Inovação, Textos

Do jeito que “sinhô” gosta

Siô

Vamos imaginar que você tem uma idéia que é realmente única (e melhor, boa). Pra melhorar sua situação, você conseguiu marcar uma reunião com alguém realmente importante. Não estou falando aqui de um gerente ou mesmo de um diretor ou VP em qualquer nível, mas com o próprio CEO da empresa ou seu equivalente – o Presidente do Conselho ou até mesmo um eventual investidor ou Angel que pode colocar uns milhõezinhos e mais alguns trocados em uma idéia sua, a ponto de fazê-lo viver dela. Isso, um cara importante assim.

Se você acredita que a probabilidade de algo assim acontecer é tão ou mais rara que a de você ser atropelado por um buraco negro no caminho da padaria, pense duas vezes. Estamos em um mundo de competitividade crescente e sobrecarga de inovação, o que faz muitas empresas – tradicionais massacradoras da criatividade de seus estressados funcionários – buscarem novas idéias o tempo todo. E é aí que você entra.

Uma coisa, no entanto, é clara: sua oportunidade será única. E você só terá uma chance de agradar. Sabe aquela mulher linda, sozinha em um bar? Aquela que você nem acredita que existe? Aquela que você precisa pensar rápido em algo inteligente e divertido, se aproximar com segurança e se preparar para o “não”? Pois ela é muito, muito mais impressionável e fácil que um cara desses. (moças, meu exemplo não é machista – é que homens não costumam ter critério e, caso vocês não saibam, basta olharem para eles que a maioria costuma vir atrás, por isso o exemplo não se aplica)

Mas – perguntaria você – por que se preparar para um eventual encontro desses, se ele é tão raro? Por dois motivos, acredito eu:

  1. Se ele acontecer, pode mudar a sua vida. Se não o deixar com os bolsos cheios, pode colocar você a trabalhar naquilo que acredita e isso pode ser o suficiente para você parar de resmungar que seu trabalho / chefe / firma / vida não presta; e
  2. Mesmo que ele não aconteça, a perspectiva pode ajudá-lo a considerar a razão de sua profissão, suas motivações e o que você tem de diferente.

Em outras palavras, é um círculo virtuoso: mesmo que você não tenha a oportunidade de encontrar um cara desses, pensar como um deles certamente não lhe fará mal. E é aí que boa parte do que você conhece por “técnicas de apresentação” cai por terra.

Dicas de falar bem

Uma coisa que nenhum manual de Pauerpóint ou livro de técnicas de apresentação gerencial diz (não que eu tenha lido muitos deles, confesso) é que CEOs não são o bicho corporativo típico. Como sua função na firma é guiá-la e muitas vezes tirá-la do marasmo ou fazê-la mudar de direção sem naufragar, eles precisam, por definição, pensar diferente da formigaiada. Não que sejam “artistas” ou qualquer outra classe de criativos entre aspas – eles ainda têm que tocar uma empresa, e há poucas coisas mais pragmáticas que isso – mas que certamente têm uma forma peculiar de pensar.

O que importa é que para eles, as técnicas de apresentação que você usa são tão manjadas quanto as cantadas de um livro de frases feitas. Como a famigerada mulher bonita, ele não se impressionará por elas.

Nem por seu terno, seu Macintosh, seus termos em inglês ou tecnologês, as tendências internacionais e dados que fundamentam sua proposta ou (ai!) pelos efeitos especiais da multimídia que você apresenta. Muito pelo contrário, se ele perceber que você (e sua idéia) são escravos de uma infra-estrutura qualquer, você já estará 90% fora do jogo.

Isso não significa que você deva rabiscar suas idéias a lápis ou Bic, em um papel impresso do outro lado. Mas que, como no Marketing viral, a riqueza está na idéia, não na qualidade da produção. Da mesma forma que vídeo ruim não é sinônimo de viral, uma apresentação desleixada dificilmente garantirá sua aposentadoria. Mais fácil é pensar o contrário: sua idéia precisa ser tão boa que poderia ser apresentada de qualquer jeito. Se for impecável, tem boas chances de ser irrecusável.

Mas o que move esses caras, afinal? Se eu soubesse com certeza, escreveria um livro, daria consultoria para startups sem noção e estaria rico demais para escrever este blog. O que posso oferecer para vocês, assim, de graça, em um singelo e humilde post, são coisas que percebi no decorrer da minha vida profissional, em que, graças à novidade das tecnologias e efeitos colaterais da “bolha”, tive a oportunidade de apresentar alguns projetos a CEOs. Destes, posso dizer que acertei em alguns e errei na mosca em muitos. O que percebi foi:

  • Senso de oportunidade - como já dizia minha avó, certas coisas não são ditas em determinados lugares. Esses caras são, o tempo todo, abordados por gente inconveniente. Novamente a semelhança com as belas é automática. Se você só tem uma oportunidade e ela é em um, digamos, funeral, esqueça: não há clima. Mas isso não significa que você precise de uma apresentação formal. Para esses caras que têm a antena automaticamente ligada, uma simples e despretensiosa conversa pode dizer muita coisa e despertar o interesse. Nunca espere mais do que isso, por mais que sua idéia seja perfeita para o negócio dele.
  • Pragmatismo – por mais que o discurso da visão da empresa tenha grandes aspirações, esses caras costumam ter os dois pés bem plantados no chão. Se a sua idéia só der lucro, pode até ser que te ouçam. Se ela contribuir remotamente para o desaquecimento global ou para as vítimas de daltonismo na Eritréia ou se representar lucros se o Biodiesel emplacar como combustível mundial, esqueça.
  • Visão estratégica – para guiar grandes empresas ou pilhas de dinheiro, um cara desses precisa ver longe. Como uma aranha a sua teia, ele deve estar conectado com os principais fatores socioeconômicos que envolvem o seu negócio. Se você conseguir descobrir algo que afete algum desses fatores, excelente. Se mais de um deles, melhor ainda. Mas já aviso: esses caras estão cercados de gente procurando exatamente o mesmo que você.
  • Pouco blablablá – para não cair no eterno chavão sobre tempo e dinheiro, prefiro voltar para a metáfora da cantada: quanto mais rápida e intrigante ela for, mais certo costuma dar. Ninguém “convence” alguém a lhe dar um beijo ou algo do gênero. Fernando Pessoa defendia que o mundo é para quem nasce para o conquistar. E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
  • Evite dados - pelo menos aqueles que não sejam significativos. Ele tem gente para estudá-los e, exatamente por isso, provavelmente não se impressionará com seus percentuais e gráficos. Pelo contrário, se aborrecerá – se não ficar com a impressão que aquela quantidade de dados mascara alguma verdade que não quer ser dita. Esses caras não são ariscos e desconfiados à toa.
  • Não fale nada que ele já saiba – repetição só é legal para quem tem menos de 6 anos de idade. A partir daí, é muito, muito chato. Se você não quer que alguém lhe explique como funciona a Internet ou um mouse, por que acha que vai agradar um cara desses ao falar (bobagens, provavelmente) sobre o que sabe do negócio deles? Familiaridade? Isso é coisa de famílias, e não costuma ser bem-vinda quando na boca de estranhos.
  • Procure ser inovador, não barato – a não ser que você seja estupidamente barato. A função de praticamente qualquer escalão em uma empresa é aumentar a eficiência dos processos. Eles não costumam precisar (nem receber bem) aqueles carinhas que vêm de fora cheios de formas de fazer “melhor” algo que eles arrastam às duras penas. Você é necessário para trazer uma revolução. Da evolução eles cuidam, mesmo que lentamente.
  • Argumento-chave – se sua idéia pretende chegar a algum ponto, qual é esse ponto? Se você precisasse explicar o que faz em uma frase, ela caberia no Twitter? E em uma conversa de elevador? Dá para resumir quem você é em uma frase? E o que você faz? E o que pretende apresentar? Sua frase não é longa nem hermética demais? Não minta.

Como disse em um post anterior, boas idéias costumam ser ridiculamente simples. Se a sua (ainda) não o é, simplificá-la talvez seja o caminho mais curto para fazê-la desabrochar.

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