Quem diria, emes voltando à moda.
A inovação tecnológica costuma trazer de carona uma boa dose de ironia, mesmo que na maioria das vezes ela seja involuntária. Pois não é divertido notar que logo depois que os tipógrafos mais detalhistas (OK, chatos) se aposentaram, se renderam ou simplesmente desistiram de falar em emes, eles voltaram a aparecer nas folhas de estilos de CSS? Me pergunto o que pode vir a seguir: Cíceros? Réguas de paicas?
Uma régua de paicas, para quem não teve o (des)prazer de conhecê-las.
Não faça a piadinha infame do que se mede com elas.
Na verdade, designers e tipógrafos com um bom conhecimento da profissão nunca deixaram de pensar em nenhum dos termos que eu citei. Mas como eles são múltiplos dos pontos tipográficos (aqueles que medem 1/72 de polegada), a editoração eletrônica tornou mais prático converter todas as medidas para pontos e fazer o layout a partir deles. Mas isso não significa que a idéia da medida tipográfica em emes seja supérflua, muito pelo contrário.
Eme é uma medida tão importante (e tão pouco intuitiva) quanto “corpo”. Ele serve para medir a largura máxima de uma família tipográfica e, como você já deve ter suspeitado, foi baseado na letra M. Agora fica a pergunta capciosa: que letra tem a largura de um eme? M ou m?

Resposta errada. Nenhuma letra tem a largura de um eme. Entre os caracteres analfabéticos, só o travessão é tão largo. E é por isso que, em inglês, ele é chamado de “em dash”. Lá vamos nós de novo…
O motivo dessa confusão é uma coisa meio, assim, “bug” do milênio: os primeiros tipógrafos eram ingleses, americanos e alemães. Em suas línguas, você bem sabe, não há nenhum tipo de acento em letras maiúsculas. Por isso o grid para a construção de um alfabeto não precisava levá-los em consideração. É certo que existiam profissionais com nome e influência na Itália e França, mas não me parece que eles tenham sido consultados a respeito. Naquela época as informações corriam mais devagar.
A medida original de um eme deveria ser exatamente igual à de um corpo, ou seja, a largura do M deveria ser igual à distância entre as pontas de hastes dos caracteres ascendentes e descendentes.
Com o surgimento dos acentos e a popularização do processo tipográfico entre povos de línguas não indo-européias (como o árabe, japonês, chinês e hebraico, tanto a medida de corpo quanto a de eme perderam sua conexão com a realidade e se tornaram meras convenções. Aí não surpreende que pareçam arbitrárias.
Um eme é, em resumo, a medida de um corpo na horizontal. Ele é usado para calcular espaços e proporções em layouts. Em uma composição tradicional, por exemplo, o recuo de linha em um novo parágrafo costuma ser de um eme.

Desde a popularização do sistema de grids por Josef Müller Brockmann, na dácada de sessenta, o bom designer não se submete mais ao tamanho da página como determinante de sua composição. Pelo contrário, ele projeta o layout páginas de dentro para fora, ajeitando-o às margens e fazendo com que a forma final acompanhe sua intenção.
Assim a composição é determinada a partir de um número de linhas para a altura e um número de emes para a largura. Depois se define o espaço entre as linhas, também chamado de entrelinha (que normalmente mede 20% a mais que um corpo, mas não cabe falar delas aqui) e se calcula o formato da página. Só depois disso que se determinam as margens e se chega ao tamanho final. E você achava que calcluar em uma HP-12C era difícil…
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No mundo do CSS, a medida de emes é uma mão na roda para a acessibilidade. Ao usar emes em vez de pixels para definir a estrutura de suas páginas, o designer permite ao usuário aumentar o tamanho das letras ou mesmo vê-las em outros dispositivos. É o famoso “layout líquido”, que não tem nada a ver com Bauman mas está igualmente na moda. Não há como negar que ele é muito mais simpático que os antigos “página desenvolvida para ser vista em 800×600 pixels” ou, pior, aquelas gambiarras que centralizavam o layout na tela e forçavam quem tinha monitor grande a ver uma telinha sem vergonha. Tsk, tsk, tsk…
Por que as letras não têm, todas, a mesma largura?
Boa pergunta. E a resposta, que também vale para a altura, é simples: para facilitar a leitura. Ao contrário do que pode sugerir o senso comum, seres humanos não lêem as palavras letra a letra, mas em blocos. É por isso que se diz que letras com serifa são mais fáceis de se ler - as “pontinhas” das letras facilitam, na percepção de quem as vê, seu agrupamento em palavras (embora a baixa resolução das telas de TV e computador possa causar o efeito contrário).
TAMBÉM É POR ESSE MESMO MOTIVO QUE OS TEXTOS ESCRITOS EM MAIÚSCULAS SÃO TÃO DIFÍCEIS DE SE LER. ELAS TÊM TODAS A MESMA ALTURA E QUASE TODAS TÊM A MESMA LARGURA, O QUE OBRIGA A LER LETRA-A-LETRA E TORNA A LEITURA UM MARTÍRIO.
Nem todas as famílias tipográficas respeitam essas diferenças de cintura entre as letras. Existem alfabetos, chamados de monoespaceados, em que todos os caracteres têm a mesma largura, do M ao i.

Essa monstruosidade foi causada por limitações tecnológicas. As máquinas datilográficas não tinham tecnologia para usar letras de largura diferente, por isso padronizaram o espaço. O mesmo aconteceu com os primeiros equipamentos de digitalização e reconhecimento de texto, que não eram capazes de identificar com precisão formas de larguras tão diferentes.

E com isso essa pequena série se encerra. Espero que ela tenha trazido mais respostas que dúvidas. Será?
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Olá!
Opa, Luli. Tudo bom?
Antes de fazer alguns comentários, uma observação: eu sempre achei que a palavra correta era “monoespaçados”. Realizei uma rápida busca no Google e, aparentemente, a palavra “monoespaceado” não existe. Seria mais algum caso de uso incorreto de termos (como acontece muito por aí) ou no caso, vc se equivocou?
Enfim, sehuindo em frente. Apesar da legibilidade das fontes monoespaçadas ficar prejudicada, elas acabam sendo úteis para outros fins, justamente pelo fato de todos os caracteres terem a mesma largura.
Um dos casos é que, por questão de organização, programadores preferem usar Courier ou famílias semelhantes, já que o código fica mais blocado e a indentação fica mais ajustada.
Quem toca guitarra e constrói uma tablatura também prefere usar alfabetos monoespaçados. O diagrama das cordas precisa ter sempre exatamente a mesma largura em todas as linhas, independente dela ser “———-” ou de “11-11–11–” .
um exemplo: http://www.911tabs.com/link/?1618541
Cara, ótima sequência de artigos e ótimo blog!
Abraço
Tá explicado pq o povo reclama quando eu uso Courier New no MSN =)
Errado. Trouxe novas e ótimas duvidas para eu pesquisar e aprender mais à respeito. Agora eu quero saber do xis !
Ander, você pode estar certo. Honestamente, não sei. Mas como “monoespaçado”(sic) é um termo que não se usa nunca, ao contrário de “fonte” e “justificado”, que são usados todos os dias, confesso que não me preocupei a respeito. Lex, o xis tá aqui.
Mas para meus amigos gaúchos, o Xis pode estar aqui :D
Beleza, Luli?
Pois é, muito boa esta série… Coincidentemente tive aulas de tipografia neste mesmo período e posso dizer que foi um complemento e tanto. Valeu!
Mas… (e sempre tem um mas…) será que você poderia escrever sobre o grid tipográfico? É outro assunto ligado ao design offline tradicional que está despontando ultimamente no online, inclusive despertando as mesmas discussões apaixonadamente ferrenhas de antes.
Gosto muito do minimalismo e a clareza geométrica do grid acaba sendo uma tentação e tanto… Por isso tenho procurado saber mais a respeito e gostaria de conhecer sua opinião.
Isto caracterizaria um post pago, ou melhor, encomendado? rsss
Abraço e obrigado,
Jeancarlo Cerasoli
A idéia é muito boa, Jeancarlo. Já fazia um tempinho que queria falar um pouco sobre o tema, e devo fazê-lo em breve. Pode deixar que não vou considerar post encomendado nem patrocinado. E já deixo expresso meu agradecimento.