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Entrevista para o Itaú Cultural

O Inagaki fez uma entrevista comigo e outros profissionais da área para a revista do Itaú Cultural. Trechos dela estão publicados aqui. Posto-a na íntegra a seguir:

1) “Celulose é celulose e pixel é pixel”. Quais são as principais diferenças entre design impresso e webdesign?
Existem alguns princípios de design que são universais, até instintivos. Eles se relacionam com a forma com que aprendemos a interpretar o mundo à nossa volta. Preto em amarelo, por exemplo, é uma combinação de cores tão potente que é usada em placas de advertência ao redor do mundo. O mesmo vale para determinados ângulos, formas, alinhamentos e espaços.
Na verdade, o cérebro humano percebe as imagens de uma vez só, como uma mensagem instantânea, e depois interpreta cada pedaço delas, em um processo ativo. Quando você vê uma imagem, ouve uma música, sente um cheiro, essa informação é interpretada e colocada em um contexto imediatamente, e só depois é analisada. Em outras palavras, o design funciona ao contrário da leitura: pega-se o todo, depois dissecam-se as partes.
Por depender de um contexto, a imagem estática é percebida de uma forma diferente da dinâmica e aquela que se vê em uma sala escura é completamente diferente da que se vê na rua, ao meio-dia.
A diferença entre design gráfico e digital é, portanto, muito maior do que alguns elementos que constituem uma imagem possam sugerir, sejam eles feitos de tinta ou cristal líquido. Ela depende do uso que se pretende dar, do nível de atenção que se demanda e da função da peça. Isso é o que confunde a maioria dos designer iniciantes, sedentos por “regras” e sua aplicação.
Existem mais diferenças entre um anúncio e uma placa (duas peças de design gráfico) do que entre toda a categoria de impressos e a de eletrônicos. O designer precisa identificar qual é o contexto e a resposta que se espera, e trabalhar no que o melhor cada mídia pode oferecer para obtê-la.
2) Qual é o seu background acadêmico? Você fez faculdade ou algum tipo de curso específico para a área de design?
Sou graduado em comunicação pela ECA-USP, fiz uma especialização em design gráfico na New York University, depois mestrado e doutorado em comunicação digital. Mas minha melhor formação vem do fato de dar aulas (há 16 anos sou professor de Comunicação Digital, Fotografia e Design Gráfico na ECA) e ser, a cada semestre, inquirido e desafiado por alunos brilhantes. Isso me obriga a me reciclar continuamente e buscar formas cada vez mais inovadoras de fazer comunicação, sem deixar de ser consistente.
Não importa o quanto sua formação seja rica, em poucos anos ela se torna senso comum. Aquilo que parecia ficção científica na virada do século - como usar VoIP em um notebook a partir de um carro em movimento ou algo similar - é normal entre adolescentes ou pessoas da Terceira Idade. Por isso eu acredito que a única forma de atingir uma posição de destaque e permanecer nela é o aprendizado contínuo.
3) Um dos capítulos do seu livro cita uma frase recorrente: “qualquer imbecil faz design”. Diante disso, pergunto: qual a importância de se fazer uma faculdade de webdesign? É mais fundamental do que botar a mão na massa virtual?
Se você tivesse lido o capítulo inteiro, perceberia que uso essa frase no título para dizer exatamente o contrário. Um imbecil que não saiba cozinhar pode ter à disposição a melhor cozinha e os melhores ingredientes do mundo que, mesmo colocando a mão na massa por tempo indeterminado, continuaria ruim.
Não digo aqui que aquele sujeito afetado que soubesse todas as teorias culinárias mas que nunca tivesse acendido um fogão fosse melhor, até porque acredito que ele fosse igualmente ruim. Mas que, da mesma forma que não se aprende a guiar ou a fazer uma cirurgia pela prática simples, é preciso combinar uma base teórico-técnica com uma aplicação prática. Só isso pode formar um bom profissional.
A propósito, não acredito em faculdades de webdesign, porque elas são específicas demais. Agora que migramos para interfaces em TV, celulares, games e carros, pra que serve um webdesigner? Na minha opinião é muito melhor fazer uma faculdade de design ou de computação, e se especializar no suporte que for mais adequado através da experiência prática.
4) Quais são as suas principais referências? De onde vêm a inspiração?
Inspiração é coisa de artistas e referência é coisa de músico ou literato. Designers usam a linguagem visual para resolver problemas de comunicação, em um processo fascinante que tem seus momentos dignos de Sherlock Holmes. A maior fonte de idéias costuma estar exposta junto com o problema, como se fossem pistas de um mistério a se resolver: quem é o público-alvo da comunicação? Quais são seus hábitos e gostos? Qual a função da peça? Qual a resposta esperada? Essas perguntas não são limitantes: são, pelo contrário, extremamente esclarecedoras.
5) Qual é o seu conselho para quem está começando e pretende ser um bom designer?
O melhor de todos que eu conheço vem de um aforismo que me disseram ser chinês: “você tem dois olhos, dois ouvidos, dois buracos no nariz e uma só boca. Portanto receba seis vezes mais informação do que pretende emitir. Ou seja, estude muito, leia sobre áreas tão variadas quanto percepção, artes plásticas, fotografia e cinema. Mantenha-se sempre atento, curioso e aberto a novas perspectivas. Mesmo que isso não contribua diretamente para a sua atividade profissional, certamente o tornará uma pessoa bacana.
6) Last, but not least: o que Luli Radfahrer tem feito de bom ultimamente na área do design?
Um monte de coisas que, infelizmente, não são universalmente visíveis: sistemas de projeção gráfica baseados em motion capture, produtos de telefonia e TV digital e uma ou outra coisinha em design gráfico. A maioria delas para clientes estrangeiros.

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