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Tempos de latência

Please wait

Poucas coisas são mais desesperadoras em uma conversa que uma pausa demorada. Como não se pode saber o que o outro lado tem na cabeça, é natural que aquele que enfrenta uma pausa fique em uma agonia de dar dó. Em nossa relação diária com essas maquininhas que nos alegram tanto quanto nos enfurecem, uma pausa pode ter vários significados. A máquina pode ter resolvido processar um monte de dados, gravar uma cópia de segurança, esvaziar o lixo, trocar uma idéia com o driver de impressão ou simplesmente estar ali, de bobeira, esperando que você faça algo que ela se esqueceu de dizer o que é.

Em outras ocasiões, mais graves, a máquina pode ter se atrapalhado com tudo o que tinha para fazer, ter tido uma crise de Alzheimer e perdido completamente a memória ou simplesmente ter se cansado de suas atividades ilegais. Nesse último caso, ela pode ter resolvido, unilateralmente, sumariamente, sem direito de resposta e imediatamente, acabar com a relação de uma vez e resolver “fechá-lo”. 

ilegal
Alguém precisa dizer para eles que não é OK perder horas de trabalho.

Descrevi essa relação que temos com as máquinas e suas interfaces como se fosse uma conversa que se tem com um ser humano porque várias pesquisas mostram que é assim que pensa a maioria dos usuários. Por mais que os engenheiros e programadores que desenham essas estruturas saibam muito bem que elas nada mais são que peças de hardware e linhas de código, o ser humano comum que as pilota tende a ficar tão envolvido no processo que é natural que muitas vezes simplesmente se “esqueça” que não está falando com uma outra pessoa do outro lado da tela. Se isso lhe parece uma coisa de louco, vale lembrar de como você reage a essas mesmas máquinas. É bem provável que, em suas interações cotidianas, você gesticule quando fala ao telefone, enfureça-se com o aparelho quando acaba o sinal e tente destruir o seu mouse, teclado ou monitor quando a CPU dá o vexame acima.

Essa relação “personalizada” está mais relacionada ao nível de concentração que essas tarefas exigem do que a qualquer inteligência artificial ou desvio psicológico (embora o último não possa ser descartado em 100% dos casos). De qualquer forma, a postura, assertividade e diálogo que uma interface estabelece com seu usuário está, a cada dia, mais parecida com uma conversa. Nesse contexto, como no de uma conversa com pessoas, uma pausa é extremamente perturbadora. Muito mais irritante que um comercial de TV ou rádio, certamente mais agoniante que um intervalo entre capítulos de sitcom.

Em um mundo perfeito, essas pausas não aconteceriam e a máquina responderia com uma velocidade irritantemente eficiente. Essa, aliás, é muitas vezes a sensação que se tem quando se troca de computador ou se aumenta a memória dos ditos cujos. Na maioria das vezes, o que acontece é um lamento de agonia seguido de um resmungar, no melhor estilo de “NÃO! Não era pra você reorganizar TODA a base de dados, cretino! Ai, isso vai levar séculos”, seguido de uma série de palavras incompatíveis com um blog tão família quanto este.

Mas qual é o tempo de resposta ideal e o que se deve fazer quando ele não é possível? Designers de interação defendem a idéia que se deve otimizar serviços digitais para uma pronta resposta e acomodá-los para a latência, nome bonito pare essa espera desesperante. Desde a década de 60, estudos são feitos para se estimar qual o tempo necessário para cada tipo de interação e o que se deve fazer no meio-termo. Apesar dos computadores terem evoluído furiosamente no período, os tempos de reflexo cerebral não mudaram muito. Podemos dividi-los em quatro categorias:

 

  1. Até 0,1 de segundo a resposta é percebida como se fosse instantânea. Eles se sentem como se manipulassem diretamente os dados;
  2. Se demorar até 1 segundo, sente-se que o sistema está ativo e respondendo bem. Provavelmente se notará um pequeno intervalo, mas ele ainda será pequeno o suficiente para que não se perca o foco;
  3. Pausas de até 10 segundos dão a clara impressão que o sistema está lerdo. Nesses casos, uma distração é natural. Uma barra de progresso pode reatar a atenção; e
  4. Pausas maiores que 10 segundos são o suficiente para que se perca o usuário, que vai aproveitar para dar um pulinho no banheiro ou olhar outro aplicativo. Ações tão longas devem ser comunicadas prontamente, informando o tempo aproximado que levarão e dando ao usuário a opção de cancelá-las.
A conclusão mais simples que se pode tirar de estudos como esses é que a relação que se estabelece com uma interface costuma ser bastante próxima da que levamos com ferramentas: de nada adianta serem belas violas se não realizarem prontamente a função que se espera delas. Toda essa história me lembrou de uma discussão sobre tempo real que desenvolvi há algum tempo, que talvez amplifique essa questão de respostas e atitudes.

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