
Você já parou para pensar um pouco a respeito dos tamanhos de letras e se perguntar o que raios afinal quer dizer “corpo 12”? Ele é a medida do quê? Se você conhece um pouco mais, sabe que isso significa que o caractere tem o tamanho de 12 pontos. Muito bem, mas o que são esses tais pontos? Uma coisa está certa, eles não são pixels. Ou são? Mas vieram antes… Então são o quê? De onde surgiram? Medem a altura ou a largura da letra?
A questão do tamanho das letras costuma causar uma grande confusão em quem não tem experiência tipográfica. Pois além de não ser claro o que mede esse sistema, ele parece bastante arbitrário. Os cinco textos abaixo, por exemplo, estão todos no mesmo corpo. Mas parece evidente que não têm o mesmo tamanho. Que raio de medida esdrúxula é essa?

Por mais que pareça o contrário, o corpo de letra é um sistema bastante preciso. Apesar de ser muito anterior ao pixel, tem influência direta sobre ele. Na época do surgimento da editoração eletrônica, a definição de resolução de tela de 72 ppi foi inspirada na divisão tipográfica, em que uma polegada é dividida em aproximadamente 72 pontos.
(A letra c indica o tamanho do corpo do texto. Clique na imagem para saber o que são as outras letrinhas)
Então corpo 12 significa que a letra tem 12/72 de uma polegada, ou aproximadamente 4,2 milímetros. Mas que letra? A, p, x, h são letras de um mesmo alfabeto, cada uma com tamanho completamente diferente das outras. Se o alfabeto é fundido em metal, o molde precisa comportar tanto as hastes ascendentes e descendentes das letras minúsculas (tipo p e b) como os acentos das letras maiúsculas (tipo É), todos apoiados em uma mesma linha de pauta. O corpo de uma letra, portanto, precisa ser maior do que todos esses elementos.
Portanto, em corpo 12, qualquer letra precisa caber em um espaço de 4,2 milímetros. Mas que letra tem esse tamanho? Nenhuma. E que tamanho tem o “a” minúsculo? Não faço a mais pálida idéia.
?!?COMO ASSIM?!? Simples: apesar do corpo ser uma medida rígida e claramente definida, suas subdivisões são arbitrárias. Não há regra para o tamanho proporcional que uma haste deve ter com relação ao bojo da letra, nem uma lei que defina o tamanho e posição de acentos e sinais diacríticos.
Para ficar mais claro, apresento as cinco linhas horizontais que compõem o desenho de um caractere:
- A baseline, também conhecida como linha de base ou pauta, define o assentamento dos caracteres. Pouco importa seu formato, todos devem estar apoiados aí.
- Como você bem sabe, existem letras que “crescem para baixo”, ou que têm hastes e curvaturas que descem, em vez de subir. Chamamos esse tipo de hastes de descendentes. Elas estão presentes no g, j, p, q, y e devem ser apoiadas na linha apropriada para isso. Seu nome? Linha do descendente, óbvio.
- Da mesma forma, as hastes que sobem de letras como b, d, h, k ou que são, por sua natureza, verticais como f e l, devem terminar na respectiva linha do ascendente. Não, design não tem nada de esotérico, por mais que pareça.
- Uma curiosidade tiponérdica é que, em letras clássicas com serifa, a altura dos ascendente é levemente maior que a do maiúsculo. Isso facilita a leitura e sua origem remonta a bíblias alemãs, coisa que não dá para explicar aqui. Por isso existe a linha das maiúsculas, diferente da linha do ascendente. Você ainda está comigo? Imagino como deva ser confuso, desculpe-me.
- Por mais que essas letras sejam altas, não são tão altas quanto o acento das maiúsculas, por isso existe mais uma linha só para defini-las.
Como você pode bem ver, existe uma boa padronização de caracteres, eles não são nada arbitrários. A regra, essencialmente, é esta: você pode fazer o desenho que quiser dentro de um corpo, mas ele deve ser consistente.
Mesmo assim, por que duas letras de mesmo corpo parecem ser de tamanhos tão diferentes? A resposta está na última linha, a da altura-x (ou altura de x, você escolhe). Apesar do nome, ela define a altura média das minúsculas, não só do x. Ele foi escolhido por ser sinônimo de “um caractere qualquer” e também por não ter curvatura, ao contrário de a, c, e, m, n, o, r, s.
Por isso ela pode ser medida com precisão. Afinal de contas, como se mede a altura de uma letra redonda? Pelo vértice ou pela média da altura? As duas respostas estão certas. (e você achava que tipógrafo não era Nerd, tsktsktsk…). Seguindo o mesmo raciocínio, a letra “i” tem pingo, “t” é só uma haste. Sobraram u, v, z. As duas primeiras são variáveis e podem ter algum detalhe em sua haste. Entre x e z, a primeira pelo menos significa alguma coisa.

O genial Edgar Allan Poe fez, há um século e meio, uma brincadeira divertida com o x minúsculo ao compor um parágrafo enorme em que absolutamente todas as palavras tinham a letra “o”, que foi substituído por “x”, gerando o texto surreal a seguir. Se você lê inglês, recomendo a leitura deste conto divertido dele, que até serve de estudo arqueológico sobre a forma como se imprimia até 1990:
Sx hx, Jxhn! hxw nxw? Txld yxu sx, yxu knxw. Dxn’t crxw, anxther time, befxre yxu’re xut xf the wxxds! Dxes yxur mxther knxw yxu’re xut? Xh, nx, nx!–sx gx hxme at xnce, nxw, Jxhn, tx yxur xdixus xld wxxds xf Cxncxrd! Gx hxme tx yxur wxxds, xld xwl,–gx! Yxu wxn’t? Xh, pxh, pxh, Jxhn, dxn’t dx sx! Yxu’ve gxt tx gx, yxu knxw, sx gx at xnce, and dxn’t gx slxw; fxr nxbxdy xwns yxu here, yxu knxw. Xh, Jxhn, Jxhn, Jxhn, if yxu dxn’t gx yxu’re nx hxmx–nx! Yxu’re xnly a fxwl, an xwl; a cxw, a sxw; a dxll, a pxll; a pxxr xld gxxd-fxr-nxthing-tx-nxbxdy, lxg, dxg, hxg, xr frxg, cxme xut xf a Cxncxrd bxg. Cxxl, nxw–cxxl! Dx be cxxl, yxu fxxl! Nxne xf yxur crxwing, xld cxck! Dxn’t frxwn sx–dxn’t! Dxn’t hxllx, nxr hxwl, nxr grxwl, nxr bxw-wxw-wxw! Gxxd Lxrd, Jxhn, hxw yxu dx lxxk! Txld yxu sx, yxu knxw,–but stxp rxlling yxur gxxse xf an xld pxll abxut sx, and gx and drxwn yxur sxrrxws in a bxwl!
Apesar da medida de corpo ser bastante precisa, as linhas que o subdividem não têm padrão, e costumam variar bastante. Há caracteres curtos e grossos, que têm grande altura-x, mas ascendentes e descendentes relativamente pequenos, outros que são exatamente o contrário.
A variação na altura-x muda completamente a percepção que se faz deles. Ela influencia muito a legibilidade e é um fator de escolha mais importante que o corpo. A regra básica é mudar os tamanhos de corpos para buscar a padronização dessas alturas. Corpos cuja relação entre hastes e alturas-x for relativamente grande tendem a ser mais difíceis de se ler. O motivo tem a ver com contrastes e percepção cerebral, e também não cabe aqui.
Em CSSês, o argumento vertical-align define em que linha o texto será colocado:
- baseline – apoiado na pauta
- middle – centralizado verticalmente
- super - baseline coincide com ascendente
- sub - ascendente coincide com baseline
- text-top - altura-x coincide com baseline
- text-bottom - baseline coincide com altura-x
Por último, números. Talvez você já tenha reparado que os números em letras como Garamond e Georgia são meio estranhos e parecem estar desequilibrados, principalmente quando comparados aos números que conhecemos. Na verdade é que antigamente os números sofriam a mesma classificação das letras minúsculas. Eles tinham com altura-x, ascendentes e descendentes. As famílias tipográficas que seguem essa estrutura são chamadas de ranging ou oldstyle.
OK, o papo está bom mas o post ficou muito longo, não deu para falar de emes. Fica para o próximo. Mas com base no xis, já dá para se ter uma idéia do que ele signifique, não?
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Oi Luli, agradeço se puder me passar as alterações na legenda do filme Helvetica. Fui eu que fiz a tradução, gostaria de ficar a par das imprecisões que você aponta. A última versão no ar contém algumas modificações desde a primeira data em que foi publicada, mesmo assim tenho dúvidas em alguns trechos. No forum de tipografia (http://www.sapien.com.br/tipografia) o retorno foi zero a respeito da legenda. Um abraço.
Ótimo post, Luli.
Esses números como os da Georgia também são chamados numerais de texto, exatamente porque funcionam melhor em texto corrido do que os números normais. Se citamos, por exemplo, o valor R$ 23.450.000,00, temos uma sequência de caracteres na altura das maiúsculas, que se destacará em relação ao resto do texto, prejudicando a fluidez da leitura. Os oldstyle, ao contrário, se “encaixam” melhor na variação de altura.
Abraço.
Muito bom, e muito divertido a série, ficarei de olho!
Excelente adendo Julio. Esqueci de dizer exatamente isso, que os numerais de texto, em inglês chamados de figures, em oposição a numerals são mais legíveis e não quebram o ritmo da leitura - por isso são figuras, não foram feitos para serem calculados.
A idéia de colocar todos os números em maiúsculas (que é, de certa forma, como os vemos hoje, já que têm a mesma altura das letras maiúsculas) veio da Bauhaus.
De lá surgiram outras propostas não muito práticas, como o alfabeto unicase, que não teria maiúsculas nem minúsculas. O grande designer Bradbury Thompson, inspirado nessas idéias, desenvolveu uma monstruosidade chamada deAlphabet 26, que, como o nome já sugere, teria só 26 caracteres.
Por mais que a origem latina do nosso alfabeto tenha sido dessa maneira, acredito que as minúsculas sejam uma inovação e representem uma melhoria na experiência da leitura. Removê-las pode simplificar as formas, mas não facilitará a compreensão. Não se pode esquecer que um texto serve para comunicar.
Em inglês, o termo figures é referente não só aos numerais de texto ou text figures, mas também aos numerais alinhados ou lining figures. Honestamente, nunca vi essa diferenciação onde numerais maiúsculos são chamados de numerals e os minúsculos de figures.
A idéia de colocar todas os numerais na mesma altura das maiúsculas não veio da Bauhaus. Isso é uma característica da revolução industrial. No final do séc. XVIII o puncionista inglês Richard Austin cortou um tipo que tinha numerais alinhados, com 3/4 da altura das maiúsculas.
Antes de Bradbury Thompson, Herbert Bayer já tinha desenvolvido na Bauhaus o conceito do alfabeto Universal. http://en.wikipedia.org/wiki/Herbert_Bayer
Acho que há um mal-entendido, Rafael. Eu não disse que os numerais maiúsculos eram numerals. Disse que figures não foram feitos para calcular, apenas para display.
Já o alfabeto unicameral existe desde o aramaico. O latim em roma não tinha minúsculas, já que elas surgiram com Carlos Magno, séculos mais tarde. Muitas línguas, como o árabe e o hebraico, nunca tiveram variações de caixa. Algumas delas nunca tiveram vogais, mas isso é assunto para outro post.
Nem a Bauhaus nem a revolução industrial, portanto, inventaram o alfabeto único. Elas só o popularizaram.
Obrigado pelo toque. Espero ter eliminado as dúvidas. Ou não.
Olá Will. Na verdade não são erros o que vi em sua tradução, pelo contrário. Mas como pretendo usá-la para fins didáticos, tomei um cuidado especial em padronizar termos e torná-los de compreensão mais fácil para o leigo completo. Ainda não digitei a minha versão (vergonha, faço a maior parte dos meus textos à mão), mas assim que o fizer eu te passo a minha versão para comparação.
Sua tradução está muito boa, muito acima da média. Mas como quando ela caiu nas minhas mãos a minha já estava pela metade, resolvi terminar. Parabéns pelo trabalho desapegado e abnegado. Eu acredito que essa será minha última tradução de legendas.
Oi Luli, obrigado pelo retorno e pelo reconhecimento do desapego e da abnegação. :-)) Só pra constar, fiz esta tradução para ajudar um amigo que queria entender o filme e acabei compartilhando com a galera. Entendo perfeitamente quando diz que será a última tradução. Aguardo sua versão, mesmo porque poderá me ajudar a elucidar alguns pontos. Eu pedi ao pessoal do forum que me apresentasse modificações, correções, sugestões etc, e elas ainda são bem vindas. Nenhuma tradução está livre de enganos, é uma reinterpretação e um exercício de síntese em vários momentos. Boa sorte na empreitada. Um abraço. w.
Ótimo post, parabéns!