Cultura Digital, Design, Palestras e entrevistas

Quarta parada - Londres, Inglaterra

Alou?

Luli: Julius, no meu caminho de volta do KSA vou passar uma semana entrevistando pessoas e coletando referências para meu livro novo. Estava pensando em passar por Amsterdam, o que você acha?

Julius: Amsterdam é ótima, você vai encontrar muita gente interessante por lá.

Luli: Legal, bom saber. Que outra cidade vale a pena visitar para ter uma perspectiva mais ampla?

Julius: Londres, sem dúvida.

Luli: Berlim não é bacana?

Julius: É, mas Londres é muito mais.

OK, bora pra Londres. Não dá pra reclamar, muitíssimo pelo contrário. Na verdade, como eu já morei em Londres em 2000-01 e - falha no currículo - nunca tinha ido a Berlim, pensei em aproveitar a oportunidade. Mas como meu chefe sou eu mesmo, não dava para picaretear.

Pra ser honesto, também tinha uma bronca com Londres. Minha vida por lá coincidiu com o 11 de Setembro, uma época não muito boa para estrangeiros, onde quer que estivessem. Mas não há como negar que a cidade é fascinante.

Algumas placas são um estímulo à imaginação, não?

Comecei minha entrevista pelo laboratório de tipografia da London College of Communications, antiga London College of Printing. Lá tive uma conversa muito boa com o Alex Cooper, em que conversamos sobre o tempo que o trabalho manual requer e esse processo de mensuração e cálculo leva o designer a meditar sobre o trabalho que faz, analisá-lo melhor e ponderar soluções. Ele, apesar de apaixonado pelo que se convencionou chamar de “artes gráficas”, não tem nada contra computadores e acredita que possa haver uma convivência saudável entre os sistemas artesanal e eletrônico.

Não são todos os alunos que concordam com esse ponto de vista, como bem se pode ver neste vídeo, feito na mesma escola:

Depois dele, conversei com os professores Tony Pritchard e Jamie Hobson. Tivemos um longo e extenso debate sobre fundamentos, questões conceituais, a ênfase na idéia, processos e, principalmente, sobre a diferença entre design e firula gráfica e a questão fundamental da disciplina artesanal, que, mesmo com computador (e principalmente com ele), se concentra em cada detalhe cuidadosamente.

Essa é uma matriz de impressão. A Monotype estava jogando os originais fora e o professor Pritchard pegou uma pra mostrar pros alunos.

Verão europeu: sol se pondo às 10:30 da noite e lua cheia. Assim fica fácil.

No dia seguinte fui falar com o Jeff Knowles, na Research Studios. Se você não conhece o estúdio ou acha que é instituto de pesquisa, vale lembrar que é o estúdio do Neville Brody, o sujeito que praticamente reinventou o design nos anos 80, ao diagramar a revista The Face. Esperava encontrar um baita predião numa torre metida a besta em Canary Wharf, o bairro estranho em que Londres tenta copiar Nova York? Esperava encontrar uma agência “descolada” com um hipopótamo no jardim? Esperava encontrar gente afetada com terninhos Armani? Pois esqueça: o lugar que redesenhou a marca Kenzo e a transformou em uma fábrica cafona de perfumes dos anos 80, uma coisa meio Azzaro, em uma das marcas mais descoladas do segmento, com a espetacular Flower by Kenzo parece mais aquele escritório mambembe que você e seus bróderes montaram ao sair da faculdade: um sobradinho sem graça, com pilhas de livros e cabos espalhados e uma baita confusão.

Pode ver que os designers são moçada, de camiseta e super gente boa. Na tela do computador do cara à esquerda tem um grid, é bom deixar bem claro.

Tá estranhando o quê? Vai dizer que você nunca espalhou layouts pelo chão?

Como falei, um sobradinho sem nada de especial, em bairro idem.

E aqui estou eu, sentado na cadeira em um dos caras
que me inspiraram a seguir na profissão. Confortável.

À tarde fui para a CHI&Partners, trocar uma idéia com o diretor de criação associado Thiago Boud’Hours, também conhecido como Tibo e meu ex-aluno da ECA. Dá um baita orgulho ver aqueles carinhas que a gente conheceu bem no começo de carreira se tornarem figurões importantes. Dá mais orgulho ver que, mesmo com o cargo e o dinheiro, ele continua praticamente o mesmo. Quer dizer, fora essa barba, que o deixa com cara de iraniano.

O papo foi excelente, e durou quase duas horas. Ele sempre teve uma visão bastante ampla e sensata, coisa rara no freak show que é o mercado de propaganda. Por isso, sem falar em prêmios ou modismos, comentou-se a racionalização dos processos, o problema de campanhas de alcance mundial, a riqueza de abrangência que as novas mídias permitem e a constatação que o óbvio é o novo criativo. Fantástico.

Saindo de lá consegui uma folguinha curta pra ver a exposição de Street Art na Tate Modern, com direito a uma megailustração feita pelos OsGemeos na parede da galeria.

Saí de lá atrasado para um chopp que tinha marcado com o Caco Vaccaro e o Ricardo Scappini. Designers brasileiros de primeira que trabalham em agências daqui. Soube histórias divertidas, como o fato do Caco ter vendido o meu DWD:2 junto com sua biblioteca inteira para custear a viagem para Londres (bom negócio, rapaz, disponibilizei o livro online de graça). O Ricardo me conta que trabalhava na Urbana, estúdio de dois amigões meus, justo no dia em que foram me fotografar para uma matéria sobre o A.D.G.P.Q.M.N.Q.D.P.R., que ainda está em catálogo, aqui.

Foi um papo excelente, regado a muita Guinness, em que se comentou um pouco da brasilidade, de nossa flexibilidade e criatividade e como isso é um excepcional diferencial competitivo nesse mundo cada vez mais estruturado, quadradinho e encaixotado. Me lembrou o sensacional livro “A Whole new mind“, do Daniel Pink, que eu comentarei posteriormente, junto com o ótimo “O mundo é plano”, do Thomas Friedman.

Esse post ficou enorme e só falou de dois dias. O último dia em Londres, com as quatro entrevistas que aconteceram nele, fica para o próximo post.

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