Inovação, Textos

Rede de Intrigas

Depois da aula inaugural na Feevale, vários me pediram o nome do filme que usei para ilustrar que o desejo por democratização da mídia é antigo. Para facilitar a vida de todos, achei parte do trecho que apresentei no YouTube, e o coloco a seguir. O nome do filme é “Network”, apresentado aqui no Brasil como “Rede de Intrigas”. O filme é excelente, eu já o tinha recomendado em meu blog há uns dois anos.

Se o personagem Howard Beale, jornalista doidão, te lembra alguém, saiba que ele inspirou o advogado igualmente lesado do novo filme do George Clooney, “Michael Clayton – Conduta de risco”).


Reproduzo o discurso dele a seguir em tradução livre:

“Não preciso lhes dizer que a coisa está feia.
Todos sabem que está feia.

É uma nova ‘depressão’. Todo mundo desempregado ou com medo de perder o emprego. Um dólar compra um quarto de dólar. Os bancos estão quebrando. Balconistas guardam armas embaixo das registradoras. Punks vandalizando. Ninguém em lugar algum parece saber o que fazer e não há fim para isso. Sabemos que o ar não presta para respirar, nem a comida para nos alimentar. Nos sentamos assistindo às nossas TVs enquanto o apresentador nos diz que hoje tivemos 15 homicídios e 63 crimes violentos como se esse fosse o jeito que as coisas deveriam ser?!?

Nós sabemos que as coisas estão ruins. Pior que ruins, elas não fazem sentido! Em todos os lugares, nada mais parece fazer sentido. Então não saímos mais de casa. Nos sentamos em nossas casas. E lentamente o mundo em que vivemos vai ficando menor. Tudo o que dizemos é “Por favor, por favor, ao menos em nossas casas, nos deixem em paz. Deixem-me ter minha torradeira, minha TV e minha calota cromada. Não direi nada. Só me deixe em paz.”

Pois eu não vou deixá-los em paz.
Eu quero que vocês se enfureçam!

Eu não quero que vocês protestem ou façam um tumulto. Não escrevam para seu deputado. Porque eu não sei o que dizer pra vocês escreverem. Eu não sei o que fazer sobre a ‘depressão’, a inflação os russos e o crime nas ruas. Tudo que eu sei é que, acima de tudo, vocês têm de se rebelar! Vocês têm que dizer: “Sou um ser humano, diabos! Minha vida tem valor!”

Eu quero que vocês se levantem agora. Todos vocês, levantem de suas cadeiras. Levantem-se e vão para suas janelas, abram-nas, enfiem suas cabeças para fora e gritem…

“Eu estou furioso e não vou mais agüentar!”

Eu quero que se levantem agora mesmo. Levantem-se! Vão para suas janelas. Abram as janelas, coloquem suas cabeças para fora e gritem: “Estou bravo feito o diabo e não vou mais agüentar!”
(…)
Daí vocês descobrirão o que fazer com a ‘depressão’ e a crise do petróleo! Mas primeiro saiam de suas cadeiras, abram suas janelas, ponham suas cabeças pra fora e gritem: “Eu estou completamente furioso e não vou mais agüentar!”
(…)
Mas antes nós temos que nos irritar um pouco. Vocês têm de dizer “Estou furioso e não vou mais agëntar!”
(…)
Levantem-se!
(…)
Ponham suas cabeças para fora da janela e continuem a gritar!

É interessante perceber como a tecnologia não “inventa” nada. Ela apenas dá vazão para um anseio latente do ser humano. Blogs, Wikis e Google não revolucionaram a informação, apenas armaram as pessoas com as ferramentas necessárias para que pudessem se expressar. O futuro, como eu sempre digo, nada mais é que o presente, tirado dele todas as coisas que não fazem sentido. Ou nas sábias palavras de outra figura genial e meio maluca, Laurie Anderson, o Paraíso é exatamente igual a onde você está agora, só que muito, muito melhor“.

Por isso, mais importante que aprender uma nova tecnologia é compreender os motivos que nos levam a usá-la. Muitas universidades e meios de comunicação, na tentativa desesperada de acompanhar as novas tendências, abrem mão do que têm de rico e humano – opiniões e referências ricas que nos levam a pensar, coisa que nenhuma máquina poderá fazer por nós – e eliminam questionamentos para se encherem de técnicas. Podem não sabê-lo, mas estão na contramão da racionalidade e, desse jeito, correm o risco de ficar na lanterninha da história.

Poderia discorrer longamente sobre a Pirâmide de Maslow, mas prefiro deixar isso a cargo de meu amigo Caribé, que fez um post primoroso a respeito.

Para quem pediu que disponibilizasse minha palestra, vou fazer algo melhor: vou comentá-la e transformá-la em um post. Mas não vai ser já.

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