Já fazia algum tempo que eu vinha nutrindo a idéia de desenvolver um evento que falasse de inovação. As pessoas estão cada vez mais conectadas, o superávit de informação deixa muita gente perdida, a facilidade de acesso às ferramentas tornam o empreendedorismo cada vez mais viável e, acima de tudo, nós lemos os mesmos RSS, visitamos os mesmos blogs e ouvimos os mesmos podcasts que os gringos. Nada nos impede de ter boas idéias. Esta era só mais uma delas. Como todas as outras, precisou ser maturada para que não caísse no hype vazio da novidade pela novidade.

O fato é que vivemos em uma época de sobrecarga de inovação. Perdidas, as pessoas procuram cada vez mais soluções fáceis, prontas. Mimados, muitos querem a coisa mastigada, em pílulas, resolvida.
A vida, felizmente, não é assim. Minha insatisfação com essa cultura self-service de neguinho chorão, resmungão e reclamão, que não sabe propor nem inventar, mas que adoooooora criticar foi aumentando, aumentando, aumentando. Por mais popular que eu fosse nesse modelo de palestras prontas, por mais à vontade que eu estivesse em um palco, algo em mim me dizia que poderia haver algo além disso.
Claro que eu procurava sarna para me coçar. Só no InterCon eu já acumulava um bicampeonato com cara de tri: tinha sido eleito o melhor palestrante em 2005 e 2006 e, como mestre de cerimônias em 2007, fui aplaudido em pé por mais de 5 minutos. Podia ficar na moita, não precisava me expor. Quase desisti.
O Campus Party foi meio que a gota d’água nesse processo. Ao propor algo “diferente”, ele quase estabeleceu uma dicotomia: ou os eventos deveriam ser aquela coisa careta, estática, no formato de uma aula ou espetáculo circense; ou seriam uma feira completamente 2.0, totalmente UGC, anárquica e descontrolada.
Confesso que, no primeiro dia em que fui, saí de lá desanimado. Aquilo era um grande encontro de guetos, absolutamente sem interface com o mundo exterior. Parecia um São Paulo Fashion Week sem a área de comércio e intercâmbio. Muitas idéias, muita inovação. Nenhuma explicação.
Mas meu pai me ensinou a não acreditar em dicotomias. Muito menos nessa, que para mim não fazia sentido. Para mim era possível propor algo completamente diferente das duas formas. Foi aí que a minha dor de cabeça começou. Conversei com vários colegas que tenho, em diversas indústrias. Muitos deles não entendiam nada do que eu falava, a maioria deles era bem mais velha do que eu. O conjunto de suas histórias de vida me mostravam que eu deveria tentar.
Mas eu tinha medo. Afinal de contas, só teria a perder.

Conversando com o Tiago Baeta, percebi que se eu fosse testar algo novo, a arena para isso tinha que ser o InterCon. O público, afinal, era em sua maioria inovador e aberto a novos formatos. Ali não era lugar de políticas ou de favorecer nomes “consagrados”. Muito pelo contrário. Seria o lugar perfeito para reunir palestrantes com experiência em inovação - tanto na teoria como na prática - e valorizar o conteúdo sobre a forma, em todos os sentidos.
Tudo bem, mas o InterCon não era um evento amador nem invisível, muito pelo contrário. O frio na barriga aumentava. Para provar meu ponto, o formato tinha que ser inovador. Pedro Markun jogou a provocação no ar, mais foi a minha mulher, Paula, que me inspirou a idéia definitiva.
Foi vendo-a assistir TV que eu percebi que havia uma revolução silenciosa no ar. Nunca tinha visto nada parecido. Ela não zapeava como a minha geração zapeia. Não, ela assistia realmente dois ou três programas de TV… AO MESMO TEMPO. Isso pode parecer normal para você, mas para mim foi uma revelação. São essas maravilhas auto-evolutivas da sociedade em transformação que me fazem ter vontade de PAGAR para dar aulas. É a descoberta dessas mágicas cotidianas, mais que uma ou outra tecnologia, que me move. A Paula, percebi, assistia TV … em abas, como a navegação que fazemos na web. Como ela, as pessoas hoje - pelo menos o público de um InterCon - prestam atenção em diversas coisas simultaneamente, para depois, só depois, construir seu contexto.

Meu amigo Julius Wiedemann chama isso de “atenção parcial constante”. Uma espécie de evolução do “transtorno de déficit de atenção”, essa característica não é um distúrbio, mas uma nova forma de percepção. Era, enfim, mais uma pedra na lápide da comunicação linear e mais uma porta aberta na direção do ambiente contextual que mimicamos na web e que vemos presente em qualquer ambiente social.
Minha profissão é procurar o que há de novo no novo, e isso me leva a considerações incomuns, como a de ver Gestalt em um cartaz do James Brown ou a de ver a observação de tendências em Surf.
Com esse conceito em mente, fui atrás dos palestrantes ideais para desenhar a experiência perfeita.
Conto a trajetória na continuação deste post, daqui a pouco.





Foto inicial (grande angular) por Silvio Tanaka - http://flickr.com/tanaka
;)
“- Quem é Luli? “Perguntou o novo funcionário do Videolog. O analista mais experiente respondeu… “- O Oráculo!”
Oi Luli,
Queria falar sobre o formato das palestras simultâneas um pouco..
Sempre fui multitarefa (estou escrevendo enquanto testo um link, arrumo um questionário e leio emails). Minha mãe é meio culpada – quando eu não fazia duas coisas ao mesmo tempo, ela me perguntava se eu era homem rs.
Fui ao evento, curti as palestras simultâneas e cheguei em casa esgotada de sono com a experiência. Isso ainda que nem consegui tuitar ao mesmo tempo das duas palestras…
Queria dar um pouco das minhas impressões sobre o assunto “atenção”.
- Para mim, foi ideal a simultaneidade pelo fato da minha atenção flutuar naturalmente. Achei melhor que minha atenção flutuasse de uma palestra a outra do que como ocorreu nas palestras que não foram simultaneas, em que minha atenção flutuava pra bolsa, pro celular, pro vizinho etc.
- Não achei ideal nos casos em que as duas palestras foram muito interessantes, pois sinto que a atenção flutuante (em mim ao menos) ocorre justamente em casos de atenção parcial – mas quando se está com a atenção alta em certo assunto, a coisa muda – já que estamos falando da minha geração, pense num adolescente que faz mil coisas enquanto estuda, mas de madrugada joga o mesmo jogo na Internet, horas a fio, sem perder a concentração. Isto é só uma impressão minha, mas acho que vale ser estudado, para que o formato do evento possa ser refinado, aprofundado.
- Talvez o que falei acima seja comparável ao seguinte: Dá para ver TV e navegar na Internet ao mesmo tempo, em várias abas e vários canais. Tenta fazer isso lendo um livro ao mesmo tempo. Não sei vocês, eu não consigo.
- Mas uma coisa muito legal eu consegui fazer no evento, coisa que já faço no trabalho – ler uma coisa enquanto escuto outra.
- Outra coisa que pode ter a ver com o assunto é o tal do estado de fluxo – algumas atividades te colocam naturalmente em estado de fluxo, outras precisam de um nível maior de dificuldade, outras precisam de um nível menor de dificuldade. O legal das palestras simultâneas é que, com o rádio, você “ajusta” o seu nível de “complexidade”. O interessante seria que as palestras tivessem mais sinergia entre si.
- A idéia de juntar palestras me parece, como foi falado no começo do evento, não como uma forma de “registrar informações”, mas de “criar uma experiência”, “criar uma imagem” e todas essas coisas que têm a ver com o lado direito do cérebro. Como fazer um desenho. O que não combinaria, por exemplo, com uma palestra “aprofundada” sobre determinado assunto, ou com uma palestra técnica, horas em que você precisa do seu cérebro anotando, categorizando informações e fazendo conexões de maneira um pouco menos caótica. Achei que o evento cumpriu com o prometido neste quesito – inspirar, dar imagens amplas – em geral.
Vou parar por aqui pq tá passando de uma página no word, e eu deveria mesmo ter escrito um post de blog.
Resumindo, eu achei a idéia fantástica, e acho que pode ser refinada entendendo melhor como o pessoal se sentiu/ se comportou no evento.
Nossa, eu nao fiquei sabendo das palestras simultâneas, nem entendi 100%, mas o comentário da Tarsila eu achei super rico! Nem vou comentar senão repito, mas a customização da complexidade é bem interessante. Ah, lembrei de uma boa, o filme TIMECODE. Já viu, Tarsila?
“- Quem é Luli? “Perguntou o novo funcionário do Videolog. O analista mais experiente respondeu… “- O Oráculo!”
Definição que assino embaixo. Adorei.. rs
Este comentário refere-se a parte III deste POST:
Em primeiro lugar, gostei da citação do meu twitter , realmente a sensação foi de anti-climax, como você escreveu. Aquele tipo de coisa que no papel fica lindo, mas na hora de acontecer, broxa. Sei lá.
De qualquer forma, o conceito e o evento, como um todo, me agradaram muito (e também a um pequeno grupo de 15 alunos meus de web que estão comentando até hoje), fico feliz em poder ter assistido e também em colaborar, como colunista, no iMasters.
Resolvi iniciar uma pequena série de posts sobre o intercon 08, colaborando com a minha visão de espectador do evento.
Grande Abraço!