Peças gráficas com um design bem feito são normalmente equilibradas e harmoniosas: todos os seus elementos se combinam para formar um resultado que é muito mais que a soma das partes. Esses elementos têm normalmente pesos, tamanhos e formatos completamente diferentes, mas, se tirarmos algum deles temos a impressão de que algo está faltando e o conjunto todo fica estranho, irregular. Como uma orquestra levemente desafinada. Ou como um quadro incompleto. Teórico demais?
Então imagine uma sopa salgada demais. Ou um bolo doce demais. Ou um acarajé apimentado demais. Ficou mais fácil? A culinária é o melhor exemplo de harmonia que existe no dia-a-dia, e deve servir de exemplo para o design. Todos sabem que a culinária é uma arte e demanda muita, muita prática. E um dos principais cuidados é não exagerar nos ingredientes. Salvo em pratos como moquecas e feijoadas, poucos componentes é que fazem o sucesso. Bons cozinheiros são cozinheiros experientes, que fazem com que até um bife com fritas — daqueles bem martelados, cujo suco molha o arroz soltinho, contrastando com batatas fritas bem crocantes — fique sensacional. Ficou com fome? Eu também, lembrei da minha avó. Pois esqueça a fome e compare esse bife com o design.
O designer é um harmonizador de elementos, por isso deve se comportar como um maestro ou um cozinheiro. Pode ser difícil avaliar o design e separar o bom do ruim, e gosto não se discute. Mas existem algumas regras que, se não são completas, pelo menos dão uma força. Funcionam como um livro de receitas: dão referências. Se forem seguidas à risca, darão resultados eficientes e comportados. Se forem seguidas com invenção podem dar maravilhas ou catástrofes. Quanto maior for a prática, menos catástrofes acontecerão.
O computador ajudou a criar música e design sem a prática, e o resultado não é dos mais animadores (espero não ver o dia em que só for considerado bom cozinheiro aquele que operar bem o computador). Em uma sociedade informatizada, todas as pessoas ganham a habilidade técnica para tirar fotos, escrever títulos, criar desenhos, fazer layouts e escrever texto. Livros como este são escritos para encorajar esse processo. O problema é que as pessoas estão trabalhando em áreas cada vez mais específicas, o que, se por um lado aumenta o foco e técnica, por outro faz com que percam a idéia geral do que estão fazendo. Daí fazerem partes que podem até ser legais, mas que não combinam no todo. Um mesmo molho não pode ser usado para linguado, codorna e coelho.
O design — especialmente o design digital — serve para criar um ambiente para a informação e torná-la consistente. Por isso, cada pequeno elemento tem que ter um porquê. Não adianta colocar um grafismo em cada canto da tela só para “estar lá”. Em uma situação ideal todos os textos, fotos, ilustrações e layout acontecem a partir de uma mesma idéia. O problema é que acontece exatamente o contrário: muitas vezes o design é uma usina de reciclagem de mídia, reaproveitando tudo o que já está pronto e fazendo concessões ao conceito para adaptar o layout.
Muitas empresas consideram a WWW uma versão online do saco sem fundo, e enfiam tudo o que podem nos seus sites, do balanço anual a dicas de cinema, na maior parte das vezes em informações incompletas que nunca verão uma atualização. Outras empresas — e muitos designers — fazem para cada tela um layout diferente. E ainda há os que preferem não se arriscar e fazem tudo sempre igual.
A internet é nova e muitas de suas regras ainda estão por serem descobertas, mas isso não significa que seja a casa da Mãe Joana, muito pelo contrário. Por ser livre, a web demanda fortes estruturas de relações entre seus documentos e um projeto gráfico bastante rígido, sem que isso faça dela uma coisa “careta”. No fundo, são os mesmos pontos que diferenciam uma revista de um amontoado de folhas coloridas de papel.