Palestras e entrevistas

Segunda parada - Beirute, Líbano


Yalla! Yallllllla! Yaaaalllllllaaaaaaa! Anda, desgraça! A primeira coisa que se nota em Beirute é o trânsito, um vale-tudo em que vale qualquer atitude que caiba nas leis propostas por sir Isaac Newton. Entrar na contramão em uma via expressa? Pode. Obstruir uma ambulância? Demorô. Ignorar semáforos e pedestres? Tamos aí. Estacionar em qualquer lugar? Qualquer, qualquer, qualquer lugar? Opa! Acredito que uns anos de guerra civil levaram a um estado de tensão permanente no tráfego, pois tudo isso acontece em uma relativa harmonia, com poucas buzinas e todo mundo mais ou menos que se entendendo. Quer dizer, todo mundo menos o gringo aqui. Pra tornar as coisas mais emocionantes, só chove em três meses do ano, por isso muitos engenheiros simplesmente desapegaram de fazer qualquer espécie de drenagem das pistas. O óleo expelido por automóveis e caminhões em variados estados de conservação, acumulado por nove meses, torna as pistas algo… inerciais. Tudo isso sem contar que as casas e prédios não têm número e muitas ruas não tem nome. Os motoristas se orientam por acidentes geográficos que, em alguns casos, já desapareceram. Meu endereço, por exemplo, era “Metropolitan Hotel, Sin El Fil”. Só? Só.


Como se não bastasse, de vez em quando a polícia resolve fazer bloqueios ou checkpoints e paira no ar a eterna probabilidade de Israel mandar um SCUD de lembrança, transformando uma ponte em escada do Harry Potter ou um prédio em cratera da rua Capri, ou ambos. Mas se isso não amedronta os motoristas de táxi, o que dizer dos destemidos jovens em suas Vespas?

Em outras palavras, andar pelas ruas de Beirute é uma baita emoção. Talvez um moto-táxi em Bangkok ou uma bicicleta no centro histórico de Roma sejam piores, não sei. Não sou tão corajoso assim.
A segunda coisa que se nota – para você ver como o trânsito é caótico – são os buracos de bala nas paredes. Eles são muitos, e datam de épocas variadas. A maioria vem da grande guerra civil que transformou aquela que seus tios e avós de ascendência libanesa chamavam de “Paris do Oriente Médio” em uma grande confusão. Dá pra acreditar. Apesar de tudo, ainda se vê, aqui e ali, umas construções belle-époque, em um mix pós-moderno com ruínas greco-romanas, prédios estilo caixote hediondos da década de 70 – todos com varandas ENORMES – cortinas grossas pra compensar o calorão - e umas mesquitas gigantescas que a turma do Hezbollah resolveu enxertar nessa Babel de conflitos.



Essa estátua, preservada no centro da cidade, é um bom exemplo da destruição que aconteceu por aqui: vista de perto, ela é uma peneira com furos pra dar inveja a qualquer Nike Air.




Tirei essa foto da janela do carro do Rabih: ela é um bom exemplo de Beirute: Porsches, plantações e um caos urbano convivendo em relativa harmonia. Lembra algo? Agora entendo porque há tantos libaneses em São Paulo: o ambiente, pelo menos, não é tão estranho assim. E nós não temos guerra. Quero dizer, não declaradamente.
Mas toda essa tensão pode dar a impressão que a cidade é ruim, o que é um baita engano. Acredito que pela constante ameaça de caos, as pessoas vivam em uma bela harmonia e uma impressionante alegria e cordialidade. Não é bem uma Barcelona, mas é mais alegre que Recife, em linhas gerais. Como pernambucanos, eles têm posições políticas bem fortes e fundamentadas, melhor não discordar delas. O resto é relax. Me disseram, inclusive, que tem umas baladas ótimas. Algumas até um pouco histéricas demais, como se o mundo fosse acabar amanhã.
Essa é a opinião de Jennifer Carey, que apesar do nome, não é cantora nem curvilínea, mas uma americana com quem trabalhei aqui. Ela está para se casar com outro americano, o Ryan. Ambos gente finíssima e bastante conectados. Pra você fazer uma idéia, eles ainda usam o conceito de elaboração de personas para o planejamento de websites, embora o considerem um pouco ultrapassado.

(Vi essa placa quando o casal me deixou no aeroporto, era a piada pronta, por mais que não concordasse. Mas achei melhor não dizer o que Azar significa em português)
A cena interativa aqui também é bastante desenvolvida. Tive um almoço com uma designer, a Nathalie, que tem conexões em vários países e um portfólio de não fazer feio em nenhuma publicação internacional. É divertido ver que as peças delas parecem um pouco as desenvolvidas em São Paulo e sul do país: bonitas, refinadas, mas um pouco frias demais para uma cidade tão efervescente. Talvez seja exatamente esse o motivo, não tive a oportunidade (nem considerei adequado) perguntar.

Meu escritório: o que você vê atrás é uma grade de proteção e uma estufa, não pense besteiras.

A caminho do trabalho. Yalla!

Tipografia tosca é uma pandemia…

Nargüilés por toda parte, dos bares chiques aos botecos.





A pedra natural da região é muito bonita – e faz construções espetaculares, como as do centro da cidade, todo restaurado. OK que eles têm essa coisa com guerras e destruição, mas achei que poderia ser um pouco menos “cenográfico” – está tão limpo e liso que parece meio disneylândia. Mas mesmo assim é muito bonito. O mais legal é ver igrejas e mesquitas, uma de frente pra outra. Sinagogas? Melhor nem perguntar. Aliás, o oficial de imigração, fardado, eum um aeroporto que cheirava a cigarros, me pergunta se eu estive em Israel. Ao dizer que não, ele me sacaneia perguntando: “não quer ir? Ouvi dizer que é linda…” Sorte minha que eu sabia que, se tivesse visitado Israel, não entraria no Líbano. Simples e tenso assim.


Mudando o assunto para coisas mais conhecidas, vale falar da comida, conhecidíssima a ponto de gerar situações constrangedoras, do tipo: “vou te mostrar um prato muito bacana… KIBE! ESFIHA! TABULE! COALHADA!” Hahahahahahah! Vamos lá, finge que é novo e não ri. Até porque todo mundo aqui cozinha muito, muito bem. Falar de comida é um assunto profissional. Manja conversar com Mineiro sobre temperos ou gaúchos sobre churrasco? Então.

Playboys com capa preta. Mas pelo menos elas existem. Se vc entrar no KSA com qualquer coisa no seu HD que LEMBRE pornografia e for parado na alfândega, já era. Por isso nossas máquinas passaram por um “pon patrol” preventivo antes de sair do país. Por segurança, minhas músicas e filmes foram pro saco. Agora tenho que ouvir audiobooks…

Para finalizar este capítulo, nada como um belo jantar regado a Arak com toda a equipe – curiosamente, na mesa do lado estavam três dirigentes do Hezbollah, por isso não se flou em política ali. Ainda bem, pois não entendo nada desse emaranhado ideológico deles. De qualquer forma, acredito que minha contribuição profissional tenha sido válida, pois um ponto de vista externo é sempre bom. Mas confesso que saí no lucro, pois ganhei dinheiro para aprender muito. Nada mal.

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