O mundinho nerd está em polvorosa com o lançamento do Chrome. Uns acham que é a redenção, outros acham que o produto não está com essa bola toda. E sempre há quem tenha certeza certeza absoluta que ele é o arauto da dominação Global. Minha opinião é que os engengheiros de software do Google finalmente descobriram como ativar o “campo de distorção da realidade“ que o Steve Jobs maneja tão bem desde 1981. A apresentação do produto, em estilo graphic novel bicromático tem um quê cult extremamente familiar entre a comunidade de desenvolvedores. Se parasse por aí já seria uma belíssima intervenção de marketing, no melhor estilo daquela mesa que causou tanto barulho. Já era tempo de aparecer com uma coisa nova, já que o último anúncio do Google foi meio desanimador.
Para mim a verdadeira glória do Chrome não está em fazer um produto completamente inovador, open source, sólido e moderno. Isso, hoje em dia, é obrigação. Mas a enorme coragem e ousadia de redesenhar tudo, de partir de uma folha em branco para se criar algo completamente moldado em torno da experiência do usuário, isso sim, é admirável.
No mundo do desenvolvimento de interfaces e aplicativos, é muito comum se fazer uma pequena reforma, se reaproveitar um pequeno pedaço de código, se alterar somente o que realmente demanda alteração. Essa prerrogativa, embora seja bastante pragmática e muitas vezes econômica e funcional, tende a gerar frankesteins no melhor estilo arquitetônico dos “puxadinhos” em obras populares. A solução emergencial acaba se tornando permanente, o código incha, o CSS fica impenetrável e o layout passa a ter mais exceções que regras. Quem tem a coragem de fazer uma solução completamente nova pode até ter mais trabalho e gastar mais recursos que os outros, mas se sua visão for relevante, provavelmente será recompensado.
HiPhone. A ousadia desses caras é inacreditável.
Muita gente ainda acredita que a melhor prática de inovação é copiar a concorrência e melhorar aqui e ali, um detalhe ou outro. Em tempos de overdose de inovação, tem até os que usam argumentos moderninhos para defender essa idéia bizarra, coisas do tipo “microformatos” ou “mashup“. Não se podem misturar as coisas: um puxadinho de Kevlar continua a ser um puxadinho. E desculpas esfarrapadas costumam fazer mais mal do que bem.
Um bom exemplo de como repensar o produto em torno de uma experiência pode gerar resultados muito melhores do que fazer melhorias sobre melhorias está nos Smartphones, em especial nas empresas com tradição zero em telefonia, como a Apple e a Research in Motion. Por mais que você não goste de iPhones ou Blackberries, não há como negar a enorme influência que esses dois aparelhinhos tiveram, têm e terão sobre usuários de telefones celulares em geral. A foto abaixo dá uma dimensão de seu poder de influência:
Presidentes do G8 esperando por um iPhone. É mole?
A inovação é um processo rápido, competitivo e sem medalha de prata. Se você trabalha na equipe que emplacou o produto vencedor, meus parabéns. Se não tem nada a ver com essa indústria, melhor ainda: ganhou acesso a uma melhoria de qualidade de vida com estresse zero, nada mau.
Mas e se você trabalha na concorrência? Vai correr atrás feito muitas empresas chinesas para fazer um clone? Ou desenvolver uma versão “melhorada” de um produto extremamente popular, só para ser chamado de “o iPhone da LG”? O “Blackberry da Samsung”? Ou talvez o “Blackberry da HTC”? Como solução de emergência para parar de perder mercado e tentar segurar os preços das ações, você pode até tentar. Não é preciso ser especialista em branding para perceber que essa prática não deve fazer maravilhas pela sua imagem de marca. Se você discorda, considere a hipótese de ter uma “Harley da Honda”.
O iPhone nem foi lançado no Brasil e já tem mais de meio milhão de pessoas na fila de espera de uma das operadoras. Como uma empresa pode concorrer com isso? Propondo um “iPhone do B”? Propondo um produto que faz “tudo o que o iPhone faz, só que mais barato”? Ora, tenha dó. Que tipo de relação se constrói sobre essas bases? Imagine que você está namorando alguém. Gostaria de ser tratado dessa forma com relação ao ex-namorado da moça? “Ele é quase tão bonito quanto o ex, mas pelo menos não me trai” não é exatamente um elogio.
Pois é, mas o que sobra para uma SonyEricsson depois de anunciar que perdeu 97% dos lucros e teve que cortar 2000 empregos na metade deste ano? Abrir mão do mercado de telefonia? Até dá, mas o que os japoneses vão fazer com os suecos? Por falar em nórdicos, será que a Nokia, orgulho finlandês e responsável por 1/3 da bolsa de Helsinque, deve jogar a toalha? Talvez a Motorola, que faz parte da Fortune 100, deve seguir o caminho da Budweiser?
Não, absolutamente não é por aí. A solução para essas empresas está em pensar como fez a equipe do Google responsável pelo Chrome. Tenho até uma sugestão ou duas, mas posto depois. Enquanto isso sugiro a você que reveja os processos por que é responsável. Será que não tem nenhum “cyberpuxadinho” neles?



Google e Raposa “Fogosa”?
Arrisca um palpite sobre como fica a relação?
Pra varia, MUITO BOM o post.
Essa semana estava “limpando” htmls de um site e chegou no ponto que começar do zero estava mais fácil. Foram 3 layouts implementados em cima da mesma estrutura, muda um css aqui, insere divs ali e tudo era um enorme puxado, uma verdadeira favela em html.
Começar do zero é tão bom quanto formatar o computador - tudo funciona rapidinho, né? haha
Muito legal o post…
=D
Eu costumo dizer que prefiro esperar e ver onde vai dar todo esse “fuzuê”.
Eu gosto de novidades e bla bla bla. MAs de um tempo pra cá vejo que tudo vira notícia, alguém põe uma vírgula a mais em determinado assunto e isso já é coisa nova.
Acho que a gente precisa sim de coisas que nos facilitem a vida e tudo mais. Mas precisamos também de coisas realmente úteis e inováveis, não apenas mais uma invenção…mais um “puxadinho”…
Bem no estilo de “POG”, mas será que o Google não está “querendo demais”? Se pensarmos em 10 anos atrás época em que a Internet ainda não era tão forte aqui no Brasil, e o Gogle nascia, com somente uma “máquina de busca” e que, agora está presente em vários nichos e mercados diferentes, de mobiles à navegadores, de anúncios à mapas e fotos via satélite, o “mercado” parece, cada vez mais, privilegiar não diria a inovação tecnológica, mas a inovação de planos de negócio, de como aproveitar a tecnologia e transformá-la em algo essencial para o consumdor, transformar produtos em desejos, a Apple já fazia isso a algum tempo, me parece que o Googlle faz o mesmo agora, ainda que sutil, mas faz.
microformatos é “bizarro” ?
se eu nao entendi, desculpa :)
Abraço!
Muito obrigado a todos pelos comentários. Renan, infelizmente minha imaginação está aquém de uma fusão Google-Firefox. Para minha alegria, o devorador de mundos se moveu na direção contrária. Any, não adianta mais esperar. A velocidade das mudanças é atordoante e crescente. Se ficarmos parados envelheceremos muito rápido. Italo, o que é POG? Bruno Chaves, microformatos não têm nada de bizarro. Mas é usado como desculpa para tudo. Em alguns casos até para impedir a reestruturação do que deve ser reestruturado. Isso não é bizarro?
Uns anos atrás assisti a tua palestra em Porto Alegre no Encontro de Webdesign e, lá pelas tantas, um comentário sarcástico: “em breve o google estará fazendo as suas compras no supermercado sem, sequer, precisar ser mandado”.
Acredito que os próximos anos serão gloriosos ao google, tão gloriosos quanto foram os dias de império da microsoft. Talvez ainda mais, pois a mentalidade coorporativa se adaptou de uns anos para cá. Hoje o google lança aplicativos open-source, coisa impensável para a Microsoft, isso tira a cara de “vilão monopolista” do google, e faz com que acabemos nos identificando com essa idéia do “dar para receber” sem a necessidade de se prostituir perante o mercado. O google é o google. Ponto. Ele não precisar ser o “google afiliado do Mozilla” para ganhar a corrida entre as gigantes de software.
Enfim, que navegador é esse?! Fantástico! A área de navegação é para nós, designers, algo revolucionário. Comecei com a tua previsão de 2004 e encerro com a minha: estaremos projetando para o Chrome em muito - mas MUITO -pouco tempo.
Andróides cromados, uni-vos!
E em seguida leiam o comentário geek de um UI designer (e programador, pq não?) por trás do Chrome: http://limi.net/articles/google-chrome-benchmarks-and-more
POG = Programação Orientada a Gambiarra
;-)
Ótimo post!
Muito bom…
http://desciclo.pedia.ws/wiki/POG
Desculpe-me mas não vejo o salto de inovação por parte do Google com o Chrome. Para mim é apenas mais uma inovação incremental como as outras que você citou (e isso não faz delas menos nobres ou valiosas).
Nem toda inovação precisa ser radical e disruptiva, aliás não é isso que move “o mundo dos negócios”, é justamente a inovação incremental, a capacidade de criar um novo processo melhor que o da concorrência (bons tempos da Gol sem atrasos nos vôos e utilização acima da média dos seus aviões), uma interface mais amigável (iPhone), um novo modelo de negócios (Dell) e por aí vai.
O que o iPhone tem de disruptivo? Ele usou tecnologias existentes, apenas melhorou o pacote. Isso é inovação incremental e não disruptiva. Ele não mudou a maneira como o mundo funciona, por mais que fanáticos pela Apple (só para me defender, sou um) queiram pensar assim.
Sem dúvida a disruptiva é mais emocionante (como a criação da lâmpada), mas é rara. My 2 cents.
abraços
Concordo com você, Gian Carlo, que cada um vê inovação onde bem entende. Mas acredito que os argumentos do Google são contundentes. Principalmente ao abandonar todas as estruturas construídas até agora e partir do zero. Para mim esse é o marco da inovação de um iPhone, ou mesmo de um Blackberry. Ao colocar a fronteira da ruptura alta demais você vai acabar chegando à conclusão que nada é inovador, uma vez que tudo que fazemos é resultado de um processo de aprendizado ao longo da história. Acredito que o link que o Davi Lima passou é bem interessante e mostra alguns detalhes de performance do Chrome. Mas para mim o mais interessante foi mesmo a HQ que eles fizeram para passar aquele mundaréu de informações. Pena que não disponibilizaram em PDF.
Você tem razão, no entanto, ao chamar a atenção para o oba-oba. Não se pode confundir marketing com inovação, nem comprar qualquer idéia que seja lançada. O Microsoft Surface é um bom exemplo.
Enfim, vale o alerta. Mas é preciso tomar cuidado com o nível de exigência, caso contrário o mundo perde a graça.
Sem dúvida, a barreira do que é inovação disruptiva e do que é incremental não é fácil de ser definida… Mas nesse momento onde tudo é inovação e todos são empreendedores eu fico com o pé atrás.
Parabéns pelo blog, já assinei o feed. Curiosamente eu havia assistido sua apresentação do MeioBit (muito boa por sinal) ontem e cheguei ao seu blog por acaso hoje.
abs