
Recebi hoje pelo correio o livro do Maujor. Não me considero qualificado a ponto de resenhá-lo, mas ele me pareceu muito bom, por ter uma clareza e simplicidade atípicas. Acho admiráveis os indivíduos que, de posse de um conhecimento em profundidade, são capazes de exprimi-lo de uma forma que todos entendam. Para mim, esse é um pré-requisito fundamental aos grandes médicos, advogados ou professores.
Uma coisa que sempre me incomodou entre os autores de livros de temas técnicos (como programação) ou herméticos (como arte e design) é a arrogância intelectual de muitos de seus autores. Não entendo por que um livro de Sociologia, que deveria explicar as relações sociais, tenha que ser escrito com uma combinação improvável de palavras – algumas tão estranhas que até parecem ter saído de um gerador aleatório. Por que o texto do catálogo de uma exposição de arte contemporânea precisa ser incompreensível, quando o maior objetivo da arte é promover um diálogo com seu observador? Na mesma linha, por que fazem da Semiótica, da Gestalt e dos elementos de alfabetização visual algo tão ilegível? Duvido que doidões como Picasso ou Toulouse-Lautrec gostariam de ver seus trabalhos isolados do contato com as pessoas comuns, alvos de debates de egos entre indivíduos de camisa rosa e gravata borboleta.
Para mim, quanto mais complicado o indivíduo fala, menos ele aparenta saber. Ao se esconder por trás de uma pilha de jargão ele evita o debate e não se arrisca a explicar as coisas como são.
Confesso que não sou muito familiarizado com as entranhas de código CSS e (X)HTML. Como um típico diretor de criação que não precisa colocar a mão na massa, eu sempre me preocupei em entender o conceito que está por trás de cada nova tecnologia e pensar o que se pode fazer com ele. Até porque sempre haverá alguém que dominará a técnica melhor que eu. Por isso, conheço a idéia por trás de CSS desde o século passado (a prova é que falei dele, meio por cima, no livro DWD:2) e posso afirmar que o conceito de folhas de estilo, como o de microformatos, sempre fez muito sentido.
Para quem trabalha com design, essas idéias não são novas. Um projeto gráfico de qualidade tem regras bem definidas e é bastante modular. Sua elaboração pode ser complexa e demandar anos de experiência, mas a apresentação costuma ser simples, despojada, fácil de se entender. Como um acrobata do Cirque Du Soleil, sua tarefa é tão bem-feita que até parece fácil. Mas eu não recomendaria reproduzi-la em casa.
Em um bom projeto de design, seja qual for a mídia que o utilize, cada pequena parte deve ter elementos em comum com o todo, e ser facilmente identificável. Se em impressos essa regra é desejável, em comunicação digital ela é fundamental. O usuário deve sempre saber onde está, e para isso não basta um link de texto ou breadcrumb. A arquitetura de informação é importante, mas ela só responde por metade da história. O design propicia o contexto e ajuda a transmitir a mensagem profissional.
Mas ter regras bem definidas não significa ser “engessado”, escravo delas (o que torna o design monótono e desinteressante) nem quebrá-las à vontade, o tempo todo. Nada disso. Regras são referências, e só fazem sentido se tiverem um claro motivo. O bom design estabelece o menor número possível delas, suficiente para que a estrutura fique coerente e estável. As regras são simples, mas sólidas.
O mesmo se aplica à modularidade. Com a enorme quantidade de mashups disponível, há uma tendência entre os que se dedicam à construção de sites sem ter formação em comunicação visual de “entupir” suas páginas de funcionalidades. Esse tipo de design “árvore de natal” (ou “carro alegórico”, escolha o termo que achar mais adequado) costuma ter o efeito contrário do esperado. O excesso de conteúdo tende a atordoar o usuário comum, e passa mais a impressão de confusão de prioridades que a de capacidade técnica.
Pense naqueles tocadores de MP3 lotados de botões e menus e compare-os com um iPod. Veja como os aparelhos de som cheios de mostradores e chaves ficam ridículos frente a um Bang&Olufsen. Ou ainda compare um Porsche a um carro “tunado”, cheio de alavancas, ou um faixa-preta contra um marombado… pois é. O bom design pode até parecer simples e limitado, mas isso é porque é tão seguro de si que não precisa para ninguém que sabe. Já o outro…

Em outras palavras, simplicidade é elegância. Ela representa um saber sem ostentar, raridade em um ambiente que todos parecem se esforçar para fazer o contrário. Elegância é um conceito tão hermético que é difícil de definir ou reproduzir. E, ao mesmo tempo, tão agradável que nunca sai de moda.
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Estou com muita vontade de comprar esse livro, parece ser muito bom!
é um livro que vale a pena. simples.
Nossa, falou de artistas, sociologia, livros técnicos, carros tunados e ainda assim tudo faz sentido.
Fique contente por conseguir exprimir todo o teu conhecimento em posts claros, objetivos e interessantíssimos.
E melhor, que deixam o leitor com uma pulga atrás da orelha para ir buscar mais informação e voltar mais tarde em busca de um novo post.
Muito bom o post e o motivo por trás dele.
Show de bola!
Abraço Luli.
Esse Maujor é muito bom. Pra aprender é o melhor. As referências, tanto do livro como do site, são perfeitas. =)
Post muito bom, muito mesmo a ligação de tudo é perfeita e simples!
Mandou bem mias uma vez Luli.
Só uma coisinha não leve a mau.
Arruma o “mahups” pra mashups rs !!
Abraços!!
Luli, como dizia o Tostão, o gênio é aquele que transforma uma jogada complexa em um a jogada simples, não em uma firula.
Achei que tua definição de que o design propicia o contexto e ajuda a transmitir a mensagem profissional, ou seja é parceiro da técnica, uma explicação simples e perfeita.
Canso de ver problemas do tipo, atualmente eles parecem um padrão em leilões eletrônicos e intranetes corporativas. “Feias”, cansativas e difíceis de operar, são ferramentas importantes que tem pouco ou nenhum webdesign. E é duro convencer a turma que é preciso “humanizar” esses serviços.
Abs!
T§
Obrigado, Lourenço, pelos elogios. Às vezes tenho medo que esses meus desvios múltiplos de assunto (como os do post do Lost) estejam mais para uma total falta de foco que para uma improvisação jazzística.
Ooops, Fernando, corrigido. “Mahups? Que Mahups?“.
Obrigado, Tarsis. As Intranets corporativas são a Suécia quando comparadas às soluções de informática à Gurgel criadas pelo governo, como o sistema Lattes e o programa de IRPF. Esses ainda têm muuuuito a aprender em termos de design e usabilidade.
Luli, acho que você está aproveitando a liberdade que o formato blog te dá para fazer ligações inusitadas entre os assuntos. Está perfeitamente adequado. Aproveitando a oportunidade, quero agradecer pelo esforço em manter este blog, que está cada vez mais provocante.
Devolvendo a provocação, digo que simplicidade não é absoluta. O iPhone pode parecer extremamente simples pra mim que já tive alguma experiência tangencial com a cultura de telefones celulares, mas para minha avó, ele é incompreensível. Por outro lado, técnicas que minha vó tira de letra, como o crochê, pra mim estão fora do alcance.
Concordo com a parte do “Por que o texto do catálogo de uma exposição de arte contemporânea precisa ser incompreensível, quando o maior objetivo da arte é promover um diálogo com seu observador”, é engraçado como os curadores de exposições parecem quererem apenas as visitas de intelectuais e de quem conhece a arte… Parece que os intelectuais são aqueles que dizem coisas (que parecem) complicadas para o resto da população….
Amstel, obrigado pelos comentários. Acho que entendi o seu ponto de vista, mas seu exemplo mais confunde que ajuda.
Concordo que a simplicidade demanda uma base de conhecimento inicial, é verdade. Apesar de estarmos acostumados pela sobrecarga de mídia, a operação de um iPhone não é simples, e sua avó precisaria de uma curva de aprendizado.
Mas crochê, como skate ou malabarismo, não é nem nunca será simples. Nem é isso o que está em questão aqui. A idéia por trás da elegância e simplicidade é que, quando dois elementos estão no mesmo patamar, aquele que for mais simples levará vantagem. Design é identidade, e quanto mais clara for a identidade, melhor serão a comunicação e a persuasão.
Cara, se me permite, vou tentar te dar uma dica que é completamente baseada nesse seu texto. Não é nenhuma novidade, mas muito se fala e as vezes pouco se faz nesse sentido.
Aprendido tudo o que vc precisa saber sobre html e css, sempre siga uma única “diretriz”: escreva todo o html unicamente pensando em como a informação do seu site será apresentada. Ou seja, foque somente no conteúdo, não na apresentação visual.
Pelo que vejo por ai, há muita gente boa com html e css, mas que escrevem sites lotados de “divs”, que usam ao invés da tag correspondente à importância do título em questão, etc.
Quanto menos elementos vc tiver no site, e quanto mais vc souber empregar as propriedades de cada elemento corretamente, muito mais simples se torna um redesenho desse site futuramente.
E quando vc passa a pensar dessa maneira, vc deixa de colocar supérfluos no seu site.
Excelente, Vicente, não tenho o que acrescentar. E mais um motivo para eu arranjar tempo para largar deste template e fazer logo meu projeto. Mas cadê tempo?
Olá Luli,
A abertura deste post, ainda que não tenha sido uma resenha ou crítica ao meu livro, muito me honra, e aqui torno público meu agradecimento.
Ser citado por um dos mais brilhantes e respeitadoss profissionais da web é mais um incentivo a continuar no rumo traçado.
Luli,
Já conhecia seu trabalho através da DG, Publish e um jornal chamado Arte Afinal. Encontrei-o, por aqui, por causa do “ambersand”, que procurava havia anos e o Google resolveu num clique. Parabéns pelo site, pelos textos e desculpe se não pude ser simples e elegante. É que a nossa mania de complicar as coisas é maior que a busca pela simplicidade.
Obrigado, Paulo. Acredito que você se refira ao Ampersand, o famoso caractere que chamamos de “e comercial”. A propósito, com a reorganização do site, o post mudou para este lugar.