Ao tomar um café e comer uma appeltaart no aeroporto de Schipol, em Amsterdam, pensava nas experiências da semana e meia que tinham se passado como um tipo de sonho estranho, uma realidade paralela. Os países que eram extremamente parecidos com o nosso, tanto pelas discussões que se viam na ArabAd quanto no uso intenso do Facebook eram, ao mesmo tempo, tão diferentes. Em uma conversa com meu amigo Rabih, comentei como o KSA era exótico. Ele me responde prontamente: “exótico? Exótico é o Brasil. Esse país é louco.” E completa: “Sabe o que faria muito bem a esse país? Uns 10% de brasileiros, pra flexibilizar um pouco as coisas.” Sábias palavras. À medida que avancei na viagem que eu consegui perceber que elas tinham muito pouco de pejorativo. Falo mais disso depois.
De volta ao meu café. A sensação de realidade alternativa ainda persistia, por mais que eu estivesse no que se convencionou chamar de “primeiro mundo”. As coisas eram limpas demais, organizadas demais, assépticas demais e, acima de tudo, obsessivamente organizadas. A impressão de “admirável mundo novo” - no que ele tem de esquisito, não no que tem de bom - era inevitável. O café, a propósito, era ruim. Em resumo, exatamente o contrário do que tinha vivenciado até então.
Sem muito esforço, peguei um trem para Rotterdam, onde me esperava o Yomar. Designer de primeira, foi meu primeiro entrevistado e teste para um novo gravador que funcionou espetacularmente. Sentamos em um pub europeu típico: madeira velha, cheiro de cigarro, comida estranha e gordurosa e serviço ruim. Mas a companhia valia a pena. Ali trocamos uma excelente idéia sobre arte, free-lances internacional, deixar o Brasil e voltar pra casa, o nível de qualidade holandês e uma série de outros pontos bem interessantes.

A entrevista, como todas as outras a seguir, foi gravada mas não será disponibilizada aqui. O que eu combinei com os entrevistados foi que transcreveria o material, enviaria para que eles façam eventuais adaptações, correções e tergiversações. Quando me devolverem, devo selecionar alguns trecho para publicar aqui, outros ficam só para quando o livro estiver pronto. Não gostou? Paciência. Não sou repórter e confesso não ser muito fã do espontâneo e “ao vivo”, a não ser quando estritamente necessário.
Depois da entrevista, Yomar me levou para dar uma volta pelas ruas de Rotterdam, uma cidade litorânea com albatrozes e cheiro de mar, mas com uma quantidade desproporcional de galerias, livrarias e eventos culturais. Ele mora aqui e trabalha em Amsterdam, que está a meia hora de trem, se você escolher o trem certo. Eu escolhi o trem errado e levou mais de uma hora. Mas foi um passeio bem agradável.
Tem tanto jornal cultural e de galeria que não tem mesa que caiba.
A solução é espalhar pelo chão e em degraus de escadas.
A atenção para a tipografia é impressionante.
Rotterdam é especialmente silenciosa e tranqüila, principalmente quando considerada sua efervescência cultural e econômica. Ela tem, no entanto, uma diferença gritante com relação à maioria das cidades européias: sua arquitetura é muito ousada e criativa, o que dá uma boa pista do pensamento liberal do holandês. Os prédios podem não ser universalmente aceitos como “belos”, mas são muito inusitados. Ruy Ohtake faria a festa (e passaria despercebido) aqui.
Voltei a Rotterdam na semana seguinte, para entrevistar o Tom Dorresteijn, sócio do Studio Dumbar, um dos melhores escritórios de design do mundo, que entre outros clientes tem o governo holandês e seus treze ministérios, a força policial e um monte de outras coisas.

Gostou da moto? Entre pra polícia que você ganha uma.
Conversamos longamente sobre a relação designer-cliente, as identidades de países, autenticidade, personalidade e a função do designer. Acredito que foi uma das melhores entrevistas que tive na viagem, vocês poderão confirmar quando eu publicá-la aqui.
A propósito, tanto o Tom quanto o Yomar são tão gente boa que não duvido que se disponham a responder a algumas perguntas sugeridas por vocês. Por isso vamos fazer o seguinte: pensem em alguns tópicos que, daqui a umas duas semanas, quando eu acredito que publicarei os excertos, debateremos para selecionar alguns e mandar para eles.
Popularity: 27% [?]
Olá Luli,
Gostaria de sugerir três perguntas ao Tom e ao Yomar:
1) Até que ponto a identidade cultural pode ser observada nos trabalhos de designers?
2) Existe um design que seja “internacional”?
3) Como criar para um público formado por habitantes de países com culturas extremamente diferentes?
Me perguntei sobre de expressão cultural de um designer durante a leitura deste capítulo do diário.. e agora ao abrir esta para comentar, me deparo com a pergunta da nossa também leitora!
Bom, acho que a resposta estaria em 2links, acessando o próprio site da studiodumbar, não entendi bulhufas de onde querem chegar ou oque querem mostrar.. já na página da nossa leitora a priorycomunicação.. aquele jeitinho brasileiro de explicar, desde historia da empresa, até como chegar..
É como a questão que o Rabih colocou ao nosso amigo, ”uns 10 brasileiros para dar flexibilidade”
Boa viagem luli!