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El Comandante en Jefe se fué, mas os dinossauros permanecem. Não é difícil encontrar por aí alguém que, sob alguma desculpa espúria mal derivada das relações humanas, ainda teima a defender a vida sem computadores. Não penso como um deles, mas por ter mais de 40 anos e quase 15 de Internet, de vez em quando me perguntam sobre os “velhos tempos”. Em uma entrevista concedida ontem, me perguntaram como era o cotidiano de um diretor de arte antes dos Photoshops, Illustrators, e outros programas de design gráfico. Me impressionava o fato que alguém ainda quisesse saber disso e confesso que lembrar o processo em detalhes não me fez exatamente bem. De qualquer forma, acho interessante lembrar como a vida era desconfortável e improdutiva em tempos analógicos. Segue a resposta:
“Como você pode bem imaginar, não era nada fácil. A única vantagem daquela época era que o cliente também sabia que as coisas levavam mais tempo, por isso havia mais prazo. Não há como ser saudosista e valorizar os “velhos tempos”: a qualidade gráfica da época era, na maior parte das vezes, bem ruim. Se, por um lado, os estúdios tinham profissionais mais experientes (hoje é difícil encontrar qualquer publicitário ativo com mais de 40 anos que não seja dono de agência), por outro valorizava-se um aspecto mais artesanal que criativo. O resultado era bem mais pobre visualmente.
O diretor de arte rascunhava uma idéia enquanto o redator datilografava(!) o conteúdo. TÍtulos, imagens e textos eram apresentados separadamente ao diretor de criação. Aprovadas as peças, elas seguiam para o estúdio, que era cheio de pranchetas. Lá a imagem era ilustrada, o título desenhado à mão e o texto, decalcado. Enquanto isso uma secretária datilografava o texto em papel timbrado.
Tudo era montadinho em papel cartão e coberto com papel-manteiga, para não se desfazer com a chuva. O cliente precisava ter um certo desapego criativo para aprovar, já que o que via era muito diferente do resultado final: ilustração em vez de fotografia, texto falso (que às vezes não tinha o mesmo tamanho do texto real) e assim por diante.
Uma vez aprovado, o texto ia para a fotocomposição, um processo em que era re-digitado em uma máquina (a composer) que produzia uma tripa de texto na tipografia correta, em alta definição, em papel fotográfico, depois seguia para a revisão que, claaaaro, era feita por um humano. A fotografia, depois de aprovada, seguia para um processo de separação cromática, a quadricromia, que gerava quatro fotolitos. Um deles era projetado em papel fotográfico no tamanho final, em um processo chamado de Bromuro.
Todo esse material era levado para o profissional de paste-up, que, como o nome sugere, recortava o Bromuro e a fotocomposição (linha a linha, se fosse necessário fazer o texto contornar a imagem) e as colava em um papel para fazer a arte final. A cola usada para isso tinha Benzina e o estúdio tinha um cheiro forte que dava barato em muitos.
Com uma caneta nanquim, todos os splashes e linhas eram desenhados à mão. Desnecessário dizer que todo esse processo não tinha Undo e qualquer etapa errada ou que demandasse alterações precisava recomeçar. Pronta, a arte-final era então fotografada e formava o filme preto do fotolito. As outras cores seguiam a indicação do bromuro na arte-final e eram, também, fotografadas. Os quatro fotolitos eram retocados para eliminar quaisquer marcas de poeira, emendas e impurezas e seguiam para a prova de prelo, uma espécie de gráfica manual que queimava uma chapa especial e imprimia uma ou mais cópias, sempre poucas.
As provas seguiam para o cliente, que fazia a aprovação final antes de mandar para a gráfica, onde as chapas definitivas eram gravadas e o material, finalmente impresso. Em caso de anúncios de revistas, várias dessas etapas eram feitas na própria editora, para poupar tempo. Todo o processo levava de uma a duas semanas, e chegava a envolver mais de 20 profissionais.
A tipografia era um capítulo à parte. Ela poderia ser decalcada ou desenhada à mão, o que limitava bastante as opções. As agências precisavam ter em seus estúdios pilhas de caixas de filme transferível. Cada tipo, em cada estilo, de cada tamanho precisava de um filme diferente. Helvetica Bold, corpo 12 era diferente de Helvetica Bold corpo 11 e de Helvetica Regular corpo 12. Cada tipo específico era chamado de “fonte”. Helvetica era uma “família tipográfica”. Se a gráfica ainda não usasse modernidades como os fotolitos, precisaria de tipos de metal (uma liga de chumbo e antimônio) para cada fonte. No processo de fotocomposição, cada família tipográfica precisava de uma matriz especial. Desnecessário dizer que aberrações como “corpo 11,75″ não existiam nem em piadas.
Com isso tudo, propaganda e editoração eram processos muito caros, e não poderiam ser tocados por qualquer um. A pulverização das agências e editoras depois do surgimento da Editoração Eletrônica não é coincidência.”
Por mais que se cometam erros e excessos em seu nome, não há como negar que tecnologia é qualidade de vida. Não existe maior burrice que renegá-la, mesmo que seja em nome de ideais nobres como “empregos”. Nesse caso vale mais treinar a força de trabalho para as novas técnicas do que, em nome de uma proteção artificial, mantê-la na ignorância e em seu emprego mecânico. Isso, acredito, vale para toda e qualquer área.
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Ótimo texto Luli!
Sou uma publicitária de 24 anos e sempre me perguntei como era a vida de um diretor de arte antes de todas as facilidades que temos hoje. Agora eu sei, e com detalhes! =]
Parabéns pelo blog, visito sempre…
putz! até pra ler o processo é cansativo… meu deus! viva la revollucíon!
Uma questão que se discutia a algum tempo atrás, era em relação a tecnologia tirar empregos da pessoas.
Sempre discordei disso, pois acredito que com a tecnologia se abriram novos cargos que não sejam mecânicos. Por isso o profissional precisa se especializar a cada dia que se passa.
Eu tenho uns dez anos de agência e tô chegando nos 30 de vida. Não participei dessa época do paste-up, mas trabalhei e tive muitos mentores que trabalharam. Eu me lembro da agência sem internet de banda larga. Os e-mails eram carregados de manhã, depois do almoço e algumas vezes antes de ir embora. Assim, não era essa marcação cerrada do cliente, que parece que ele está do seu lado, mal vc manda um email e ele já responde. Além disso, os jobs eram decididos e aprovados em reuniões semanais, a internet era apenas algo para receber logotipos e fotos que vinham de muito longe.
Gostei do post.
abs
Luiz
Masoquismo… devia ser legal quando depois de tudo isso o cliente dissesse que não era bem isso que ele tinha em mente…
Com o nanquim, numa tarde inteira finalizando a arte no vegetal, concentrado a ponto de escorrer uma gota do lábio em cima do trabalho e o nanquim se desmanchar, como num efeito psicodélico. Ctrl+Z cadê você?
:)
Eu tenho 26 anos, e sou estudando de publicidade e propaganda. Adoro a profissão e eu acompanhei um pouco esta época, porque meu tio tinha uma gráfica e o meu primeiro emprego foi lá. aprendi muita coisa que com certeza me ajudou e me ajuda ainda hoje. É fascinante todo o processo de criação, montagem do fotolito na mesa iluminada (não lembro o nome)com lupa e nanquim, régua e medidas exatas….gravação de chapa na reveladora, que depois tinha que ir para uma sala escura e passar amoníaco, um produto químico que era forte pra caramba.. com uma esponja e água, para passar e o que tinha no fotolito para a chapa e depois passar a goma para grudar geral. a composição de cores, mistura ..fazer a tinta na hora.. as off set da vida … e a montagem artesanal da tipografia que acho que hoje em dia é raridade encontrar, onde os artistas como o Luli falou montavam letra por letra e tudo mais. Eu fico feliz de ter tido a oportunidade de ter acompanhado isso, pelo menos um pouco de perto.
Ótimo post
AHÁ! então vc já fez um “strip”, não é? Pois é.
Era ruim mas era legal. Marcação de letra, prancheta, layout era “mancha” lembra? Overlay…
E o “escovógravo” o aerógrafo de pobre, lembra?
AH, não… vc não era pobre, não deve lembrar disso…. o_O
Se me perguntasse como era o cotidiano antes dos Macs e PCS eu responderia:
“Era a mesma coisa só que usávamos letraset e canetinha!”o_O
Abs!
T§
Rá! Tarsis, quem nunca usou escovógrafo nem ficou tonto de benzina tem saudade esquizofrênica de um tempo não vivido. A todos que nunca experimentaram o estúdio manual e as experiências ricamente relatadas pelo Alessandro Novais fica a minha opinião. Essas coisas são como cartas no correio, sentimos uma enorme nostalgia das coisas que não precisamos usar.
Ah! E o ritmo de trabalho no estúdio sempre foi duro. Mas naquela época podia-se “evoluir” para virar diretor de arte e largar a caneta às 5 da tarde. Ou antes :D
… e para quem acha que “escovógrafo” é algum aparelho sofisticado: decepcione-se ao saber que ele na verdade é uma escova de dentes velha, entortada no isqueiro. Quando molhada no Ecoline e manejada com precisão, borrifava a tinta na arte para fazer um “add noise” e um “gaussian blur” analógico. Só pode estar brincando quem tem saudades de depender disso para viver.
Luli, senscional tua explicação. E pensando bem.. que medo!
Vc precisou explicar o “escovógrafo”.
Me lembrei de mim mesmo explicando minha para minha filha o que é um disco de vinyl…. daqui a pouco vou ter que explicar para minha filha (que deve nascer semana que vem) o que era um CD!!!!
De fato. O ritmo do trabalho era duro, mas não era qualquer um que sabia fazer esse trabalho.. e por isso mesmo o salário antigamente era ASSIM óh…!!!! É o que te falei, era ruim mas era bom.
Grande abraço.
T§
Hehehe. Engraçado, um dia destes estávamos conversando exatamente sobre isso, aqui em fortaleza saiu um outdoor, com uma imagem em baixa qualidade, com o nome em cima da imagem…BROMURO!
Acompanho seu blog a um bom tempo já desde o layout antigo! Tentarei comentar sempre! Abraço e boa sorte!
Bem…Luli, não tem como negar: o que você escreve sempre é bom.
Não é puxa-saquismo. É real. Assim como você dizendo ser improvável ter saudades do tempo em que se usava o escovógrafo. Isso tem mais cara de artesanato de grupo escolar…
Mas confesso: sou leiga pra opinar. Trabalho com arte sim, mas meu caminho segue os rumos históricos. Pretendo lecionar sobre as grandes navegações e afins…
O bacana disso está, que até na lisão “leiga” que tenho, faz sentido o que você disse: é burrice retroceder. Sempre.
Não são as novas tecnologias que roubam os empregos ou causam a exclusão social. Afinal, estas não passam de produtos criados pelo homen.
Se existe algum fator exclusor nessa história, certamente é a conduta humana. Que nossos blurs e layers permanecam em paz.
Muito obrigado, Nayara. Receber elogios sempre é bom, ainda mais quando o assunto é tão amargo quanto uma estrutura de layout sem computadores. Por melhor que seja a tecnologia, não se pode deixar de levar em conta que ela é apenas uma ferramenta. É o raciocínio de quem a solicita que constrói seu valor. Bomba atômica e penicilina não poderiam surgir sozinhas, nem serem aplicadas por conta própria.
final bem colocado!
não tem coisa pior pra mente humana que um trabalho repetitivo!
Sou dessa época e sinto saudades sim de como o trabalho era feito, não tinha como enganar. Ou éramos profissionais ou tínhamos que aprender e entender do que fazíamos.
É verdade em termos, Geraldo. Se por um lado era mais fácil desmascarar o picareta, por outro muita gente boa ficava presa a detalhes e processos. Acredito que, com a tecnologia, todos melhoramos. Mas agora, concordo, demora mais para separar o joio do trigo. Alguns não o conseguem jamais.
Pois é, a picaretagem fica mais escondida hoje, mas ela sempre existiu (lembro que havia uns “diretores de arte” que cortavam páginas de anuários p/ que não se descobrissem as chupações…)
Faltou um comentário sobre como era uma finalização usando as curvas francesas - isso sim era um suplício!
Concordo contigo sobre a qualidade que veio junto com a tecnologia, mas perdemos ótimos os trotes que se passavam nos estagiários - e isso é uma pena…
Ótimo texto - a gente chega quase a achar que as tendinites são normais. 1 abraço,
acompanhei a transição como estagiário na propeg ba, era legal usar letraset, fotocomposição ou procurar tipos diferentes na revista, recortar montar e desenhar por cima, em 1992 chegaram os primeiros micros no estúdio da agência e fiquei de cara ao ver a marca de um shopping (cliente) na tela, em cores, sendo editada pelo layoutman estava acostumado ao ambiente MS-DOS em tela de fósforo branco. lembro tb dos trotes com os estagiários (eu por exemplo) fiz até um texto e colei no mural de todos os dptos, dizia assim: esquadro de fazer redondo, compasso de fazer quadrado, tirar xerox de acetato, pegar retícula em pó… podem pedir à vontade, estamos aqui para fazer por vcs até o impossível.
Dá muita saudade, viixi. Mas deixa lá, é bom pra lembrar. E viva a internet, o photoshop, ilustrator, corel… e principalmente o “ctrl z”. Valeu mesmo cara!!