Uma das diferenças mais visíveis entre o trabalho de um designer experimentado e o de um iniciante com jeito pra coisa está no acabamento. Empolgados com a força de uma idéia nova, muitos deixam de lado a produção. O resultado que poderia ser genial, acaba ficando com aquela cara mambembe das produções estudantis ou caseiras: o argumento e o roteiro até que são bons, mas o produto…
É aquela velha história: “deixa passar que ninguém vai reparar”. Muita gente usa essa regra para imagens que estão um pouco fora de foco, colunas levemente assimétricas, imagens com a cor quase certa, famílias de letras parecidas, texto revisado por cima e assim por diante. A pressa, o prazo apertado, o estresse, o sono… tudo é desculpa para deixar passar pequenos deslizes, algumas gambiarras, defeitos que ninguém de bom senso repararia e, mesmo que reparasse, não levaria a sério.
E a realidade é que, na maioria das vezes, não se repara mesmo. Muitas vezes o erro é mínimo e não interfere na comunicação como um todo, mas deslizes desse tipo passam a impressão de um material mal acabado, estranho, malfeito, descuidado como aquela roupa que não combina e ninguém sabe dizer o porquê. É tremendamente pedante dizer que um leitor irá notar uma coluna de texto que esteja 0,2mm mais larga ou que algumas imagens estejam levemente desalinhadas, mas algo na diagramação o incomoda e o mal-estar persiste.
O designer deve ser pedante e detalhista quando o assunto em questão for o layout em que se está trabalhando. Perfeccionista, obstinado ou chato são outros adjetivos cabíveis. Deve se desesperar e se irritar por “bobagens” que ninguém repararia, pois, afinal, também é para isso que ele foi contratado. Um velho ditado em estúdios de agências de propaganda é que “a pressa passa e a porcaria fica”, ou seja, na hora em que o trabalho final estiver pronto, nenhuma desculpa será válida para um deslize, por menor que seja.
Essa preocupação é óbvia e fácil de se compreender em outras profissões — por melhor que seja o cirurgião plástico, ninguém admitirá que ele quebre um dente de um paciente durante a operação; por melhor que seja o político, todos repararão se ele fala “menas coisa” ou “cem real”; por melhor que seja o garçom, nenhum cliente o suportará se ele enfiar o dedo no prato de sopa. Aos que realmente acreditam que o talento é o principal, e que ele justifica quaisquer aberrações, lembro que boa parte da graça de uma piada vem da habilidade de seu contador.
O talento por si só não justifica tudo, muito pelo contrário. Se não for executado, desenhado, provado, não adianta nada. Muitos layouts são brilhantes na cabeça de quem os criou, mas têm como resultado um produto medíocre, graças a falhas na fotografia, no texto, na diagramação, no ator e assim por diante. Por melhor que seja a idéia, ela só valerá se houver muito trabalho para refiná-la. É aquela história dos 99% de transpiração.
E é assim que, quando olhamos os portfólios de candidatos a designers ou diretores de arte, reconhecemos em poucos instantes a diferença entre quem tem experiência e um iniciante, por mais talentosos que sejam (veja a página 20). É assim também que avaliamos a qualidade de um filme no cinema logo no início da história: se as imagens estão meio escuras, se o som não é nenhuma maravilha, a história terá que ser muito melhor para agradar.
O talento continua sendo fundamental, o principal ingrediente da receita. Mas mesmo a idéia mais talentosa pode parecer insossa se não for bem preparada e temperada. É claro que às vezes todo o material aparece pronto em um estalar de dedos. Diz-se que o Led Zeppelin não gosta da música Smoke on the water porque ela foi composta em meia hora, enquanto eles olhavam um incêndio no hotel em que estavam. E justo essa música se tornaria a mais famosa deles. Disse Led Zeppelin? Puxa, desculpe, quis dizer Deep Purple. Viu como uma besteirinha pode estragar tudo?