Quanto mais velho eu fico, mais me impressiono com a ansiedade de quem é mais novo. Tudo bem que vivemos sob uma cultura de eficiência forçada, em que ninguém mais estranha quando faixas coladas em postes fazem a propaganda de academias de ginástica (ou pior, cartomantes) prometendo resultados de seus serviços em uma semana ou menos. No que diz respeito à nossa tão desrespeitada profissão, a irrealidade de certas demandas, travestidas de expectativas de carreiras ou promessas de resultados, beira os limites do realismo fantástico, com toques de humor negro.
Se essas expectativas viessem só das empresas até que seria compreensível, embora fosse igualmente imperdoável. São tantos os argumentos que muitos os repetem sem ao menos se dar conta se fazem algum sentido. Culpa-se um mercado globalizado e competitivo, clientes cada vez menos fiéis, baixa remuneração, micreiros, prazos, templates, ignorância, concorrência, trapaças, aquecimento global, transgênicos, colesterol, triglicérides e etecéteras. Principalmente etecéteras.
O problema se torna mais grave quando as expectativas migram do reino das pessoas jurídicas para o das pessoas físicas. São profissionais que nem deixaram a faculdade e já pensam em montar suas empresas; estagiários com pose de diretores de criação; frilas a reclamar que seus primeiros trabalhos são mal-remunerados; autônomos preocupados em montar uma lista de vinte clientes ou mais; diretores de arte a se queixar que ninguém entende suas propostas; gente com pouco mais de duas décadas de vida a procurar um Doutorado; a profusão de faculdades e MBAs sobre qualquer coisa; a quantidade de portfólios feita com menos de cem horas de Photoshop nas costas; o mundo de designers que se inscreve em prêmios antes de completar cinqüenta peças no portfólio; a multidão de pessoas inteligentes e saudáveis a se perguntar se já não deveriam saber o que fazer da vida, pois já têm 23 anos…
Se você passa perto dessas questões, pense duas vezes. Esqueça seus colegas que se formaram em Economia e estão ganhando uma bolada no mercado de ações e pense que, por mais estranho que pareça hoje em dia, as coisas levam tempo e cada um tem seu ritmo. Não se espera nem se leva a sério um músico ou um piloto com alguns meses de treino. Um esportista de final de semana, mesmo que não seja barrigudo, certamente será um fiasco. Por mais que a autora do Harry Potter diga ter tido a idéia “em um estalo”, é bom destacar que ela escreve histórias desde os seis anos. E é mais velha que eu. Plantas demoram para crescer, bebês demoram para nascer e a gente só bate o carro depois que acha que já aprendeu. Por isso é bom você se acostumar que a Matrix não existe (por enquanto), nem a possibilidade de se carregar experiências ou habilidades em “tempo real” para a mente de um indivíduo.
Por mais que você tenha razão em achar o mundo de Monges, Executivos e Segredos tosco demais, não espere reconhecimento por isso. Pelo menos não imediato. Emburrecer, por enquanto, tampouco é uma opção. Ainda bem. No entanto, existe um fator que poucos têm levado em conta, mas que é fundamental: seu prazo foi esticado. Antes de pensar na sua idade, perceba que ninguém mais se aposenta aos quarenta anos. Mesmo quem pode, como alguns executivos do vale do Silício, não o faz. Ou volta correndo à ativa, para escapar do tédio.
A corrida é longa, quem sai desembestado pode perder o fôlego. Lá por 2035, duvido que alguém se aposente aos sessenta. Ainda vou estar vivo daqui a quarenta anos, e espero estar ativo. Pois se hoje, nesse primitivo e arcaico início do século XXI é bastante normal ver alguém com mais de 70 anos em atividade, como será daqui a meio século?
Quando eu tinha 17 anos, meu irmão mais novo me cutucava dizendo que o Pelé, nessa idade, já era campeão mundial. Cada um com seu ritmo, já disse. Se eu sabia disso naquela época? Claaaro que não, eu não fazia a menor idéia do que iria fazer da minha vida e isso me exasperava. Dez anos depois, eu tinha certeza absoluta do que queria fazer. Só que estava completamente errado. Só existe um jeito de se traçar uma rota certa de carreira e vida, e é quando se olha para trás. Mesmo que você faça uma ou outra besteira aqui e ali (eu ainda faço um monte), se o conjunto da obra for bom e se a intenção for sempre melhorar, os resultados acabam por aparecer. Mas eles, como você, também têm seu ritmo, e não há nada que se possa fazer para apressá-los, muito pelo contrário. O máximo que se pode fazer é reconhece-los e respeita-los, e isso já é uma grande habilidade.
Em um mundo de fluidez e fragmentação, a solidez é um valor. Como não se pode esperar que o mundo em volta ofereça estabilidade, é preciso que criá-la internamente. Isso se faz com duas palavrinhas que estão voltando à moda depois que muita gente quebrou a cara com excesso de velocidade: coerência e consistência. Elas também são as palavras que definem a qualidade do design, qualquer que seja seu suporte.
Pode até ser coincidência. Eu não acredito.
Setembro de 2007 – Revista Webdesign nº 45
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