Carreira, Palestras e entrevistas

Primeira parada - Riyadh, Arábia Saudita

Muhammed acelera o carro de Wadih pelas ruas enormes de Riad. São duas da manhã e a temperatura está agradável, perto de 36ºC. A essa hora, felizmente não há mais trânsito. Ainda bem. Em um país que a gasolina é (muito) mais barata que a água, não são ruas de sete pistas de cada lado que evitam um razoável buzinaço. Não chega a ser um SP ou mesmo um Rio, até porque não há ônibus nem gente a andar pelas ruas - e motoboys seriam cozidos se andassem a 60 Km/h debaixo de um sol de 47ºC. Mesmo assim, acho que o que eles chamam de “trancado” em Porto Alegre seja bem livre para os padrões daqui. Dizem que há mais do que um carro por habitante em Riad, mas isso é impossível de calcular.

O Islã não permite a usura, e isso faz com que um mesmo carro seja comprado e vendido cerca de seis vezes, em um sistema de empréstimos bancários que faz a eleição nos Estados Unidos simples.

Chego a meu quarto tão cansado que resolvo aproveitar o ar condicionado generalizado para tomar um belo banho de banheira. Não dá pra ver direito o controle, por isso coloco no máximo do calor para depois temperar. Um tempo depois, nada de esquentar. “OK, vai ser um banho meio frio”, penso eu, só para ver que o registro estava no que eles consideram gelado. Mudei de idéia.

Cheguei aqui naquela correria típica de apresentação: jantei McDonald’s no hotel, almocei num clone dum Burger King, café no Bufê do hotel. De bom, até agora, só a coalhada e um croissant de Zaatar. A comida daqui não é inspiradora (arroz apimentado com carne gordurenta). No entanto, a comida árabe em geral, espalhada pelo Império Otomano e aperfeiçoada no Levante - aquela que a gente conhece tão bem em SP, com seus quibes, hommus, kaftas e tabules - é sempre muito boa.

“I’m not a terrorist with a Humvee, trying to be dead,
I’m just an Arab with a Hommus and a Pita bread”
UGC made in Dubai. Se mostrasse isso em Riad,
rolava deportation. Depois falo da porn patrol.

A apresentação foi muito boa, fiz amigos e influenciei pessoas. Confesso que estava nervoso, abri minha apresentação com um SLM padrão e mandei bala. Mais da metade da sala de reuniões vestia túnica branca e turbante. Para minha surpresa, o CEO, do Kuwait, abre a reunião dizendo que passou a respeitar as redes sociais depois de ver um documentário de 20 minutos na BBC sobre o sucesso do Obama e as redes sociais. Gancho perfeito, comecei. Um cara de túnica e barba, meio mal-encarado, levantou dúvidas com relação a países árabes e conteúdo. Excelente pergunta. Respondi e ele se deu por satisfeito. Mais tarde ele veio comentar, sorrindo, que a filha dele era usuária do Club Penguin e que o tinha recusado no Facebook porque ele era “muito velho”. Super gente boa, ele era do Bahrein e achava aquele país muito louco. Me perguntou se eu havia visto alguma mulher ali. Disse-lhe que não e ele me respondeu: “então!”. Pra completar, o VP de Marketing, tunisiano com passagem pela KPMG de Mali e que teve a opção de ser CEO do Sudão mas preferiu ficar na KSA (sábia decisão), veio falar comigo que gostou muito e que só não aplaudiu porque era uma reunião corporativa.

Então tá, se é o sr. quem diz…

O resultado é que eu fiquei besta. Se a reunião tivesse sido em NY ou Paris ou SP, acredito que encontraria gente mais teimosa ou besta ou turrona. Na saída, vejo um dos caras da reunião explicando para um com jeito de alemão que Niger não era Nigéria. Aproveito para perguntar como era Niamey e os dois arregalaram os olhos. Achei que tinha falado bobagem mas fui recebido com um baita sorriso e aproveitei para destacar o alto nível da educação brasileira. Ninguém precisa saber que meu pai é geógrafo. Não ali. Valeu, Pai!

O mundo é cada vez menor, mas o Kingdom of Saudi Arabia (KSA para os íntimos) não poderia se importar menos. Com o barril ao preço que está, eles ainda têm muito a ganhar. E debaixo daquele areal ainda tem Urânio, Cobre, Ouro… sob certos aspectos, isso não é muito diferente do Canadá ou da Namíbia. Mais interessante que o primeiro, menos perigoso que o último. Pouco importa se você for homem ou mulher.

Confesso que, apesar de ter alfinetes em boas partes deste globo, de ter sido preso por um guarda de fronteira húngaro, de ter apanhado de um guarda chinês, de ter escapado por um dia de um atentado na Jordânia e de passar por vários checkpoints em Beirute, estou chocado com a quantidade de barricadas e militares - tinha achado o Líbano tenso e eles tinham acabado de sair de uma guerra, mas comparado com o que vejo aqui, Beirute é Zurique. Saca pick-ups com metrancas giratórias na caçamba? Pois. Perguntei a meu amigo Rabih se não era paranóia e ele me responde com um fantástico senso de humor árabe, que os sauditas têm que se proteger de si mesmos. Ou melhor, dos terroristas que criam: “saca aquele cara que cria Dobermanns e precisa se proteger deles? Pois é mais ou menos a mesma idéia”.

O banco recusou meu cartão. Pela cara do tio, fazer o quê?
Reclamar pro Papa que não dá.



Os caras daqui A-DO-RAM o Txávez e não há quem os convença do contrário. Ouvi coisas da Condoleezza que não tinha ouvido da Cicarelli quando ela tentou bloquear o YouTube ou da mãe do juiz que mandou o Corinthians para a segundona. Eles chamam Israel de Palestina e acham que boa parte do 11/9 foi gorpe. E esses são os esclarecidos, aqueles que acham normal a mulher andar a seu lado, embora não lhes dêem a mão e acreditem que as regras do casamento se “flexibilizem” quando se toma um avião. Acham estranho que eu nem repare nas moças e que jamais passe pela minha cabeça agir feito um chiuaua no cio, mas até respeitam. O que eles acham muito doido é o fato de eu não fumar. Nada, nem um charuto ou cigarrilha? Mas… nem mascar um tabaquinho?


Caso eu me perca, Meca fica pra lá.

Terminada a apresentação, no dia seguinte tive meio período para passear por uma cidade em que ninguém anda pelas ruas, que “date” quer dizer “tâmara”, os guardas não deixam fotografar nada e que o calor… bem, faz com que Palmas pareça Helsinque. Seca. Foi uma emoção, mas não cabe neste blog. O mapa taí, digno de Guinness de manezice: saí do hotel e o sangue fervia: 38ºC. ATMs não aceitam cartões estrangeiros e pouquíssimos são os bancos que fazem câmbio. Não sobrou pro táxi, tive que camelar. Sacou? camelar, Rarararará! O sol do deserto está me deixando goiaba. Pelo menos segui a orientação da minha mulher e passei protetor. Não segui a orientação dela e comprei uma chuteira. Sempre quis ter uma. Amanhã vou trabalhar com ela.


Cartão do hotel, para que o taxista saiba como te levar de volta.

Como há controvérsias quanto à representação da figura humana,
melhor não arriscar e cortar a cabeça. Não há ego de fotógrafo que questione

Ah! Esqueci de falar dos gringos. O KSA está cheio deles. Chineses, Europeus, Americanos. Você tem negócios em Monróvia? Melhor resolvê-los por aqui, por pior que aqui esteja. Todos falam Inglês. Ou, como eu, acham que falam Inglês. Ou algo parecido. Em todos, deu pra ver no café da manhã, uma expressão cansada e zangada, meio cheios dessa terra e dessa vida. Todos com sapatos de segunda. Justificável.

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