou completamente a partir do zero na hora do almoço. Eu, que já estava na quinta Aspirina e segunda Neosaldina, desabei. O estômago não agüentou.

E isso porque eu nem sabia que a estrutura de Internet sem fio, proporcionada pela DialHost, foi na verdade uma excelente ação de marketing… PARA A CONCORRÊNCIA. Fica difícil de acreditar em uma empresa de hospedagem que não consegue nem prover um acesso estável.

Novamente não era nossa culpa, mas era certamente nossa responsabilidade.

Naquele momento o evento tinha acabado para mim. Estava super desanimado, não via a hora que terminasse. Só pensava no vexame a que submeti a organização do InterCon. Saí para tomar um ar e ainda fui confrontado por uma galera cheia de certezas, que pôs o dedo no meu nariz dizendo que “essa história de duas palestras não funcionava”, “que eles iam numa rave para ouvir o som” e que a “idéia era de jerico“. Nada mais construtivo, imagino que os caras devem adorar o MaxiMídia. E sabia que eles não seriam os únicos.

Mudei de idéia e voltei para os bastidores. No estado em que eu estava, não poderia ajudar ninguém. Como não gosto do tipo de humor desnecessário, liguei o iPod e assisti a uma palestra do TED, imaginando o que um Chris Anderson deveria agüentar e me perguntando por que raios fui parar ali.

Aplausos do lado de fora me chamam de volta para o palco: era o Gil, que retomava sua palestra interrompida com maestria, levantando o público e segurando a onda. “I get by with a little help from my friends”, pensei. Foi aí que me lembrei do que chamo em sala de aula de Paradigma do Coentro: “imagine que você entende de comida e vai a um restaurante. Te servem um peixe bom, mas carregam no coentro. Você sabe separar a diferença e dá ao restaurante uma outra chance. Se você não entendesse de comida, acharia que o peixe está estragado e nunca mais voltaria ao restaurante”. No nosso evento, a tecnologia é o coentro. O que importa é a qualidade das palestras. E esta, até agora, tinha sido preservada.

Na parte da tarde, as coisas melhoraram. Mas eu, confesso, não estava nada confiante. Praticamente não aproveitei a palestra do Mugnaini porque ainda tentava resolver problemas técnicos e de tempo. Não tinha coragem de pedi-lo para que reduzisse sua palestra, afinal ele era a grande estrela do evento, mas nem precisei. Pontual e profissional, nem parecia um publicitário. Em uma apresentação sucinta e muitíssimo bem fundamentada, ele encantou o público e devolveu ao InterCon a mística inspiradora das grandes falas. Graças a ele, voltei a acreditar.

Mugnaini

Logo depois dele, o momento mágico: de um lado da platéia Alexandre Bessa, da Gringo, falando de gerência de projetos com tanta paixão que fazia o tema parecer sexy. Do outro, Frederick Van Amstel arrasando em uma palestra fascinante sobre o design de interação em que mostrava que o que pode vir por aí é limitado apenas pela imaginação. No meio da palestra do Mugnaini, Amstel dá lugar a Ariel Alexandre, que com um sorriso de superstar, mostrava uma visão inovadora e realista sobre a TV digital e provava que era possível, muito possível, fazer uma inovação sem precedentes no mundo. Eu não faria melhor.

Duas palestras

O mais bacana era tirar o fone de ouvido e perceber um silêncio sepulcral na platéia. Admirável. Quando os dois lados terminaram, fui ao palco para dizer que, mesmo tendo 42 anos e sendo provavelmente um dos mais velhos da platéia, me senti nascendo de novo ali. Agradeci muito a colaboração e compreensão do público e disse que eu praticamente nascia de novo ali. Muita gente achou que era meu aniversário. Não é, foi no dia 4/10, mas obrigado mesmo assim.

Até os patrocinadores colaboraram. Eles tinham cerca de cinco minutos cada um, mas praticamente não usaram mais do que três. Depois do Coffee Break, nova intervenção FF: de um lado Alexandre Freire, da Oracle, falando sobre segurança. Do outro, o mestre Manoel Lemos falando de empreendedorismo. Fiquei bem feliz em tê-lo no evento, já que ele comprou a idéia desde o início. A minha surpresa foi vê-lo trazer um sabre de luz e entregá-lo para mim. Parecia uma cerimônia medieval de consagração de Cavaleiros, me senti como se ganhasse o título de Sir Radfahrer =]

Coroação

Manoel falou sobre a importância do pensar estratégico e a diferença entre o planejamento e o plano. Com uma mistura primorosa de técnica e prática, virou praticamente todas as cabeças da platéia para a direita. Meia hora depois, Daniel Heise e o desafio de falar depois do Manoel. Dizer que ele conseguiu seria um desrespeito. Ele matou a pau, em uma palestra sóbria, humilde, sólida, extremamente competente e muito, muito emotiva. Tanto que quando ele colocou a foto da mulher no último slide, não conseguiu falar de tão emocionado que estava. Fui socorrê-lo e disse que eu entendia bem como ele se sentia. Não poderia ser mais sincero.

Heise

Minha participação tinha praticamente terminado. Apesar dos problemas técnicos, eu estava muito satisfeito. Grandes palestras, idéias inspiradoras, um excelente resultado. Do alto do palco, deixo registrada a minha alegria no Gengibre:


Via Gafanhoto.com.br

O evento tinha acabado bem. A partir dali, poderia pegar minhas coisas e ir embora. Aproveitei para ver como andavam as oficinas de Photoshop com o Fábio Lody e vi de longe um pedaço da palestra do grande Akita on Rails (quando eu penso que fui o primeiro chefe dele eu me encho de orgulho).

Tinha ouvido falar muito bem do grande Paulino Michelazzo, mas infelizmente não pude vê-lo. Ora, não era exatamente essa a idéia do evento? Como na Internet, o que você não pode ver você linca, tagueia, buquimarca (perdão pelos neologismos) e fica de ver depois.

Seguindo esse raciocínio, Paulino ficou para novembro.

Paulino

Volto para o auditório para tomar um susto: o painel final ainda não tinha nem começado. Os caras levaram mais de vinte minutos para plugar tudo que tinham. Que eu me lembre, não era uma pirotecnia gráfica nem tenda do Cirque Du Soleil, mas um pauerpóint ou similar. A primeira tela que eu vi meio que sintetizava o espírito que estava por vir:

hype

O nome original do grupo era para ser: “quatro gordos e uma gostosa”. Reclamei, bati o pé e disse que isso era depreciativo para os cinco e para o evento. Pode ser que eles tenham repensado, pode ser que simplesmente não tenham achado a tal da gostosa, mas o fato é que mudaram o título do painel.

O painel começou bem, com uma apresentação interessante do Ken Fujioka sobre Bossa Nova. Dava para ver que os caras tinham se esforçado. Depois começou a discussão, com aquelas velhas opiniões formadas sobre tudo. O tempo corria. Em menos de duas horas o teatro seria palco de uma peça, por isso precisava ser entregue em ordem. O papo estava bom, mas o evento não era deles e eles precisariam acelerar. Se o Sérgio Mugnaini fez isso, por que não eles?

Mas ao serem avisados que seu tempo estava no fim, veio o vexame: um dos participantes subiu nas tamancas, reclamou que tinha duas horas de material preparado e que iria falar até mais. Era só olhar o programa para ver que eles tinham 1h20′. Com vinte minutos de preparação, a organização deu uma hora, não havia nada para reclamar. Sei que o Ken jamais faria isso. O Cava jamais faria isso. O resto fez pior: jogou a platéia conta a organização, disse que foi mandado embora e que gostaria de ficar mais. E ignorou solenemente os DOZE avisos de encerramento.

Resultado: foram cortados, causaram um gigantesco mau-estar e um evento que deveria terminar com palmas terminou com vaias. Bonito. Será que aqueles que ainda estão dando risada com a falta de organização já se esqueceram das palestras geniais do Stelleo, do Gil, do Bessa, do Sérgio e de todo o grupo do FF? Será que tem gente que realmente acredita preferir ver um evento certinho em que nada de novo ocorre a um evento com essa qualidade de palestras, tecnologia à parte? Será que quem toma as dores do painel dizendo que os pobrezinhos trabalharam de graça se esqueceu que todo mundo trabalhou de graça? Eu venho trabalhando de graça há quatro meses. O evento terminou com um anticlímax que para mim, foi pior que qualquer falha técnica.

Feio.

Eu fui

O que importa é que o saldo foi positivo e que o tempo fará justiça aos grandes nomes que passaram por lá. Os quase cinco mil itens postados no livestream do BlogBlogs mostram a importância do evento.

Quanto a mim, agradeço aos palestrantes e à platéia pelo apoio e compreensão. Volto agora para meu mundo de consultorias, aulas e palestras, feliz por ter conseguido provar uma hipótese: que é possível fazer um formato de evento diferente dos que conhecemos por aí.

Aprendi também que as pessoas são capazes de lidar com camadas superpostas de informação, mesmo que seja ao vivo. Que isso pode causar um certo incômodo, mas que o resultado pode ser inspirador.

Muito obrigado a todos. Talvez participe do FF09, talvez não. Agora vou me concentrar em meus clientes (alguém precisa pagar o Jack Daniel’s das crianças) e nas palestras que darei na Olimpíada de Algoritmo Hostnet, ao lado do monumental Maddog, e no meu querido Encontro de Web Design em SP, para que eu preparei um conteúdo que já foi exposto e aprovado em Curitiba e Porto Alegre e que estará por aqui em meados de Novembro.

ADENDO IMPORTANTÍSSIMO: essa série de posts foi escrita às pressas. Por causa disso, cometi uma gigantesca e imperdoável injustiça. Faltou agradecer ao apoio, compreensão e incentivo do Fábio Seixas e do Rafael Ribeiro. Sem eles, o Edson Mackeenzy e o Tiago Baeta não seria possível tirar a idéia do bloco de rascunho. Se não os citei nas três partes deste histórico foi porque eles foram tão fundamentais como o ar. É aquela coisa meio família. Você está tão acostumado a confiar e depender que acaba se esquecendo na hora de agradecer. Usando as palavras do Fábio (que me substituiu como host de um evento muitíssimo mais complicado e por causa do escândalo daqueles que têm ego obeso não recebeu as merecidas palmas), foram esses três que me ajudaram a transformar uma invenção em uma inovação. Muito obrigado, irmãos. Vocês são fantásticos. Mil perdões por não ter falado antes.

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