Não marcado

Interfaces elegantes e prestativas

Hopkins

Outro dia, ao escrever um texto no Blackberry, percebi que algo me irritava, e não era o teclado pequeno. Era uma intervenção de software, uma irritante mensagem me notificando que havia sinal de rede aonde eu estava.

Por trazer uma boa notícia, a tal mensagem “proativa” deveria ser bem recebida. Mas sua mania irritante de aparecer no formato de uma caixa de alerta e me obrigar a clicar em “OK” sempre que aparecia era um baita estorvo. Como eu estava em uma área de sinal instável, a maldita janela aparecia umas dez vezes por minuto, a ponto de irritar monge budista.

Esse entrave, que me obrigava a “dar ciência” sobre algo que não era do meu interesse e estava além do meu controle me fez lembrar de uma velha expressão que comparava serviços de informática a burocratas. Na época em que foi cunhada, acredito que ela devia se referir àquelas simpáticos sistemas movidos a DOS e suas inconfundíveis interfaces verde-azuladas

Algumas décadas se passaram e, apesar da tecnologia e qualidade das interfaces gráficas ter evoluído monstruosamente, muitas delas parecem ter desenvolvido uma predileção especial em serem malcriadas, distraídas, rígidas, formais, travadas… escolha seu sinônimo preferido para burocrático.

http://www.tre-ro.gov.br/noticias/fotos/CARTORIO%20ELEITORAL%203%20%20250x180.jpg

O fato inegável é que, pouco importa a tecnologia utilizada, são raras as interfaces que não transmitem a simpatia e boa-vontade de um… cartório. O endereço foi digitado errado? Azar. Você não se lembra de sua senha? Problema seu. O plug-in ou a resolução de tela são incompatíveis com a sua máquina? Dane-se. Você não sabe o que quer aqui? Pois não serei eu quem irá ajudar. E vários exemplos do gênero.

Em resumo, uma lindeza de fino trato. O usuário (ainda) leva tudo isso de desaforo para casa porque a interação homem-computador ainda é uma coisa razoavelmente recente. Ao se lembrar como era desconfortável a vida sem tecnologia - ou a pensar que, no fundo, máquinas são mesmo um pouco estúpidas, muitos perdoam a malcriação e seguem adiante, com uma sensação de leve desconforto.

http://sf07.files.wordpress.com/2007/06/fila.jpg

Só que essa percepção é errada, e tende a ser cada vez menos comum. A tecnologia é uma via de mão única e não se voltará para uma época sem computadores, por isso pensar no progresso representado pelas máquinas é tão inútil quanto pensar no progresso trazido pela energia elétrica ou coleta de lixo. São conquistas sociais para as quais não há retrocesso.

Outra bobagem é pensar em inteligência artificial ou na relação que estabelecemos com “a máquina”. As interfaces são desenhadas por gente como você. Ou quase. Muitos profissionais de desenvolvimento de interfaces costumam estar tão envolvidos com os processos digitais que se esquecem que os humanos do outro lado da tela podem não estar interessados pelos estados das pilhas de memória ou bases de dados.

Isso não significa que sejam estúpidos nem que demandem “assistentes”, mas que normalmente estejam ocupados demais para se preocupar com um eventual xilique da interface.

Amazon Kindle

Todo mundo se apaixona pela Amazon e gosta de usá-la como referência. Acredito que seja menos por causa de seu potente sistema de CRM, mas de sua atitude elegante, prestativa e simpática.

Fica aqui a recomendação para o próximo produto digital que você desenhar: mais que bonito (design) ou poderoso (desenvolvimento), ele deve ser elegante e simpático. Em um mundo de modelos plastificadas, botocadas e arrogantes - e de PitBoys depilados, SUVzados e igualmente arrogantes, ser elegante e simpático não é bobagem. É distinção.

Nesse mundo cada vez mais duro, palavras assim podem parecer “virtuais” demais. Por isso segue uma listinha/lembrete das atitudes comuns aos produtos (e pessoas) elegantes e prestativas, todas facilmente replicáveis:

  1. Dar importância para a pessoa com quem conversam e se interessar pelo que dizem / fazem;
  2. Ser prestativas e solícitas;
  3. Usar o bom senso e não fazer perguntas estúpidas;
  4. Se antecipar às necessidades e desejos daqueles com quem convivem;
  5. Ter uma ampla perspectiva - pelo menos uma que seja maior do que sua tarefa braçal e imediata;
  6. Não aporrinhar as pessoas com seus problemas pessoais;
  7. Manter seus colegas informados de suas ações;
  8. Ser sensíveis, compreender os motivos dos outros, não insistir no que “faz sentido” pra você;
  9. Não fazer muitas perguntas; e
  10. Saber quando é preciso quebrar regras. Ser autoconfiante e assumir a responsabilidade por seus atos.

Pensando bem, não é tão difícil se comportar com deferência.

E faz uma diferença…

Popularity: 43% [?]

15 comentários

desça a lenha:

Comente este post ou dê um link do seu site.

Acompanhe esses comentários.

Seja legal, não fuja do tópico.

Não faça nada que você não faria.

Se souber HTML, pode usar essas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>

*Campos obrigatórios