
Diz uma velha piada que um ator aposentado por problemas de alcoolismo consegue, depois de um tempo de tratamento, uma ponta em uma peça. Ele representaria um padre que, chocado pelos excessos e luxúria da vida desregrada dos muito ricos, atravessaria o palco apelando aos céus e gritando “C’est Byzance!“. Tudo certo nos ensaios, chega o dia da estréia e o ator, naturalmente, está um bocado nervoso. Ele vê, no bastidor, uma garrafa de uísque e resolve tomar um golinho para descontrair. Mais um, mais um e… lá se foi meia garrafa. Chega a sua vez e ele faz a cena, meio inconsciente. No dia seguinte, é despedido. Ele não entende, nas suas memórias, tudo tinha dado certo. “Mas eu não atravessei o palco de batina, gritando a minha fala?” perguntou ele, atônito, a seu diretor. Este, quase rindo, responde: “Sim, mas não precisava sorrir nem esfregar as mãos”.
Por uma mistura de necessidade profissional e interesse pessoal, eu viajo muito. A meus amigos que me pedem dicas, costumo recomendar que visitem, quando possível, capitais de impérios. Paris, Londres, Roma, Atenas, Viena, Jerusalém, Beijing são fantásticas por atraírem riquezas de todas as partes do império. De todas elas, a mais importante é, sem dúvida, o material humano. O confronto entre as diversas culturas e sistemas de valores faz com que essas cidades apresentem valores pós-modernos desde muito antes de existir a Modernidade. Nessa categoria não se pode deixar de incluir, naturalmente, Nova York e o Rio, mesmo que o alcance de seus impérios não seja político, mas econômico e cultural.
Bizâncio merece a fama de riqueza e excessos. Hoje Istambul, a cidade é, sob esses parâmetros, um dos lugares mais interessantes do mundo. Até porque é multicultural em quatro dimensões: as três que conhecemos e o tempo. Ela carrega o legado de Constantinopla, foi capital de dois impérios (o Bizantino e o Otomano) e de vez em quando guarda surpresas dignas de Indiana Jones. Há alguns anos, por exemplo, os operários de uma obra para construir um sanitário público na praça de Sultanahmet encontraram as ruínas de alguns assentos de um antigo hipódromo romano. Dá uma certa dor de cotovelo.
A história de Istambul também é fascinante por seu exemplo de tolerância cultural. Ao finalmente derrubar o Império Romano do oriente, no século XV, os califas encontraram obras de arte e arquitetura tão belas que, mesmo não sendo permitidas por um dos pilares de sua religião (não se pode retratar e/ou cultuar figuras humanas, um dos motivos por que sua caligrafia é tão desenvolvida), não poderiam ser destruídas.
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A solução foi bastante engenhosa para a época: cobriram os mosaicos com massa e os revestiram com belas caligrafias, aplicadas de uma forma que pudessem ser removidas de vez em quando para manutenção. O resultado dessa política de convivência e respeito é uma maravilha para os olhos dos turistas (e um problema para o pessoal do patrimônio histórico, que tem que tomar a árdua decisão entre manter as belas Basmalas ou destruí-los para mostrar os mosaicos). Não é, certamente, uma escolha simples.

Pois é. Por mais que Hollywood tente convencê-lo do contrário, o Islã já foi a religião mais esclarecida do ocidente. Ao preservar os mosaicos, permitiu que uma forma de arte riquíssima e dependente de uma habilidade manual fora do comum chegasse até nós (sim, eu sei que em Veneza e Ravena também tem igrejas com mosaicos, mas taí um caso de quanto mais, melhor). Mesmo hoje, ao sair da Hagia Sofia, um espelho atrai a atenção do visitante para um mosaico sensacional que não seria visto por ficar para trás.
Recentemente parece ter havido uma “redescoberta” do estilo mosaico por vários artistas, como Vik Muniz, com seus Quadros de cores e de revistas. Mesmo entre aqueles que não vivem de exposições, livros, bolsas e venda de obras - ou seja, praticamente todos - é evidente que esse tipo de ilustração construída, em que as cores e formas se apresentam como elementos discretos e distintos e só vão se misturar na mente de quem os vê, é cada vez mais popular. Se você ainda acha o conceito muito hermético, talvez seja porque eu não tenha apresentado o nome por que ele é conhecido: pixel art.
Há quem diga que essa técnica de ilustração não seja um estilo, mas uma gambiarra derivada das limitações de cores e pesos de imagens na Internet. Não concordo. Sou velho a ponto de ter pilotado um Apple ][ e de ter usado um modem em que se encaixava o bocal de um telefone de disco. Nessa época, em que um gráfico de “alta resolução” podiam mostrar 6 cores, branco e preto em uma definição de 160×192 pixels, uma imagem pixelizada era um defeito, não um efeito. Em tempos de SVG e JPEG, não se pode reclamar de 16.777.216 cores em HDTV.

Da mesma forma que Roy Lichtenstein explorava a retícula evidente da impressão colorida em seu início e Andy Warhol explorava as irregularidades do processo de serigrafia em seus quadros, os artesões do pixel fazem maravilhas com quadradinhos coloridos e perspectiva ortogonal, técnicas inimagináveis para os profissionais da época.
É certo que eles não enfrentam as limitações de recursos de seus colegas bizantinos (imagino como deveria ser difícil encontrar uma maledeta pedrinha na cor “certa” para se conseguir um efeito desejado), mas tampouco têm no meio digital as riquezas de cor e textura que um Gustav Klimt tinha, ele que chegava a usar ouro em algumas de suas colagens. Mesmo assim, a inovação de muitas de suas formas e a riqueza de detalhes em suas composições me faz ter vontade de imitar o ator bêbado e gritar “Isto é Bizâncio!”
Desta vez, no bom sentido.
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Faltou dizer que este post foi inspirado, em parte, por um tweet do @wendeldesign.
Olá Luli,
taí uma relação que não tinha percebido: dos mosaicos com a pixel art,
interessante esse ponto de vista porque também me faz associar com a técnica do pontilhismo tão bem representada por Georges Seurat e sua magistral habilidade com poucas cores,
abraço e que bom ter contribuido um pouquinho para este belo post, :-)