Ok, ok… Até agora muita teoria, tudo muito bonito. Mas imagine que você tem um website para fazer: por onde começar? A idéia desta seção é esclarecer o processo: cada designer tem uma metodologia, que gosta de patentear com uma sigla própria, e todas elas dizes mais ou menos a mesma coisa. A produção de websites consistentes e coerentes passa por quatro fases:
A. Briefing ou conceito – definição do foco do website, seu consumidor, objetivos de marca e vendas a ser apresentado. Essa fase procura conhecer o cliente, seu consumidor e o que o levaria a gastar algum dinheiro para acessar a internet. É a parte mais difícil e a mais importante.
B. Estrutura ou roteiro – como vai ser a navegação através do endereço, a ordem das páginas e todas as alternativas de visitação. É a hora da definição do mapa, conjuntos de dados e arquitetura de informação.
C. Interface – design de estruturas informativas, barras de navegação e relação computador – usuário. O design estrutural, projeto gráfico e direção de arte acontecem aqui, formando a “cara” do site.
D. Programação ou manutenção – escolha da tecnologia e sua utilização na viabilização do projeto, sua consistência, auditoria e manutenções periódicas.
Rótulos
Há uma mística na categorização das coisas. Desde crianças estamos acostumados a classificar tudo que vemos, ouvimos e sentimos em pequenas gavetas, de acesso fácil, restritivo e imediato. Assim, da mesma forma que uma cadeira é um móvel feito de madeira, as ciências são exatas, humanas, biológicas, os objetos são clássicos ou populares, artísticos ou comerciais. Não há meio termo, é um mundo de absolutos, habitado por pessoas tímidas ou encrenqueiras ou gordas ou carecas ou sedentárias. Os museus são exibicionistas dessa compulsão classificatória, mas não são os únicos. Em revistas, TV, jornais e na conversa das pessoas vemos cada vez mais o impulso que nos faz parecer velhos ranhetas.
Nesses tempos digitais, nada poderia ser mais perigoso. O encapsulamento e a definição em categorias podem ser elementos de segurança, pois nos garantem um certo controle, mas são muito perigosos. Sempre que rotulamos algo ou alguém, automaticamente o limitamos e perdemos o contato com a real experiência de conhecê-lo, o que é morte para o design ou criação em geral. No ciberespaço as fronteiras são muito tênues, tudo corre muito rápido e um link pode levar a opiniões opostas. Como uma revoada de vaga-lumes, todos os conceitos parecem virar de cabeça para baixo, misturando-se, opondo-se, completando-se.
Os tempos mudaram e o mundo se apresenta a nós de múltiplas formas inéditas. A tecnologia, esse espetáculo de mágica contínuo, muda as nossas vidas enquanto aumenta e encolhe nosso campo cultural. A narrativa pulou da página para a tela (e para a página na tela), a música precisa agora ser vista além de ouvida, os computadores bagunçaram nossa relação com a informação, e a internet, seguindo a tradição da televisão, terminou por demolir o resto da solidez que tínhamos. As coisas parecem se mover depressa demais, mas a realidade é que os conceitos que agrupavam e aprisionavam os conteúdos estão sendo demolidos rapidamente, deixando todo mundo confuso.
Para se inventar um produto novo usando uma tecnologia igualmente nova é preciso examinar cada pequeno objeto que pegamos: vê-lo cuidadosamente, calcular as sensações de quem o utiliza, pensar com sua cabeça e criar uma peça que só poderia ser utilizada por ele, explorando essas sensações. Assim, uma secretária eletrônica não é um eletrodoméstico, mas a frustração de quem quer falar com alguém ao telefone e não o encontra. Uma mensagem gravada nesse aparelho tem que dar esse conforto. Um website não é o folheto de uma empresa e nem precisa ter os links à esquerda, mas deve ter as referências de quem o consulta, não de quem o faz.
Correndo à velocidade da luz sem sair do lugar, nos agarramos às categorias, nem sempre tendo o cuidado de examiná-las. Elas são nossas placas de orientação em uma paisagem confusa, gastas de tão velhas e usadas. Reflexos de controle, elas nos reafirmam que há um tempo e um lugar para tudo. Declarando o que é certo e o que é errado, elas reforçam estereótipos, murmurando a falsa humildade do “senso comum”, que nos faz ter um ar enjoado de conoisseurs nostálgicos de tempos que nunca existiram. As categorias são sistemas fáceis, confortáveis. Use-as mas duvide delas. Elas são as regras do jogo, mas talvez não mais do que está sendo jogado.
Clement Mok, um dos maiores arquitetos de informação dos Estados Unidos, divide o processo de produção de um sistema de comunicação digital em quatro fases: definição, conceito, criação e implementação.
Definição: coleta e análise dos dados disponíveis, identificação de objetivos e sua análise seguindo parâmetros práticos, orçamento e prazo. A abrangência e profundidade de um projeto são definidas nesta fase.
Conceito: fase de avaliação do conteúdo e estruturação da informação. Definição dos dados relevantes, prioridades e interligações. É a fase do planejamento que define em que parte do projeto ficarão as informações e que meios serão utilizados (som, fotografias, ilustrações, diagramas, texto, vídeos) para divulgá-la. É o momento de construção de modelos e protótipos, para checar sua viabilidade.
Criação: design e finalização da interface. Aglutinação das diversas mídias e concatenação das partes do projeto definido nas fases anteriores. O projeto começa a tomar forma e perde sua característica mecânica, ganhando uma estrutura mais criativa e visualmente rica.
Implementação: síntese das idéias e atividades dos processos anteriores; programação e testes. É a época da reavaliação do design e sua preparação final.
Roger Black, outro grande designer, usa outras quatro fases: instruções, páginas-teste, protótipo e lançamento.
Instruções: descrição da abrangência do trabalho, tarefas a serem executadas e seus responsáveis. Definição de um mapa do endereço digital e levantamento de todos os recursos necessários para a sua produção. O cliente mostra seus objetivos e necessidades, o estúdio faz o planejamento estratégico e engenharia.
Páginas-teste: diferentes formas de abordagem de um produto digital, em diferentes estilos. Dão uma idéia geral do que poderá ser o produto final. O cliente opina e refina o conteúdo e o estúdio entra com o design e marketing.
Protótipo: desenho final da interface, testes, programação e aprovação pelo cliente.
Implementação: assim que o protótipo estiver revisado e aprovado é hora do lançamento. Para isso, é necessária a programação do conteúdo, levantamento e adequação de todas as mídias, documentação e preparação de estilos que possam ser seguidos pela equipe de atualização.
iD5: um plano de negócios online
A consultoria iXL, como a maioria das empresas do gênero, tem uma metodologia usada para a análise de planos estratégicos de empresas que pretendam montar uma operação online. Apesar de mais focada no planejamento que no design, ela é interessante porque integra produtos ou serviços online a seu mercado e concorrência. Chamada de iD5, essa metodologia tem cinco fases consecutivas:
1. Estratégia de negócios – reconhecimento do ambiente; levantamento dos objetivos e recursos iniciais; análise do planejamento estratégico, nicho de mercado e concorrência; mapeamento de oportunidades. Com esses dados em mãos desenvolve-se uma estratégia para atingir o consumidor e definine-se a direção que a empresa tomará. A partir daí o plano de implementação e suas prioridades são traçados, reunindo as áreas envolvidas;
2. Planejamento de soluções – conhecimento adquirido, define-se o modelo operacional, funções e necessidades. Monta-se o projeto gráfico inicial, mapas, modelos lógicos de dados, arquitetura do sistema e plano de estruturação;
3. Detalhamento – seguindo as diretrizes criativas definidas na fase anterior, nessa fase é que se desenvolvem todos os elementos necessários para o produto completo: mapas detalhados, design estrutural, criação de todas as interfaces e pontos de interatividade, preparação dos modelos de dados para geração e atualização de páginas e sua integração com sistemas preexistentes de informática. A identificação problemas ou gargalos estruturais ocorre aqui.
4. Desenvolvimento – com os elementos preparados, está tudo pronto para a programação, estruturação de servidores e sua conexão, criação dos bancos de dados, testes de funcionalidade e usabilidade; e
5. Lançamento – ajustes finais no projeto, preparação dos elementos, campanhas de relações públicas e propaganda e acompanhamento de seu desenvolvimento.
A metodologia que uso
Por ter trabalhado com diversas equipes de um grande número de empresas, não costumo impor minha forma de pensar a nenhum grupo de trabalho. Muito pelo contrário, prefiro absorver elementos da cultura de cada cliente para montar seu site de uma forma bastante personalizada. Existe uma série de etapas que sigo, mais baseado em bom senso que em qualquer fórmula heurística. Elas são doze:
1. Definição das necessidades e objetivos da empresa em um ambiente digital (por que estar “lá”?);
2. Desenvolvimento do conceito (comercial, criativo, técnico) e seus objetivos;
3. Especificações, planejamento e cronograma;
4. Organização dos grupos de informação e seu fluxo, design estrutural;
5. Design, texto e direção de criação;
6. Produção de conteúdo;
7. Integração de conteúdo;
8. Programação e integração de software;
9. Testes e controle de qualidade;
10. Lançamento e marketing;
11. Manutenção; e
12. Acompanhamento do usuário.
Essas etapas são feitas individualmente mas, no correr do processo, muitas delas acabam se acumulando, invertendo ou simplesmente englobadas por outras. Consideramos, para o processo como um todo, quatro grandes fases: Lápis (definição e estrutura – 1 a 4); Photoshop (design e produção visual – 5 a 7); Código (programação e testes – 8 e 9); e Manutenção (lançamento, atualização e suporte – 10 a 12). Para cada fase é bom contar com profissionais ou equipes especializadas.
Antes de começar, reúno os profissionais envolvidos (todos os que consigo, o que nunca passou de 70% da equipe) e discutimos o projeto integralmente. Acertadas as diferenças de visão e compreensão, as equipes trocam idéias à medida que realizam as tarefas até que o projeto esteja finalizado.
Nas etapas 1, 4, 6 e 8 é fundamental a presença de um profissional multidisciplinar (como um Arquiteto de Informação, Diretor de Criação ou Coordenador de Projeto) para que o material final saia uniforme, sem emendas ou diferenças de filosofia.
Como você pode ver, cada profissional tem metodologia e filosofia diferentes, mas todos se baseiam em um conceito sólido e um planejamento seguido à risca para que o produto final saia consistente, eficiente, funcional e muito mais do que simplesmente “bonitinho”.