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Less is more, século XXI

Wassily

Um  mundo de abundância é um mundo de escolhas. Quando praticamente tudo é possível, o que faz a diferença não é mais o volume, mas o critério. É isso que os designers modernistas queriam dizer quando proclamavam que “less is more”: menos só significa mais quando os elementos escolhidos têm valor. Caso contrário, menos só quer dizer pobre.

O design contextualiza, explica e familiariza. Cabe ao designer ser o tradutor e intérprete dos novos tempos. Só que não adianta mais fazer algo bonito. Novos tempos demandam novos adjetivos. Selecionei alguns deles para ilustrar:

BO
Por apenas mil doletas você também pode ter um par dessas BeoLab 4,
pra compensar a $ que você economizou pirateando MP3.

O melhor exemplo desse uso de critério está no que nos acostumamos a chamar de minimalismo. Termos da moda à parte, ele propõe a redução do design aos componentes mais relevantes. No caos urbano, ele representa um abençoado silêncio. Essa simplicidade está muito longe de ser simplória. É preciso prestar muita atenção no detalhe. E fazer mais com menos.

O design pode ser fluido quando a superfície e a estrutura se fundem, a ponto de ficar difícil identificá-los. Apesar de novo em ambientes tecnológicos (como é o caso do GINA, falado no post anterior), é bastante comum em formas orgânicas. Cabe ao designer harmonizar o ambiente com a experiência dos usuários, para que suas fronteiras não sejam perceptíveis.

A hélice desse mixer imita as espirais de um lírio.
Super Poder dos Limites.

Os avanços da tecnologia permitiram ao design abandonar aquela estrutura “certinha” do plástico e do vetorial. Ele agora pode ser físico e lançar mão de transparências, luzes, sombras e texturas. Alguns podem achar que isso é reação à tecnologia, mas é exatamente o contrário: é expansão.

Campana

A poltrona de ursinhos dos irmãos Campana tem tanta textura que mal se vê.
A forma segue a emoção.

Não é preciso ser retrô nem gostar de Brian Setzer para se praticar o design reciclado. Muito pelo contrário, ele é um claro sinal de adaptação aos novos tempos, em que todos os materiais podem ser encarados como matérias-primas. Se bem feita, a intervenção passa a ser muito divertida e claramente identificável. Ou como diriam os curadores de museu e professores de semiótica, tudo é uma questão de repossuir os elementos e ressignificar as velhas formas, embora eu não esteja bem certo do que isso queira dizer.

Bond

As capas das edições comemorativas do James Bond usam um estilos
de bico de pena, simulando todos os defeitos inerentes ao meio.

Em um mundo hiperconectado, o valor do local não é mais o exótico, mas a forma de pensar. Tradição e essência se misturam em uma sopa geográfica, e cada região contribui como pode. O local pode ser físico, histórico ou cultural. Se for uma mistura dos três, tanto melhor.

Hata

Meus alunos da ECA me chocam. A primeira vez que vi usarem o keffieh,
fiquei impressionado pelo tamanho da falta de respeito. Depois acostumei.
Fora do ambiente, a simbologia desaparece e ele é só um lenço.

Costumam associar design a branding porque ele é extremamente identificador. Pensando bem, nós vivemos dentro de redes de mensagens, sinais, informações e aprendizados que produzem nossa experiência do real. Uma marca familiar funciona como um ponto de referência nessa confusão.

Air Jordan

Air Jordan. Claro que não é da Adidas.

Por falar em pontos de referência, é interessante falar da função narrativa do design. Ao organizar os elementos de múltiplas fontes, ele pode contar histórias e estimular a imaginação, transformando experiências que seriam tediosas em verdadeiras performances.

Esses museus são muito diferentes daqueles que você conhece.
Eles proporcionam uma imersão tamanha que a sensação é de se conversar com alguém que tem muito a contar.

Por último, como não poderia faltar, há o design incrível, que brinca com os sonhos e emoções em uma mistura que beira o imaginário. É ele que nos mostra a visão de um futuro possível, que não tem medo de delirar. Mesmo que se torne datado ou até mesmo ridículo com o tempo, não custa lembrar que todas as cartas de amor são ridículas.

Cirque

Espero que este post sirva de inpiração para a próxima vez que você se sentir sem idéias. Elas existem às pencas por aí. O que é difícil é arranjar critério. Não se angustie por não poder pegar tudo, não dá para comer todos os pratos do cardápio. Da mesma forma, um design que use cores ou letras demais costuma provocar uma bela indigestão visual.

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