Bonito quadro, não? Ele é de um pintor francês chamado Eugène Delacroix. Quero dividir com você algumas observações que tenho sobre ele:
- A composição parece um bocado inusitada: o que raios essa mulher faz, seminua e descalça, no meio de uma cena de guerra?
- Ao seu lado, o menino armado com duas pistolas não é exatamente o que se imagina em uma cena familiar.
- Essa dupla improvável está à frente de um exército improvisado. Os dois “soldados” que se destacam não estão exatamente uniformizados. Um veste cartola e gravata, o outro está com a camisa aberta. Mas o que me chama mais a atenção é a cara de medo deles, muito diferente da expressão serena da mulher ou da raiva no menino. Como se eles não tivessem muita certeza de sua força.
- Outro fato curioso é que eles marcham sem dó sobre algumas pessoas que parecem feridas, como que a ignorar completamente as suas súplicas. Os feridos, pelo que me parece, estão em traje militar.
- A cena acontece no nascer do dia, próximo ao que parece ser uma cidade parcialmente destruída.
Acredito que você deva ter reparado nessas mesmas coisas que eu, e bem provavelmente na mesma ordem. Apesar de imagens serem elementos contínuos que não “começam” em lugar nenhum (ver o tópico emergência neste post), esta aí deixa bastante claro que o artista deixou bem clara uma ordem implícita , praticamente um roteiro a seguir pela composição. A imagem é percebida em camadas e, à medida que essas camadas são absorvidas, uma história é contada. Mas que história é essa? Bem, nesse quadro ela é tão ululantemente óbvia que foi por isso mesmo que eu o escolhi. Veja só:
Está na cara que essa mulher só pode ser simbólica. Ela leva uma bandeira (a da França) e parece guiar a criança e os cidadãos comuns contra um exército de forças de opressão… essa história parece bastante familiar, não? Crianças da pátria, dia chegando, levantar o estandarte contra as forças de tirania, enfrentar ferozes soldados? Um batalhão de cidadãos armados, marchando pela liberdade?
Se você não percebeu ainda, o quadro é um retrato da Marselhesa, hino nacional francês. Muitos criticaram Delacroix por ter feito um quadro tão panfletário, mas o fato é que ele é lindo. E ajuda a compreender como a disposição dos elementos define camadas e estabelece o tom da mensagem.
Hoje em dia qualquer um tem à disposição centenas de layers (camadas) no Photoshop. É um recurso extremamente útil, versátil e bem-vindo. Mas ele é só a resposta. Se você não sabe que pergunta fazer, o que pretende tirar dele, ele não poderá ajudar muito.
Por isso, da próxima vez que ficar sem idéias ao fazer um layout, pare por uns instantes e dê uma olhada em algum quadro que você gosta. Tente perceber, em sua estrutura, as camadas de informação que o artista determinou. Logo você verá como essas camadas são evidentes. Conforme o quadro e a habilidade do artista, você também verá que é praticamente inevitável seguir a ordem imposta por elas. Acredito que você se divertirá ao perceber como elas influenciam e direcionam o seu olhar. Às vezes elas até definem o tempo proporcional que se passa em cada parte da composição.
Agora olhe para seu briefing. Não é exatamente isso o que ele pede? Pois então identifique nele os principais componentes, sua hierarquia e seqüência. Ao dispor a informação em camadas, o primeiro passo já estará dado. O resto é com você.
Só não se esqueça de observar o tom da mensagem. Algumas são mais óbvias, outras mais sutis. Como no cinema e na literatura, existem histórias e histórias. Apesar desta daí de cima ser óbvia feito um filme com o Bruce Willis, isso não tira seu valor. Existem quadros herméticos feito filmes do David Lynch…
…outros mais delicados, feito certos romances ingleses
há os eróticos-perturbados que não fariam feio no festival de Berlim etc…
Cada um deles com suas histórias e, no que diz respeito a esse post, camadas. Conforme o enfoque que se dê, um museu pode ser bem mais bacana que uma locadora ou um site de torrent.
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Bom dia Luli, achei muito bom o post sobre o uso das “camadas” na arte. É meio clichê falar, mas quanta gente só domina a técnica do Photoshop e fica devendo no quesito criação justamente porque não OBSERVA o mundo a sua volta.
O gosto pela arte deveria ser inerente a todos os designers ainda que exista um grande espaço entre as duas coisas. De qualquer forma, percebo nos seus posts o seu interesse em “abrir os olhos” dos designers além de oferecer textos excelentes para reflexão daqueles que já tem os olhos abertos, ou semi-abertos. ;)
Abraços,
Debora Behar
É sempre bom lembrar que não há criatividade sem referências, e que por mais poderosa que seja uma ferramenta como o Photoshop, sem conceitos, qualquer trabalho é no máximo mediocre.
O problema é lembrar onde buscar essas bases, mais com ajudas como esta fica um pouco mais fácil.
A mulher que está segurando a bandeira se chama Marianne. Ela é a representação dos ideais da França: Liberdade, Fraternidade e Igualdade. Essa cena é da revolução francesa… pelo que entendo era quase todos contra a nobreza… creio que os personagens ao lado representa isso, já o garoto não faço idéia do que representa… a nova França, de repente hehehehe e se não me engano eles estão marchando em frente ao Palácio de Versailles… outro símbolo francês bem conhecido…
bem… posso estar errado, mas pelas poucas coisas que estudei esses elementos são mais ou menos isso…
Quod erat demonstratum,Victor. Obrigado pela confirmação.
[...] Quer ler tudo? Então corre pro site do Luli! [...]
pq cara post do luli me da desespero? meu deus! como sou ignorante ainda!!!
E por que raios tem um cara sem as calças? Como sempre, ótimo post.
Tiago, essa me parece fácil, apesar de História não ser exatamente o meu forte. Acho que é uma referência aos “sans-culottes”, que eram a classe mais pobre da época, dita “sem calças” por não ter dinheiro nem para a própria roupa. Ao remover as calças de um soldado, me parece que as forças revolucionárias pretendiam dar as forças de opressão uma dose de seu próprio remédio.
Mas isso é só especulação minha. Obrigado a todos pelos comentários gentis.
esta pintura é uma comemorção a revolução de julho de 1830
a mulher representa a liberdade quiando o povo contra a repressão, ela leva em uma das mãos uma bandeira da frança e na outra um tipo de arma.
Sobre o quadro de Delacroix, …independente do contexto e analogia ás camadas do photoshop…(válido) há umas observações sobre esse quadro…ele é quase uma releitura inversa de outro quadro:
A jangada da medusa de Theodore Géricault pintor romantico que influenciou as primeiras obras do artista no quadro original um dos náufragos segura um pedaço de pano…neste tem a bandeira, no primeiro os pescadores estão de costas em direção á jangada, neste as pessoas avançam em direção ao observador, o soldado de gravata é um auto-retrato do do artista…mas os planos são os mesmos do primeiro.
[URL=http://shw.fotopages.com/7318499.html][IMG]http://srv.fotopages.com/4/7318499.jpg[/IMG][/URL]
Outra o obra usada nesse mesmo conceito (agora quanto ao texto…) Piet Mondrian. “Composição com Vermelho, Azul e Amarelo”… já foi usado em uma vinheta da TV Cultura, num jornal de varejo no Estado de São Paulo, e vi essa obra como capa de caderno na rua…acho que uma estante tambem nesse formato.