São muito esquisitos os tais tempos modernos. As coisas estão acontecendo tão rápido que nos fazem ficar perdidos e sem reação diante da novidade. Os textos das próximas páginas são extraídos de alguns artigos que escrevi e expõem algumas de minhas inquietações a respeito desse novo mundo. Eles não têm finalidade prática direta, mas podem ajudá-lo a criar algo realmente novo e impensado.
Século XXI: guia do usuário
Chegou. O sonho de um mundo cheio de máquinas em que apertamos botões finalmente chegou, e ninguém parece se dar conta disso, ou pelo menos estar satisfeito.
Analisando tudo o que se fala sobre a virada do milênio, percebemos que ela é anunciada mais como um assustador “bug” que com a era de Aquário. A sensação geral é que, agora que chegamos à tão falada Utopia, sentimos um enorme desconforto e uma irresistível saudade de casa.
Em todos os lugares as pessoas se queixam da vida moderna: o estresse, o trânsito, a correria das grandes cidades, a lentidão dos computadores, a ineficácia dos celulares, colesterol, triglicérides e todas as agruras e incertezas de uma era digital. Fazem um enorme sucesso as lendas de alquimia, os contos medievais e a imagem de uma vidinha tranqüila nas pequenas comunidades analógicas do começo do século, um tempo em que carreiras e geladeiras eram construídas para durar para sempre, cuja única rede de informações era a fofoca e a coisa mais próxima da realidade virtual era o Paraíso. Muitas pessoas assumem uma nostalgia esquizofrênica de um tempo não vivido, sentindo “saudades” da Paris nos anos 20 ou da Itália na renascença.
Outros pôem a culpa de toda essa incerteza na revolução das tecnologias de informação, que deveria aumentar nossa produtividade para garantir-nos mais horas de lazer, mas acabou dando errado, pois estamos mais produtivos do que nunca e, ao mesmo tempo, mais sobrecarregados. Os mais radicais acham que é hora de parar com essa onda esmagadora e voltar aos princípios básicos do ser humano, como os Talebans do Afeganistão ou os Amish, que vivem em comunidades agrícolas nos Estados Unidos. Mesmo entre os mais moderados há um visível desconforto com a velocidade das mudanças.
Provas de resistência atlética que submetem pessoas de aparente bom senso a cinco dias no meio do mato sem nenhum aparelho eletrônico são um bom exemplo dessa confusão de valores: entre os atletas vencedores, a absoluta maioria treina em academias muito bem equipadas, come energéticos que são a fina flor da engenharia de alimentos e veste roupas com fibras inimagináveis. Ora, por que então satanizar a pobre da eletrônica? Só por que ela é a mais visível — e democrática — das tecnologias?
Da mesma forma que aborígenes têm medo que fotografias lhes roubem as almas, nós, seres humanos modernos, informados, cultos e inteligentes morremos de medo que a tecnologia nos roube a humanidade, deixando-nos isolados, lobotomizados, pragmáticos e melancólicos. Acreditamos que os progressos da ciência não valem nada, pois nunca teremos tempo para aproveitá-los, mesmo que, hoje em dia, tenhamos uma expectativa de vida saudável e produtiva muito maior que a dos nossos avós.
Mas será que a tecnologia é algo tão estranho ao ser humano? Ou será exatamente o contrário: não seria a tecnologia um dos ingredientes mais essenciais da humanidade? O que nos destacaria das outras espécies senão uma irritação e uma insatisfação geral com o estado das coisas a ponto de procurarmos, sempre, mudá-lo? Nós, macacos pelados, desde o Homo Habilis inventamos ferramentas para modificar o mundo e nunca nos satisfizemos com elas, a tal ponto de estarmos mais para Homo Dissatisfactens que para Sapiens.
De qualquer forma, não há como parar o progresso. Os regimes autoritários que acreditam nisso agem como a criança que fecha os olhos para se tornar invisível. A evolução tecnológica está presente em toda a parte, não é uma conspiração de um grupo de manipuladores chamado de “sistema” e seus industriais sempre em busca de dinheiro, forçando-nos, através da publicidade, a comprar coisas inúteis e frágeis. O socialismo não quis ver isso, forçou um igualitarismo entre pessoas que sempre buscaram melhorias e deu no que deu.
Além do mais, tecnologia é qualidade de vida e nem o mais lírico dos mortais quer voltar para o passado, com toda a razão. Ou você iria a um tempo — qualquer tempo — em que chuveiros e telefones não funcionavam direito, carros eram perigosos e não andavam a mais de 60 km/h, partos e visitas ao dentista eram realmente dolorosos e podiam custar a vida? Isso sem contar espartilhos, sabonetes fedorentos, maquiagens pegajosas e lâminas de barbear que realmente cortavam? Ou sem comodidades mínimas como cuecas ou absorventes internos, zíperes, lycra, velcro, teflon? Cujo único meio de transporte para a Europa era o tedioso navio, cheio de pulgas, ratos, baratas, escorbuto e tuberculose, sem ar-condicionado e cuja viagem demorava séculos? Tsk, tsk, tsk… é sempre bom lembrar que sushi e café expresso eram excentricidades de imigrantes há apenas 20 anos, uma época de liberação sexual, mas sem o Viagra que todos, cedo ou tarde, abençoaremos.
Se pretendemos sobreviver e explorar as maravilhas de uma era digital que se avizinha, precisamos aprender a pensar digitalmente, a usar as máquinas online como verdadeiras extensões do nosso pensamento, sem amaldiçoar nossas ferramentas de trabalho. Até porque lutar por um estado bucólico não é uma opção. A melhor forma é buscar na tecnologia formas de resgatar nosso espírito humano, nossas características independentes e primitivas, das quais muitas vezes nos envergonhamos: virtudes como fé, esperança, caridade; emoções como paixões e ódio; além, é claro, dos sete pecados capitais. É isso que nos conecta aos tempos de Shakespeare, não uma roupa de algodão cru.
Fala-se que a internet separa as pessoas. É verdade. Mas ela também conecta, mesmo que seja sem contato físico. Se não fosse assim, as salas de chat não seriam tão populares. No começo do século escrevíamos cartas, agora mandamos e-mail ou ICQ e a mensagem de ambos não é tão diferente assim. As histórias de hoje — como os seres humanos de hoje — são as mesmas de sempre e tratam daqueles que, por mais que tenham se tornado Sapiens, continuam sendo, fundamentalmente, Homo. A que ponto teremos que chegar para que os personagens de Fellini, a Guernica, as músicas de Cole Porter se tornem incompreensíveis? Certos estão os evolucionistas, que dizem que nosso futuro não está no que seremos ou vestiremos ou onde viveremos — características maleáveis — mas sim no que pensamos.
Muita coisa muda em um ambiente digital, e ao mesmo tempo, nada muda: são as relações humanas de sempre que agora são automatizadas e ganham dimensões mundiais. O sucesso da Amazon se deve quase que exclusivamente ao fato de ter sido uma das primeiras a perceber essa tendência e, ao invés de mimicar a concorrência, resolveu se comportar como a livraria ou a mercearia da esquina, trabalhando com sua freguesia, reconhecendo seu local no mundial, adivinhando seus anseios e fazendo sugestões no melhor estilo “gostou deste? Então leve este também”. Da mesma forma que este texto, que foi escrito na praia, é mais um exemplo da tecnologia usada como meio, não como fim. Não é assim que deveria ser?
As tias velhas da internet
Muito bonito todo esse papo de “new media”, mas o fato é que a internet mudou muito pouco. Desde os primeiros exercícios quase acadêmicos do começo da década de 90 até hoje, os sites continuam lerdos, feios e chatos, com quase as mesmas coisas: barras de links à esquerda, logotipos no canto superior, coisas animadas que piscam e pulam, conteúdo excessivo, desnecessário, confuso ou desfocado, com ícones esquisitos, textos com “clique aqui”, muito barulho e pouco serviço de verdade.
Enquanto isso, os videogames estão cada vez mais sensacionais, o código-fonte dos DVDs já foi quebrado, MP3 faz com que os milhares de reais gastos em sua coleção de CDs pareça um estrondoso desperdício, Linux é de graça e ameaça o Ruindows, e-mail funciona em telefone celular, SimCity em PalmPilot, ICQ é um vírus que corrói muito mais horas de trabalho que qualquer ILOVEYOU, adolescentes de piercings e cabelos coloridos continuam sendo o único grupo capaz de acertar o relógio de um videocassete, crianças decoram todos os nomes dos malditos Pokémons e eu e você, perdidos nesse turbilhão, ouvimos profetas profetizando sobre qualquer coisa e não sabemos a quem recorrer.
Que raio de abismo cultural separa as crianças de hoje dos adolescentes, estes dos jovens profissionais de trinta e poucos anos e estes de seus experientes colegas de cinqüenta e poucos? Boa parte da culpa é da lei de reserva de mercado para produtos de informática, que só caiu em outubro de 92. Essa bravata tupiniquim deixou em todos nós seqüelas culturais incuráveis: enquanto crianças que nasceram há 7 anos ou menos acham o computador mais natural uma bicicleta, para todos nós ele pode até ser prático, interessante, útil, mas temos medo de um 1984, do poder dos Hackers, de usar cartão de crédito, nos envergonhamos em ser chamados de usuário e portamos um orgulho ingênuo e infantil em pensar que, no íntimo, poderíamos até viver muito bem sem ele.
E quem é esse tal usuário? Usuário, no meu tempo, é quem usava drogas. Provavelmente no seu também. Talvez por isso se diga tanto que algumas pessoas estão viciadas em internet. Honestamente, isso é ridículo. É como dizer que alguém está viciado em falar. O usuário é uma pessoa comum, como nós, a quem é oferecido um poder formidável, e que não sabe muito bem o que fazer com isso. Como uma bela menina de 14 anos, que não faz a menor idéia do fascínio que causa em velhos de mais de 30 e até tem um bocado de medo deles.
O usuário comum não quer saber de WAP, banda larga, e-commerce ou outros bichos. Essa nomenclatura o deixa confuso, perdido. O que ele quer é alguém para conversar, uma boa sugestão de presente, uma dica bacana de restaurante, um hotelzinho na praia para o feriado. Pensando bem, todos nós conhecemos muito bem os usuários de tecnologia digital: eles são nossos irmãos, nosso sobrinhos, nossas tias, aquele sujeito que nos fechou o carro no trânsito. Será que é tão difícil fazer comunicação para esses caras? Será que é preciso fazer anúncios com ícones? Que alguma multinacional com foco na latinoamérica venha nos dizer como fazer comunicação, com seus sites que lembram novelas à Televisa? Honestamente, eu duvido.
Está nascendo uma cultura popular digital. Nós somos as suas tias, acostumadas com Jeannie é um Gênio e achando que isso é televisão. Os novos Spielbergs estão agora em casa, sujando fraldas ou jogando videogames e não se preocupam com o que vem pela frente. Nunca teremos sua visão, mas podemos estar preparados para eles.
Tempo irreal
Um termo muito usado para definir a cultura de resultados instantâneos em que vivemos é o tal tempo real, que simboliza o instantâneo, o tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Só que não há nada verdadeiramente real em tempo real, e certamente nada de humano nele.
Se você parar para pensar, vai ver que a demora e a espera é o que nos dá contato com o mundo de verdade. Esperar por um prato pode ser um bom motivo para papear, como esperar pela conta ou por um cafezinho. Ou esperar o sol se pôr, o dia raiar, o chuveiro esquentar. Uma mulher esperando um bebê parece tão serena. Do mesmo jeito que aquele sujeito distraído que olha pela janela vendo a paisagem enquanto o ônibus não chega a seu destino. Crianças esperando pelo Natal são tão radiantes etc. Não dá para radicalizar dizendo que os melhores tempos da nossa vida nos são proporcionados pela espera, mas que ela nos dá pausa em uma correria, estimula a reflexão e nos faz aproveitar melhor as coisas é incontestável. Ou existe coisa pior que viver de fast food?
Quantas vezes você não viveu um momento que queria que não acabasse nunca? Deitado debaixo de uma árvore, com alguém, olhando o céu… o contato entre as pessoas toma tempo, e nesse tempo não é só informação pura e simples que se troca. Demoras e pausas são imprevisíveis no mundo de troca de informação. São o tempo no qual a vida acontece e em que se trocam outras experiências — sensoriais, afetivas, sinestésicas — prazeirosas, intangíveis e enriquecedoras.
Cada cultura tem sua própria percepção do tempo e seu significado. Para os chineses — especialmente para os velhos chineses — o tempo presente tem uma dimensão ridícula, desimportante, que só um país com mais de cinco mil anos de história pode oferecer. Talvez isso faça dos americanos povos mais histéricos e ansiosos que os europeus. Talvez não. O que importa é que nossas vidas são marcadas tanto pela velocidade quanto pela lentidão.
O tempo é inquestionavelmente nosso mais rico recurso, e o que mais sofre risco de extinção. No dia-a-dia das grandes cidades vemos barbaridades cometidas no trânsito em nome de uma ansiedade, o desespero das pessoas com os telefones celulares que não funcionam, a irritação que surge quando não se consegue atingir um padrão ideal — de beleza, de físico, de inteligência, de eficiência. Ao igualar o real ao eficiente, perpetuamos uma idéia positivista em que a aceleração (progresso) é o principal objetivo da vida como um todo (ordem) e, assim, minimizamos o valor do contato humano.
É engraçado que as mesmas pessoas que cultivam essa “eficiência” do tempo real — como viciados até, os workaholics — se apaixonam por cidades pequenas e reclamam por uma melhor qualidade de vida. Ora, por que esse tempo não-instantâneo não é percebido como tempo para a reflexão? Ou tempo criativo? Ou como uma característica da própria qualidade de vida? Talvez isso explique a popularidade de esportes como o Golfe, em que o tempo e a caminhada têm um papel importante.
Plantas para crescer levam tempo. Flores são bonitas porque são efêmeras e demandam cuidado. O pôr-do-sol dura poucos minutos e só aparece uma vez por dia. E é muito mais bonito que um céu inteiro lilás ou cor de laranja, como acontece algumas vezes em Cubatão.
Ao passearmos nas paisagens informativas digitais, temos a impressão que nossa cultura se enriquece, quando o que acontece é o contrário: nos tornamos depósitos de dados e citações impensadas, não refletidas. Isso dá o que pensar. Pois no fundo, nada do que vemos ao nosso redor é real, a não ser a nossa disposição a aceitá-lo.
Problemas e mistérios
O linguista Noam Chomsky uma vez sugeriu que nossa ignorância – o desconhecimento que temos a respeito de um tema qualquer – pode ser dividida em duas categorias: problemas e mistérios. Quando encaramos um problema, podemos não conhecer sua solução exata, mas temos uma idéia razoável do que esperamos como resposta. Quando o que se tem pela frente é um mistério, só nos resta olhar para ele maravilhados e espantados, não tendo a menor idéia de suas causas ou estrutura.
Boa parte das religiões, crendices e mitologias surgiram para explicar mistérios do dia-a-dia. Todos os povos primitivos têm razões poéticas e ingênuas para fenômenos esquisitos, como a noite, a chuva, a morte. À medida que nós crescemos e vamos nos tornando adultos, velhos mistérios passam a ser simples problemas e acabamos ficando pragmáticos. Arrogantes com nosso conhecimento, criamos novos mitos para as coisas que não temos mais vontade ou paciência ou energia para pesquisar o funcionamento. E nos tornamos velhos, com a cabeça cheia de mistérios que, como não temos coragem de desvendar, resistimos o quanto pudermos.
Olhe para qualquer site na internet com os olhos de um leigo: todos são pequenos mistérios, caixas pretas que não fazemos a maior idéia de como desvendar. E o que é muito pior, não estamos nem aí. Como é que se clica em uma palavra e se lê outro texto? Como é possível ir tão rápido de um site a outro, da Dinamarca para a Nova Zelândia? Onde estou, se em uma janela vejo o UOL e em outra a Wired? Como pode uma janela ser maior que toda a tela do meu computador? Como um pequeno site pode abrigar dentro de si um grande site? Essas perguntas – óbvias, simplórias, patéticas até, são muito importantes para quem se preocupa em desenvolver um bom site e fundamentais para quem busca empatia com o visitante, portanto essenciais para o desenvolvimento de websites.
Olhe no espelho e você verá um excelente exemplo de inovação e resistência: quando aprendemos uma nova tecnologia ou forma de comunicação, estamos abertos a todas as novas informações disponíveis – formatos, programas, estruturas. Com nosso pouco conhecimento, fazemos verdadeiros milagres. Depois de alguns meses aprendendo e dominando a técnica, preguiçosamente nos adaptamos a uma ferramenta e preferimos fazê-la dar nó em pingo d’água a estudar formas alternativas.
Antes de criar um site é necessário ver seus objetivos com clareza e reinventar a roda: não importa o que a concorrência faz, não importa o que o usuário está acostumado a ver, não importa o que existe de mais novo em tecnologias. Importa o conteúdo.
Veja um bom exemplo: videogames. No início da década de 80, quem acreditasse que coisas como um Telejogo Philco ou um Space Invaders iriam movimentar uma indústria de bilhões deveria com razão ser chamado de maluco. Mas foi exatamente porque o pessoal envolvido na criação desses produtos se preocupou em inovar e criar novas estruturas que surgiram coisas como um Mortal Kombat, Ultima, Sim City, Quake e muitos outros.
Precisamos de um choque de idéias, tecnologias para elas nós temos de montão. A web está tão obcecada em imitar os modelos tradicionais que esquece de sua verdadeira riqueza. Faltam boas idéias, produtos que façam a diferença, coisas bacanas e simples que deixem as pessoas felizes e satisfeitas. Como fazer isso? Com lápis e papel. Talvez umas cervejas ajudem. Para muitos, criar esse tipo de coisa é um mistério.
Para desenvolver bons produtos digitais (e para se desenvolver como profissional na era digital) é preciso abrir a cabeça e transformar esses mistérios em problemas. Assim será bem mais fácil solucioná-los. Essa é, na minha opinião, a principal função da Arquitetura de Informação.
Malditos Pokémons!
Você entende alguma coisa de Pokémons? Eu confesso que não entendo nada. Na época em que escrevi este artigo, o desenho animado era uma espécie de mania nacional, com todos os termos esquisitos de seu ambiente. Mas, em muitos aspectos, seu mundo é tão hermético e incompreensível quanto o da internet. Com isso em mente, escrevi este artigo, sem nenhuma intenção de ofender seus fãs. Quem conhece o mundo Pokémon não entendeu do que se trata e qual sua relação com o design para a internet. Quem não sabe nada deus boas risadas. Leia-o e pense em como seus clientes pensam na internet:
“Pokémons. Pokémons. Pokémons.. AAARRGGGHHHHH!!!! Malditos Pokémons. Eles estão em todos os lugares. Nas suas variantes Fogo, Água, Elétrico, Grama, Gelo, Guerreiro, Veneno, Voador, Paranormal, Fantasma, Dragão, eles estão por toda a parte. Nas formas de Arbok, Fearow, Beedril, Carterpie, Ivysaur, Bulbasaur, Kakuna, Metapod, Charizard, Blastoise, Charmeleon, Ekans, Venusaur, Pidgeot (e Pidgeotto e Pidgey!), Raticate, Rattata, Squirtle, Buterfree, Charmander, Raichu, Spearow e do fiel, indefectível e onipresente Pikachu, eles estão em cada esquina. Evoluindo com a Pedra Lunar ou a Pedra Trovão, a mando de seus treinadores não há lugar em que eles não estejam. Espertos com suas malditas Poké-balls, eles estão em cada cantinho. Em suas aventuras com Ash, Brock e Misty contra o Team Rocket de Jesse, James e do trapaceiro Pokémon Meowth, será que existe algum bendito lugar em que eles não estejam?
É um saco, mas não tem jeito: eles estão mesmo por toda a parte. Modinha miserável de qualidade duvidosa, esse seriado japonês um dia vai acabar e daí só ouviremos falar de Tentacruel, Geodude, Graveler, Golem, Ponyta, Rapidash, Slowpoke, Slowbro, Magnemite, Magneton, Farfetch’d, Doduo, Dodrio, Shellder, Cloyster, Gastly, Haunter, Gengar, Onix, Drowzee, Hypno ou Voltorb em alguma onda retrô besta, ainda mais efêmera. Ainda bem.
Mas imagine por um instante se essa onda não acabasse, muito pelo contrário: se o que estivéssemos vendo fosse só o começo de uma nova “era” Pokémon. Imagine jornais e revistas sérias dedicando parte de seu precioso espaço a explicar as diferenças de um Sandshrew para um Sandslash. Imagine palestras e programas de TV para explicar que Abra, Kadabra e Alakazam não são mais só palavras mágicas faladas pelo Mandrake.
Imitando a maravilhosa peça “O Rinoceronte” do Ionesco, imagine que seus colegas começassem a se interessar por Chansey, Horsea, Goldeen, Seaking, Staryu a ponto de só falarem disso e passarem a renegar tudo o que fizeram anteriormente. Que a Design Gráfico criasse uma seção para o design de Pokémons. Que o espaço do desenho na TV aumentasse e que muito mais sites fossem criados para falar do tema? Na NASDAQ, empresas de Pokémons fariam uma reviravolta com seus IPOs e aumentariam a carga dos cyberdólares em criaturinhas mutantes. Enquanto isso, um Pokémon latino, de sombrero e radicado em Buenos Aires, iria tentar unificar pela 450ª vez aquele continente cucaracha abaixo do equador. A onda do Pokémon grátis criaria filas quilométricas nos postos de troca.
No seu escritório, você seria procurado por um moleque imberbe, de cabelos prateados e embrulhado em celofane que falaria maravilhas da onda dos monstrinhos, de empresas ganhando uma fortuna com isso. Uma fortuna? Sim, algo em torno de uns R$ 1000 com Hitmonlees e Hitmonchans. Você o mandaria passear e ele sairia na capa da Exame, cuidando de um investimento de risco de milhões. De Euros.
Pessoas começariam a olhar para você de um jeito estranho, só porque você achou que Weedle e Wartortle eram pratos da cozinha húngara, que Seel, Dewgong, Grimer e Muk eram danças búlgaras e que Lickitung, Koffing, Krabby e Kingler práticas de caça esquimó. Na empresa em que você trabalha, profissionais bem estabelecidos e com carreiras garantidas deixariam seus empregos para trabalhar em Clefable, Parasect, Golbat, Rhyhorn, Rhydon, Poliwag, Seadra, Scyther, que, apesar do nome, não eram aqueles laboratórios onde se escondem cientistas malucos que querem poluir o mundo com um gás verde, e de cujo Mr. Mime não era o CEO.
Assustado, você acaba entrando em um curso para aprender que Dragonite não é doença, nem que Nidoran, Nidorina, Arcanine, Vaporeon, Venonat, Jolteon, Omanyte, Snorlax, Vulpix, Flareon e Porygon são nomes de remédio genérico. Nenhum desses nomes faz sentido para sua cabeça perturbada e você começa a se achar burro, se perguntando se alguém na família é Magmar ou tem síndrome de Starmie. E o único nome que fica na cabeça é o tal Pikachu, mesmo assim você não consegue soletrá-lo.
Desesperado, você começa a mentir pra fingir que entende tudo de Pokémons, mas se trai ao descobrir que Nidorino, Omastar e Missigno não são aqueles nomes esquisitos que tem no sertão, nem que Kabuto, Primape, Machoke, Dratini, Kabutops, Paras, Kangaskhan, Tauros, Lapras, Pinsir, Tangela, e Marowak são cidades de países da selva africana.
Os monstrinhos viram realidade e conquistam as corporações mais tradicionais e você começa a colecionar cartões de visita com nomes que mais parecem estúdios de design inglês: Bellsprout, Electrode, Diglet, Cubone, Exeggcute, Oddish, Tentacool. Quando você finalmente descobre que Dragonair não é uma linha aérea asiática, chegou a hora de desistir.
Daí você contrata um carinha desses esquisitos para lidar com coisas de nomes que mais parecem produtos do 0800-14-06: Vileplume, Poliwhirl, Jigglypuff, Dugtrio, Electabuzz, Poliwrath. E dá vontade de fazer a piadinha: “não responda ainda – você ainda pode ganhar um Weepinbell, um Victreebell, um Exeggcutor, um Nidoqueen”, mas você não tem mais humor para essas coisas. E corre o risco de parecer o tio da Sukita, por isso deixa pra lá.
Palavras horrorosas surgem a cada instante: Nidoking, Clefairy, Wigglytuff, Zubat, Gloom, Ninetails, Venomoth, Persian, Psyduck, Golduck, Manky, Growlithe, Machop, Machamp, Weezing, Jinx, Magikarp, Gyarados, Ditto, Eevee, Aerodactyl, Articuno, Zapdos, Moltres, Mewtwo, Mew, Meyu. Desesperado e empapado em suor, você grita.
Daí você acorda. Ufa.
E percebe que foi tudo um horrível pesadelo. Ao tomar um belo banho gelado, sorri por nada disso ser verdade. E veste sua roupa clubber, coloca o piercing e vai de patinete trabalhar como webdesigner em uma pontocom, esperando que o cliente largue a mão de ser burro e entenda de uma vez por todas que não dá pra fazer frameset em Flash.”