Design

Parada final - Amsterdam, Holanda

Comparada com a correria de Londres, minha passagem por Amsterdam teve um ritmo bem mais tranqüilo. Até porque, confesso, eu estava moído. A cidade é muito bonita mesmo, não tem conversa. Claro que um dia muito longo de sol também dava uma força.

“Moço, o sr. viu a minha bicicleta? Ela é uma preta…”

Passando por aqui a caminho de minhas conversas com o Tom e o Yomar, eu já tinha reparado que o design é onipresente por aqui. Por incrível que pareça, eles são meio fraquinhos em web, pelo menos no que pude ver. Os sites têm ainda um ar empoeirado, meio retrô-começo-do-século (do século XXI, entenda-se). Em compensação o design gráfico é uma porrada, como dá pra se ver nesse cartaz divulgando a manjadíssima e encenadíssima peça “Sonho de uma noite de verão“, do tio Shakespeare, que foi ensaiada até em “Sociedade dos Poetas Mortos“.

…ou em um festival de wold music em que não se mostram cabelos rasta, guizos, tambores ou chocalhos:

…ou mesmo no logo de um escritório de advocacia, sem pilares gregos ou Times New Roman, muito pelo contrário:

…ou, é claro, na moto da polícia:

O fato é que na Holanda - ou pelo menos em Amsterdam - respira-se design. E o ar é bastante puro. Os exemplos que eu coloquei aqui são, para mim, os mais significativos. Não por serem os mais bonitos ou chamativos (até porque, ao contrário de Hong Kong, tudo por aqui é muito discreto), mas por serem designs de coisas comuns, vistas e revistas e revistas, de onde não parecia capaz que saísse idéia nenhuma. Imagine um cliente como os acima, com milhares de variações sobre o tema “clássico” e talvez fique mais clara a minha perplexidade. De certa forma, essas peças me lembram o website da Havaianas, concebida pelo genial Adhemas:

Em minha última escala, duas das minhas entrevistas tiveram de ser canceladas, o que é uma pena. Mas em uma cidade dessas nada é perdido e o Radfahrer aqui aproveitou para fazer um passeio e encarou coisas mais estranhas que alguns hábitos sauditas: congestionamento em ciclovias (já tinha enfrentado um na Áustria, é um saco), contramão em ciclovia (demorei um tempo pra entender como me comportar, é algo quase tão hermético quanto entrar em uma rotatória com um carro inglês) e outras vicissitudes, como semáforo amigo aí de baixo:

Não, não me pergunte: eu não entenderia nem depois de tomar um Absinto.

Acredito que não tenha sido intencional, mas meio que transmite a mensagem do risco que corre um pedestre em terra de ciclistas. Nem os cachorros latem para elas.

Uma coisa que se nota é que, apesar do enorme senso de organização e do cuidado com o detalhe visual, as pessoas que encontrei por aqui me pareceram bastante sossegadas e brincalhonas. Nada daquela obsessão esnobe ou neurótica que se costuma associar a outros centros urbanos, como Paris ou Nova York. Repare na citação em latim desse pórtico, por exemplo:

Juntando o útil ao agradável: se essa menina não se tornar designer, será daqueles clientes chaaaatos…

E, como sempre, os chineses e seu fenomenal senso de oportunidade: já que a loja do Van Gogh Museum fica dentro do museu e não pode ser visitada sem que se pague a entrada, nada como uma “promoção” do lado de fora. Considerando que achei uma etiqueta “Made in China” no lenço que trouxe de Riad pra minha mulher, por que não?

Se a viagem fosse só de turismo, não renderia um post. Minha única entrevista em Ams’dam compensou a viagem. Ela foi com a Liesbeth, editora do Springwise. Super gente boa, me mostrou uma visão bastante serena e sensata sobre toda essa hype de inovação. Segundo ela, os Estados Unidos ainda são o país de onde vêm as maiores novidades - e que, por mais que se falem de potências emergentes ou do desenvolvimento de países europeus e asiáticos nessa área, é incomparável a vantagem americana. Disponibilizarei a entrevista, como todas as outras, assim que conseguir transcrevê-la. Trabalhinho insano, esse.

A Liesbeth não sabe guiar. Essas chaves são da sua bicicleta. Ela sente falta de um carro na hora de viajar e certamente odeia motoristas de Táxi mais do que você.

No dia seguinte minha viagem acabou. Acordei antes do sol nascer (cerca de 4 da manhã), peguei bonde, metrô, trem, avião, ônibus e táxi e, depois de 20h, estava em casa. Foi uma viagem e tanto, em que aprendi e revi um monte de coisas que acreditava serem definitivas. A principal função do aprendizado é essa, não?

Coda: cansado e feliz ao chegar a SP, descansado e preocupado ao começar as transcrições em Ubatuba. Duvido que tenha todas as transcrições prontas antes de meados de Agosto.

A partir do próximo post, abandono meu cotidiano e volto a comentar aspectos gerais do design digital, cultura de inovação e outras mudanças da vida contemporânea em meus ensaios nem sempre curtos, às vezes herméticos. Em outras palavras, volto a tratar este blog como um não-blog.

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