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1.4. Pensando visualmente

Para se fazer design é necessário ver. E, além disso, conseguir transmitir essa experiência visual para seus interlocutores. Só que ver não é uma tarefa simples, e, na maiorias dos casos, é muito subjetiva. O que é evidente para alguns pode passar despercebido para outros. Ou você nunca ouviu a expressão: “puxa, nem reparei…”?

Uma imagem, diz-se, vale por mil palavras. Acredito que valha um pouco mais, algo em torno de oito milhões, já que é necessário um espaço de 34 Megabytes — mais que todo o texto da Bíblia — para armazenar digitalmente os dados capturados em um negativo 35mm, digitalizado em alta resolução. Como as imagens mentais são muito mais detalhadas que uma simples fotografia, é fácil entender porque um sujeito barbudo faz com que a gente se lembre de outro barbudo, mesmo que os tenhamos conhecido em lugares e situações completamente diferentes.

Indo um pouco mais além: na realidade o mundo não é simplesmente tridimensional. É nossa organização dos sentidos que nos faz vê-lo assim. À medida em que você vai lendo este livro, outras dimensões estão interferindo na sua percepção. São emoções, cheiros, tato, pensamentos, memórias, interferências que simplesmente não levamos em conta e encaixamos em uma convenção, como se nada disso existisse e a leitura fosse simples e linear. Nossas assimilações do mundo, entretanto, são visuais. Até para uma coisa tão abstrata como dinheiro. Pense em 100 reais. Pensou? Pois é. Não é muito mais fácil imaginar a nota, ou as coisas que se compram com ela, do que um número (a não ser que você esteja pensando no extrato bancário)?

As imagens, como os sons, podem servir a vários fins, conforme o contexto. Mas se estiverem ligadas a palavras, sua interpretação estará comprometida. As palavras limitam nossa visualidade, nos dizem o que ver. Legendas em fotos são lidas para que se conte ao leitor o que está acontecendo, quando o que basta é olhar. Imagens sem palavras são como o cenário visto por um turista que não fala a língua de um país: a única forma de entender é olhando. Aprende-se assim a ver toda a cena e descobre-se detalhes que permaneceriam escondidos para sempre. O estrangeiro passa a ver coisas que os nativos não vêem, pois, sem palavras, ele tem que decidir por si só do que trata cada imagem.

Na pré-escola as crianças são estimuladas a usar ferramentas visuais como blocos, lápis de cera e pintura a dedo. Rapidamente os meios artísticos são trocados por instruções verbais e lineares dos textos. Muito ocasionalmente, uma ou outra disciplina pede um diagrama ou mapa e na universidade a arte já desapareceu do currículo. Somos o tempo todo orientados a fazer verbalizações, a explicar conceitos, a preparar argumentos. Com essa formação, não é difícil que muitos adultos apresentem severas falhas de compreensão visual ou de mídia em geral. Em uma era de comunicação visual crescente, esse problema é ainda mais grave. Pessoas que não leiam imagens — a não ser que saibam analisá-las, questioná-las e até resistir a elas — são quase analfabetas em uma linguagem que, mais que qualquer outra, tem tudo para ser verdadeiramente universal. Se você tem alguma dúvida, veja o disco que foi mandado com a sonda Viking para fora do sistema solar: ele leva imagens com saudações e sons de diversos pontos da Terra, pois assume que só na ficção científica os ETs falavam inglês.

Muitos de nós olham imagens para compreender melhor a informação. Um conceito complexo pode ser facilmente explicado em rabiscos feitos com uma caneta em um guardanapo de boteco ou em uma lousa, muitos artigos ficam mais claros quando há tabelas ou explicações. Isso acontece porque a palavra é um conceito mais complicado que a imagem e o texto escrito, mais difícil ainda, pois é a imagem de uma palavra. Para piorar, o texto pode apresentar referências, estilos e construções elaboradas — estética, repetição, exemplos, metáforas — que melhoram seu estilo, mas atrapalham sua compreensão, coisa que uma imagem não tem.

Em resumo: se a imagem pode ser até didática, o texto não deve se dar esse luxo. O designer deve perceber, analisar, compreender e propor. Todos os sentidos (tato, audição, paladar, olfato) são reforçados pela visão, pois são pouquíssimas as coisas que fazemos com os olhos fechados. Quando vemos, sintetizamos uma série de outros sentidos. Saber reconhecê-los, diferenciá-los e representá-los é a base de uma boa idéia de design.

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