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Porque não fui a Cannes

Leãozinho

Durante os preparativos para a viagem, me dei conta que a semana em que eu pretendia passar pelas cidades e entrevistar os profissionais nos estúdios coincidia com o Festival Internacional de Publicidade de Cannes e que vários amigos e ex-alunos meus estariam por lá, não em Londres ou Amsterdam. Uma pena. Cheguei até a cogitar dar um pulinho lá, mas confesso que não gosto do espírito do festival.

Cannes

A cidade é legal, é o festival que estraga. Ela é uma daquelas típicas cidades da Riviera Francesa, mediterrânea, quente e alto-astral. Embora um pouco decadente feito Guadalupe ou Acapulco, mas só por ter sido palco de “Ladrão de Casaca“, merece crédito. Nessa época do ano, as praias de pedras explicam porque gringo vai de papete pro mar, e o clima não poderia ser dos melhores. E no entanto…

Pra quem nunca foi a Cannes no Festival Internacional de Publicidade, acredito que uma vez seja mais do que o suficiente. A minha foi em 2000, ano que o “WAZZUP?!” fez barba, cabelo e bigode. Curiosamente, os prêmios que ganhei por lá foram em 1997 e 2003.

Eu achei o lugar afetado, com um exibicionismo e um fetiche por prêmios desproporcional à sua verdadeira importância. Como se não bastasse, todos os lugares eram ambientes de networking, e muita gente parecia estar lá mais para tirar umas férias ou arranjar emprego que para acompanhar as últimas novidades do mercado. Além disso, a quantidade de prêmios exposta no Palais é tão grande que embota os sentidos e atordoa, a ponto de muita gente ir pra lá para escapar do burburinho e – por que não? – tirar uma soneca, já que tem festas à Hollywood todas, todas as noites. E são muitas.

O ambiente faz com que “O Diabo Veste Prada” esteja mais para documentário que ficção. Os sorrisos e tapinhas nas costas vazios absolutamente não fazem o meu gênero, eu sinceramente prefiro uma cerveja quente em uma mesa de boteco com um grupo de estudantes que me faça rever posições e aprender tendências do que os frufrus, rococós e dompérignons dos restaurantes esnobes ou do insuportável lobby do hotel Martinez, ambiente que lhe viram as costas sem aviso e que criativos que eram tratados como manobristas no ano passado são tratados como superstars depois de duas ou três campanhas fantasma. Parece o final do Império Romano. Cadê o Nero quando se precisa dele? O Borat já servia…

Cannes

Não, melhor não ir. Até porque, como no TED, o melhor do festival sempre escapa para a Internet, e a única lembrança que resta é a oportunidade única de se ver uma fofoca de perto. Muito obrigado, vou visitar quem, como eu, dispensa as honrarias e adora a semana mais tranqüila que se anuncia depois de passada a histeria de se produzir peças com o foco exclusivo em levar prêmios no festival.

Mas essa é só a minha imodesta opinião. De qualquer forma, este é meu diário de viagem. Bora pra Londres, então.

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