Design

Design para CSSers - tipografia, parte IV

Quem diria, emes voltando à moda.

A inovação tecnológica costuma trazer de carona uma boa dose de ironia, mesmo que na maioria das vezes ela seja involuntária. Pois não é divertido notar que logo depois que os tipógrafos mais detalhistas (OK, chatos) se aposentaram, se renderam ou simplesmente desistiram de falar em emes, eles voltaram a aparecer nas folhas de estilos de CSS? Me pergunto o que pode vir a seguir: Cíceros? Réguas de paicas?

Uma régua de paicas, para quem não teve o (des)prazer de conhecê-las.
Não faça a piadinha infame do que se mede com elas.

Na verdade, designers e tipógrafos com um bom conhecimento da profissão nunca deixaram de pensar em nenhum dos termos que eu citei. Mas como eles são múltiplos dos pontos tipográficos (aqueles que medem 1/72 de polegada), a editoração eletrônica tornou mais prático converter todas as medidas para pontos e fazer o layout a partir deles. Mas isso não significa que a idéia da medida tipográfica em emes seja supérflua, muito pelo contrário.

Eme é uma medida tão importante (e tão pouco intuitiva) quanto “corpo”. Ele serve para medir a largura máxima de uma família tipográfica e, como você já deve ter suspeitado, foi baseado na letra M. Agora fica a pergunta capciosa: que letra tem a largura de um eme? M ou m?

Larguras

Resposta errada. Nenhuma letra tem a largura de um eme. Entre os caracteres analfabéticos, só o travessão é tão largo. E é por isso que, em inglês, ele é chamado de “em dash”. Lá vamos nós de novo…

O motivo dessa confusão é uma coisa meio, assim, “bug” do milênio: os primeiros tipógrafos eram ingleses, americanos e alemães. Em suas línguas, você bem sabe, não há nenhum tipo de acento em letras maiúsculas. Por isso o grid para a construção de um alfabeto não precisava levá-los em consideração. É certo que existiam profissionais com nome e influência na Itália e França, mas não me parece que eles tenham sido consultados a respeito. Naquela época as informações corriam mais devagar.

A medida original de um eme deveria ser exatamente igual à de um corpo, ou seja, a largura do M deveria ser igual à distância entre as pontas de hastes dos caracteres ascendentes e descendentes.

Eme

Com o surgimento dos acentos e a popularização do processo tipográfico entre povos de línguas não indo-européias (como o árabe, japonês, chinês e hebraico, tanto a medida de corpo quanto a de eme perderam sua conexão com a realidade e se tornaram meras convenções. Aí não surpreende que pareçam arbitrárias.

Um eme é, em resumo, a medida de um corpo na horizontal. Ele é usado para calcular espaços e proporções em layouts. Em uma composição tradicional, por exemplo, o recuo de linha em um novo parágrafo costuma ser de um eme.

eme parágrafo

GridDesde a popularização do sistema de grids por Josef Müller Brockmann, na dácada de sessenta, o bom designer não se submete mais ao tamanho da página como determinante de sua composição. Pelo contrário, ele projeta o layout páginas de dentro para fora, ajeitando-o às margens e fazendo com que a forma final acompanhe sua intenção.

Assim a composição é determinada a partir de um número de linhas para a altura e um número de emes para a largura. Depois se define o espaço entre as linhas, também chamado de entrelinha (que normalmente mede 20% a mais que um corpo, mas não cabe falar delas aqui) e se calcula o formato da página. Só depois disso que se determinam as margens e se chega ao tamanho final. E você achava que calcluar em uma HP-12C era difícil…

tamanhos diferentes

No mundo do CSS, a medida de emes é uma mão na roda para a acessibilidade. Ao usar emes em vez de pixels para definir a estrutura de suas páginas, o designer permite ao usuário aumentar o tamanho das letras ou mesmo vê-las em outros dispositivos. É o famoso “layout líquido”, que não tem nada a ver com Bauman mas está igualmente na moda. Não há como negar que ele é muito mais simpático que os antigos “página desenvolvida para ser vista em 800×600 pixels” ou, pior, aquelas gambiarras que centralizavam o layout na tela e forçavam quem tinha monitor grande a ver uma telinha sem vergonha. Tsk, tsk, tsk…

Por que as letras não têm, todas, a mesma largura?

Boa pergunta. E a resposta, que também vale para a altura, é simples: para facilitar a leitura. Ao contrário do que pode sugerir o senso comum, seres humanos não lêem as palavras letra a letra, mas em blocos. É por isso que se diz que letras com serifa são mais fáceis de se ler - as “pontinhas” das letras facilitam, na percepção de quem as vê, seu agrupamento em palavras (embora a baixa resolução das telas de TV e computador possa causar o efeito contrário).

TAMBÉM É POR ESSE MESMO MOTIVO QUE OS TEXTOS ESCRITOS EM MAIÚSCULAS SÃO TÃO DIFÍCEIS DE SE LER. ELAS TÊM TODAS A MESMA ALTURA E QUASE TODAS TÊM A MESMA LARGURA, O QUE OBRIGA A LER LETRA-A-LETRA E TORNA A LEITURA UM MARTÍRIO.

Nem todas as famílias tipográficas respeitam essas diferenças de cintura entre as letras. Existem alfabetos, chamados de monoespaceados, em que todos os caracteres têm a mesma largura, do M ao i.

Daisy wheel

Essa monstruosidade foi causada por limitações tecnológicas. As máquinas datilográficas não tinham tecnologia para usar letras de largura diferente, por isso padronizaram o espaço. O mesmo aconteceu com os primeiros equipamentos de digitalização e reconhecimento de texto, que não eram capazes de identificar com precisão formas de larguras tão diferentes.

Courier, OCR-A

E com isso essa pequena série se encerra. Espero que ela tenha trazido mais respostas que dúvidas. Será?

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