Estive recentemente para uma visita rápida ao Rio Grande do Sul e, como sempre, fiquei muito bem impressionado. O nível de civilidade que encontro cada vez que vou para lá é tamanho que me faz pensar por que ele não é reproduzido em outras regiões. Pois se as origens de cada parte deste país de dimensões continentais em que vivemos são diferentes, algumas formas de progresso - refletidas em administração, investimentos em educação e planejamento urbano, por exemplo - são universais. Como não vivemos em um sistema de castas ou em qualquer outra idiotia segregacionista, nada deveria impedir que buscássemos, todos, evoluir sempre.
Enfim, não sou sociólogo nem antropólogo, nem é objetivo deste blog discutir esses assuntos. O que me leva a escrever este post é outra característica importante que sempre observo por lá, essa sim importante para o design.
Por terem um alto nível de escolaridade e uma disposição combativa para o debate, muitos gaúchos têm um sentimento bastante forte com relação à sua terra e a seus frutos, tanto que é uma espécie de estereótipo nacional classificá-los como o equivalente brasileiro dos argentinos porteños. Não acredito que seja uma comparação infeliz. Até acho que, em sua origem, não seja ofensiva. BsAs tem um nível muito mais alto, na média, que o resto da Argentina, e não veja nada errado em se orgulhar disso. Mas o ser humano é, por natureza, preguiçoso e invejoso, e muitas vezes uma certa superioridade, quando acompanhada de orgulho, deixa de ser inspiradora e passa a atrair um certo despeito. O círculo vicioso está preparado.
Quando dá muito trabalho negar ou confrontar seriamente alguma relativa superioridade (toda superioridade é relativa, ninguém nunca é melhor em tudo) e principalmente quando essa argumentação pode levar a um debate longo e cansativo, a reação natural é desvalorizar, ridicularizar. Quantas vezes seus amigos riram de uma explicação séria que você desenvolvia? Ou satirizaram algo que você conhecia por ser “moderno” demais? Então.
É muito mais fácil caricaturar, imitar e rir do que se comparar, aprender ou mesmo confrontar, ainda mais se atitude não ajudar. Aqui em São Paulo, muitos habitantes das cidades em volta de Campinas não conseguiram ver com bons olhos o desenvolvimento da cidade nos anos 60 e 70, e a desprezaram com uma imagem pejorativa e falsa. Se não me engano, vários gaúchos fizeram o mesmo com Pelotas.
Despeito tende a provocar defensividade, até por causa da injustiça do ataque. Como em um apelido desagradável, o ofendido tende a achar que qualquer menção a seu nome é um golpe e, arisco, se torna excessivamente resistente. É curioso perceber que, mesmo com a grande quantidade de qualidades que tem a sua terra, muito gaúcho parece sempre armado para defendê-la. Como se fosse necessário.
O designer segue o mesmo caminho, pouco importa sua origem. Muitos excelentes profissionais que conheço são extremamente suscetíveis a esse embate entre as forças destrutivas do despeito e defensividade. Como não há praticamente nenhuma alfabetização visual em nossa cultura, o profissional de comunicação visual acaba por trabalhar em uma área que poucos conhecem, menos ainda entendem sua importância e muitos, muitos mesmo, a acham excessivamente valorizada. Provavelmente, acredito, por conhecer pouco sobre o pós-moderno. Tanto que ainda hoje, no século XXI, tem gente que acha uma bobagem contratar um arquiteto.

O design é muito importante, e não é por deixar as coisas mais “belas”, até porque, todos sabemos, a beleza é uma relação e, como tal, pode ser interpretada de diversas formas. Mais do que isso (e do que todas as suas funções técnicas, como a funcionalidade de um parafuso), é ele que atribui identidade a um objeto. Se fosse só essa sua função, ela já seria gloriosa.
Ciente se sua importância, o designer tende a se tornar orgulhoso, o que pode ser ótimo para reforçar sua auto-estima contanto que, no processo, ele se preocupe em transmitir o que sabe aos outros, ouvir e trocar. Acima de tudo, se tiver paciência para ouvir estereótipos e críticas com relação a seu senso estético, seu tipo de leitura, sua compreensão de arte e não se tornar defensivo, será melhor para todos. Dessa forma, ele aos poucos conseguirá mostrar suas qualidades e a importância de sua atuação e preocupações aos outros, de clientes a colegas, sem gerar resistência.
É o que eu sempre digo: o que não é conhecido não pode ser apreciado - e, nesse processo, ser melhor aceito, relaxar e contribuir para um bem comum, já que, de qualquer forma, todos vivemos juntos. Em termos de estados da federação é o que aconteceu com a cultura do Rio e da Bahia, “exportada” para o Brasil e o mundo nos anos 50 e 60.
Quanto a mim, já considerei seriamente sair deste inferno urbano em que vivo e me mudar para o Rio ou Porto Alegre, mas acabou não dando certo. De qualquer forma, adoro aprender e me impressiono muito bem com os progressos que vejo nos lugares para onde viajo. E acredito sinceramente que o meu estado, chamado por aí de “locomotiva econômica da nação” teria muito a aprender com seus vizinhos se descesse do salto alto e percebesse que dinheiro não é tudo.
Muitas vezes, aliás, não é nada.
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Só tome cuidado com caminhoneiros gaúchos nas estradas. Eles não tem muita paciência não.
Isso vale pro país todo, TaQ. Uma palavra em defesa dos caminhoneiros por todo o Brasil, no entanto: eles respeitam bicicletas. Acho que são a única categoria motorizada que o fazem. Ou então eu sempre dei muita sorte.
Só queria deixar registrado que sua palestra na Feevale, uma semana depois, me abriu os olhos pra muita coisa. E só acrescentou!
Forte abraço!
Heheheh, Moris, obrigado. Como eu bem disse lá: apresentar o pós-moderno é feito um filme do David Lynch, demora uns dias pra “bater” de jeito. Acho que vou transformar a aula em post.
Não sou muito de viajar, mas por ser de São Paulo acabo tendo contato com todos os gentílicos brasileiros possíveis.
Uma coisa que vejo no povo do Sul em geral, tanto o que conheci aqui quanto o que conheci quando andei por lá, é que eles pensam bastante no bem, comum. O jeitinho é desestimulado, a gambiarra também.
Um índice menor de CdG/P* = mais respeito = bem comum. E isso também se aplica à ponte que fizeste com o design, neste caso.
* Complexo de Gerson por Pessoa
Também quero dar os parabéns para você pela palestra na Feevale, estive lá e aproveitei demais tudo que foi dito.
Acho que a palestra serviu para ter mais noção ainda sobre o que realmente a Internet é e o que ainda pode ser.
Parabéns. =)
Haha…caminhoneiros gaúchos…
Bom post, é preciso realmente estar aberto para não olhar com cara de sarcasmo para tudo que vem de fontes das quais já temos opiniões formadas.
Digo isso como gaúcho hehe…
Faltou duas coisas Luli. Que em POA existe o melhor Xis Coração do mundo e que o “gauchismo” e o “umbiguismo” existentes do DNA de lá, faz com que o estado discuta muito e faça pouco, deixando a terrinha na mesma há muitos anos. Uma pena. Grande Abs.
Luli,
faço coro com o @efeefe no twitter. Defina ‘civilidade’? Não é, assim como, beleza uma idéia relacional?
POA é uma cidade interessante. Mas precisa deixar o umbiguismo de lado para crescer. A mesma raiz que protege, limita.
abs,
Pedro Markun
Luli,
Assim como o pessoal já falou, tua palestra na Feevale foi ótima. Muito do que foi falado lá ainda está sendo mastigado e absorvido, o que me gera um número enorme de perguntas. Quer dizer que funcionou.
Essa tua reflexão acima foi muito boa. Nunca tinha pensado por esse lado. Mas acho que temos um defeito de “se fazer muito de vítima”. Muitos acham que o país está sempre contra nós e que a solução para a situação que o estado vive hoje, é separar. Besteira das grandes.
Só não gostam de admitir que a atitude de vítima é grande responsável por essa estagnação.
Aliás, só um adendo:
Foi uma pena tanta gente ter que sair antes do final da palestra por causa da porcaria do horários dos ônibus :(
Fazendo uma pesquisa sobre criatividade achei seu blog.
Tomei um susto qdo lí sobre o encerramento pq era um
blog bom demais prá eu achar e perder num mesmo dia.
Ainda bem que fomos presenteados com o site. Valeu.
Obrigada por dividir suas idéias e socializar o seu conhecimento.
Muito poucos sabem fazer isso.
Parabéns e muito sucesso
Obrigado a todos. Divertidíssima essa manifestação. Devo só lembrar que este, afinal, é um blog sobre design. Não tenho elementos para dizer se vocês estão certos, Mayer e Bruno. Do meu ponto de vista, o designer que faça papel de vítima ou em fique em discussões herméticas tão intermináveis quanto infrutíferas, certamente ficará estagnado, o que é uma pena.
Quanto à civilidade, Markun, mesmo sem ser gaúcho ou jornalista, acredito que não seja uma questão relativa. Como na beleza, existem padrões mínimos de respeito e convivência - aqueles completamente ausentes no trânsito de são Paulo, por exemplo.
Luli,
lendo os comentários do pessoal, pude ver que tu destes uma palestra na Feevale - que gostaria muito de ter visto. Por isso, queria dar uma sugestão pro site: ter uma área com eventos ou posts relacionados avisando que tu estarás em determinado evento, pois assim será mais fácil descobrirmos e, conseqüentemente, comparecermos. : )
Sou de Floripa, e estou acostumado no verão principalmente, a conviver com pessoas de diversos estados, destacando os gaúchos e os paulistas. O comportamento de ambos em sua maioria (não é uma regra, mas uma tendência) é de extrema valorização do seu estado de origem em detrimento do estado visitado.
Como citado no texto, cade região possui suas qualidades e defeitos, porém os paulistas são muito mais “agressivos” em levar a sua “cultura” a outros lugares, por exemplo Floripa.
Desrespeito no trânsito, alto volume no som do carro em áreas públicas onde nem todo mundo compartilha do mesmo gosto musical, como nas praias.
Acho São Paulo maravilhosa, assim como POA, apenas imagino que devemos saber respeitar os costumes alheios, e pegar leve ao “levar o progresso que alcançamos” a novas terras, sem jamais desmerecer nossa origem ou tipo de trabalho realizado.
Hoje estou morando em Dubai trabalhando em uma agência web daqui, me orgulho e muito de dizer que sou brasileiro, a maioria abre um sorriso quando digo isso, e o mercado de web aqui está alguns anos ATRÁS do Brasil. Hora de trazer o meu “progresso” pra cá? Não necessariamente, quando me pedem ou perguntam a respeito sim, mas não imponho a minha cultura acreditando que sou superior.
Abraços, e desculpem se fugi do tema
Certíssimo, Diego. Não tenho nada a acrescentar. Jean, minha agenda de palestras é caótica e irregular. A maioria dos eventos de que participo é para empresas privadas, fechado ao público geral. Mas vou tentar avisar com verta antecedência por aqui.
Luli, antes de mais nada parabéns pelos artigos, pelo blog. Sobre o que vc disse a respeito de despeito infelizmente é uma realidade, as pessoas têm é que aprender a contornar a situação sem cair na defensiva!
Bem, eu queria na realidade comentar no “profissional”, mas não achei o campo para comentar por lá… Gostaria de saber se você por acaso orienta doutorado na ECA. Li também que vc fez parte do seu PhD em Londres e isso também me interessa. Seria ótimo poder trocar umas idéias.
Aproveito e o convido para dar uma passadinha em meu blog “Bricolagem High Tech”, onde trato de assuntos relacionados principalmente às novas tecnologias e comunicação social.
Abraço e sucesso