5 cent: “I’m bigget than Ben Hur - in the right context”
Não há dúvida que a comunicação interativa tem mudado um bocado o negócio da propaganda. Por todos os lados, as agências que gostamos de chamar de tradicionais têm sofrido uma pressão considerável, a tal ponto que não é de se espantar que busquem soluções para o futuro de seus negócios. Entre as várias formas de pressão, me vêm à cabeça:
- Os clientes querem pagar cada vez menos comissões - a geração que popularizou a criação nos anos oitenta foi a mesma que decretou o poder da mídia. Naquela época parecia um bom negócio dar de graça o serviço intelectual de criação - cujo valor sempre foi intangível - e cobrar uma comissão fixa, regulada por lei, de 20% sobre a veiculação das peças nos poucos meios disponíveis de comunicação de massa. Essa distorção estabeleceu preços caríssimos para o centímetro quadrado em revistas como a Veja e para o segundo em emissoras como a Globo. Caiu a lei e a concorrência virou uma briga de faca no escuro. Vale lembrar que nos trash 80’s, telefonia móvel chamava “bip” e era coisa de médicos. Naquela época, o ano 2000 traria a Era de Aquário e não um bug. Naquela época… você entendeu o cenário. Bando de Hippies tardios, graças a eles que você trabalha no final de semana.
- Os clientes querem fazer da agência sua pastelaria - antes fosse. Pastelarias demandam mais respeito. Ninguém pede um pastel de melancia com aliche às três da manhã, nem grita ou ameaça levar a conta embora se o pobre pasteleiro tem uma pilha de massas para fritar. No entanto, profissionais mal preparados em departamentos de Marketing a-do-ram reformular, refazer, reestruturar e reinventar a roda a cada novo material de ponto de venda, usando a heurística do monge-executivo aplicada aos arquétipos de Jung para definir uma campanha que não tem outra função além de mostrar sua autoridade.
- Os veículos resolveram fazer digital - quer fazer um ARG? Procure a Editora Abril. Ela é a melhor produtora na área. Ué, mas não era veículo? Era e continua sendo, mas sabe como é, todo mundo tem que se virar. Até porque, se você não confiar nela, que tem conteúdo e conhecimento de público jovem, vai confiar em quem? Na Globo que não é, né?
- As agências de outras áreas também resolveram entrar no cibercirco - no século passado, quando eu era estagiário, quem se vendia como agência de propaganda fazia propaganda. Quem se vendia como agência de promoção fazia promoção e quem se vendia como agência de eventos fazia eventos. Branding e design eram serviços bastante específicos, desenvolvidos internamente no cliente, com o apoio e consultoria da agência. Hoje vale tudo, no melhor estilo Tim Maia. A cada nanossegundo surge uma nova agência que, se dependesse da vontade de seus sócios, poderia usar como logo o álbum do Zappa:
- As produtoras também são agências - no melhor clima de “liberou geral”, as produtoras perceberam a recalcitrância das agências e foram chorar uns caraminguás pra cima dos clientes, cheios de agatemelês. O que você faz quando um novo disk-pizza oferece seus serviços? Aceita, ué. Se for bom, até fica com ele.
- Os prêmios mudaram bastante - a mídia impressa, bastião da “credibilidade” em propaganda, mãe do think small e dos anúncios de muito texto (long copy, como eles diriam no Zimbabwe), hoje é quase um subproduto da usina de prêmios que alimenta a fogueira das vaidades publicitárias. Em Cannes, a Disneylândia da propaganda, ela é “press&poster”, cada vez mais poster e menos press. Enquanto isso, além dos CyberLions, os Media Lions e os Titanium Lions fazem a festa dos bannereiros, para desespero dos reclameiros.
- Os grandes grupos não dão a mínima - se você acha que WPP, Omnicom, Publicis e Interpublic estão preocupados com o sucesso dos seus meninos, é bom pensar de novo. Uma pesquisa da AdvertisingAge mostrou que seus investimentos na área digital estão acima da média do mercado. Isso deixa transparecer uma mensagem clara: por mais que os srs. Bill Bernbach e David Ogilvy tenham inventado a propaganda como a conhecemos, eles já esticaram a canela e meus investidores não dão a mínima para o fato de seus debêntures virem do legado que eles deixaram. Se uma firma digital, completamente sem “berço” der lucro, somos seus fãs desde criancinhas. É, meus queridos, a vida é dura. Ou melhor: fortune rota volvitur, descendo minoratus…
- Os novos players entram para arrebentar - e eles vêm de onde menos se espera. Enquanto ninguém de bom senso imaginaria que uma empresa que faz software resolveria entrar na propaganda, a Midialog do Pedro Cabral virou a AgênciaClick. Em uma escala um pouco maior, a Microsoft compra a aQuantive, dona da AvenueA/Razorfish.
Não é um nome ótimo para uma nova agência?

Como muito bem diria o R.E.M., este é o fim do mundo como o conhecemos. Infelizmente nas agências, são poucos os que podem dizer que estão sossegados. Em um post antigo, eu defendo um novo perfil para o Diretor de Criação. Para encerrar este, deixo a pergunta que entitula este post: qual o tamanho do digital em uma agência de propaganda? Se é certo que não se pode montar uma estrutura de 70 pessoas, por outro não se pode esperar que uma andorinha faça o verão.
Deixo a vocês esta pergunta para o feriado: qual o tamanho certo? Produtoras que estão mais para firmas de consultoria que para agências de comunicação defendem “três mentes“. Outras, bastante populares e com um montão de hype, desenvolvem tanto software que não me surpreende que seu próximo VP de criação seja um programador.
Eu acredito que a questão não seja de resposta assim tão simples. Sei que designers, redatores e gerentes de projeto devem trabalhar em harmonia, mas confesso ter algumas dúvidas quanto aos pesos necessários. Por isso peço a ajuda de vocês.
Bom feriado, continuamos a conversa depois.
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Enquanto isso nos publicitarios com salarios ainda mais apertados e cursos pipocando por todos os cantos do Brasil…desculpem o choro desse profissional que ainda nao consegue um salario melhor…
Qual o tamanho do digital em uma agência de propaganda?
Bem, o que não é digital hoje numa agência de propaganda? A mídia impressa, que está morrendo, a televisão (que vai ser completamente digital em 15 anos, o que significa que, se você não for um diretor a ponto de se aposentar, vai ver), e o que mais?
Fora da realidade Rio/SP, ainda não é lucrativo para as agências de comunicação tradicionais, logo sua equipe digital é zero. Elas fazem parceria com agências web e encaminham a demanda online para elas.
É assim aqui em Juiz de Fora/MG.
Paga-se muito pouco no mercado web fora dos grandes centros e isso não está relativamente ligado á qualidade e tecnologia, pois isso temos de sobra.
Mesmo nos grandes centros paga-se menos para os profissionais web em agências digitais, do que para os profissionais off em agências off. O modelo de negócio é diferente, a cultura do cliente para o digital é outra.
Onde se valoriza mais a inovação do digital frente ao glamour do tradicional meio da propaganda?
Luli,
Gostei muito do post e tem a ver com algumas coisas que tenho escrito lá no WebStage.
Quando você cita o despreparo de alguns profissionais dos departamentos de marketing dos clientes, logo me vem à cabeça a “síndrome do não”.
Explico: Com a “juniorização” dos departamentos de marketing, é cada vez mais comum haver uma enorme quantidade de pessoas que não tem o poder de decisão mas tem o papel de “filtro”. Em outras palavras: Como só podem dizer “não”, exercem esse direito o máximo que podem, afim de participar do processo, ainda que - no fim do dia - não contribuam efetivamente em muita coisa ;)
Quanto ao tamanho do digital, levanto 2 pontos:
O primeiro, mais conceitual, é o seguinte: Será que o “digital” deve ser restrito somente a quem lida diretamente com comunicação digital / interativa ou será que a agência, como um todo, deveria “pensar” digital? ;
Em termos práticos, tenho questionado bastante a real necessidade de se ter uma estrutura completa, com programadores, flasheiros, especialistas nisso ou naquilo dentro da agência. Acredito, sinceramente, que (ao menos enquanto não se estabelece esse “pensamento digital”) 3 pessoas deem conta: um na criação, um na mídia e um no RTV, todos focados em inserir os meios digitais no contexto da campanha, com a preocupação de extrair dela o seu melhor.
Este post é muito pertinente. Acabo de voltar para uma agência “tradicional’ que já trabalhei e exatemente com esse desafio: responder como deve ser a área digital da agência que sempre utilizou uma dupla de webdesigner e desenvolvedor.
Também acredito que não devo alocar uma equipe inteira digital, mas ainda não sei ao certo que peças preciso aqui e qual função devo desempenhar na prática.
É uma agência média (cerca de 40 pessoas) e, por enquanto, estou pensando em um desenvolvedor/ass. de arte para o café com leite do dia-a-dia (email-mkt e banners - putz).
Acho que vou acabar botando a mão em web analytics, planejamento, ger. de projetos e etc. Mas principalmente, suporte e orientação aos “offs”. Dai-me…
Ótimo post e excelente escolha da foto no início, foi justamente ela que me fez ler o “5 cent” e acabar clicando e lendo o restante do post.