Cultura Digital, Inovação, Palestras e entrevistas

Oferta e procura em inovação

O CampusParty foi, sem dúvida, muito divertido. Reencontrei vários amigos, me desencontrei de outros, discutimos planos mirabolantes de dominação global, dei algumas dicas de administração para alguns, aprendi muita coisa com outros, vi coisas que não imaginava serem possíveis nesse hemisfério, dei algumas dicas de pós-graduação etc etc etc.

OSPC

Como o evento permitia uma digressão nerd – e como o pessoal da Intel passeava de Segway – levei para lá um patinete e, me aproveitando do fato que, como o Nicholas Negroponte, também sou acadêmico, fiz uma paródia do OLPC com meu OSPC – One Segway Per Child - o Segway de R$100.

Brincadeiras à parte, eu fui ao evento em busca de inspiração, idéias e inovação. Não pretendia mostrar nada, mas usar a velha parábola chinesa de que, já que tenho dois olhos, dois ouvidos e um nariz, deveria absorver cinco vezes mais do que emitia. Como posso dizer que tenho um trânsito razoável nos círculos de produção, agências e clientes, fui ver como a comunicação entre as partes se dava (ou poderia se dar) em um evento desses. Esperava encontrar idéias de novas formas de se relacionar com o digital.

A primeira percepção que eu tive é que não havia quase ninguém ali da categoria mais importante no processo de produção: clientes. Pois se me parecia óbvio que o ambiente descontraído do evento poderia ser um prato cheio para um gerente de uma empresa aprender um pouco mais e se informar sobre o que havia de novíssimo, me pareceu que essa impressão não foi compartilhada por eles. Me pareceu um enorme desperdício. A meu ver, um executivo de nível tático – aquele cara que efetivamente coloca as mãos na massa e move a engrenagem, já não que precisa se preocupar com os mega cenários, nem com o arroz-e-feijão das práticas operacionais – precisa aprender coisas novas praticamente todos os dias, mas suas principais (para não dizer únicas) fontes de informação são a imprensa e as eventuais visitas de fornecedores.

Não tenho nada contra a imprensa, mas bem sei que os pequenos raramente têm acesso a ela. Blogs, apesar de estarem bem mais próximos, precisam ser conhecidos pelos clientes e, para isso, acabam sendo quase tão grandes quanto os veículos de comunicação de massa, ou até mesmo ligados a eles – e, portanto, igualmente inacessíveis. Sobra para os inovadores o dilema entre desenvolver e divulgar, já que pouquíssimos têm recursos para ambos. Mesmo que consigam finalmente marcar uma reunião com um cliente importante, sobra a questão de credibilidade. Mesmo trabalhando com Internet desde 1994, eu ainda não costumo acreditar nos argumentos de alguém que venha me vender algo que não conheço bem, e acredito que você não deva ser diferente. O que dizer de um cliente que, além disso, está sobrecarregado de informação, pressionado por resultados e assustado com viagens à SecondLife e estouros de bolhas?

Novela SL
O que é pior, a novela ou sua representação? Valha-me meu são Baudrillard.

O resultado dessa descomunicação é um abismo entre o inovador e seu viabilizador, normalmente ocupado por três categorias:

  • As grandes empresas. Seus produtos costumam ser cautelosos, resistentes à inovação e tradicionais. Como se diz em TI, “ninguém nunca foi demitido por comprar Microsoft”, e o mesmo se aplica às grandes consultorias, agências de propaganda e soluções óbvias. É verdade que pouquíssimos inovaram com esses produtos, mas fazer o quê?
  • As “figurinhas fáceis” da mídia, articulistas, palestrantes, consultores e outras celebridades que, em sua maioria, falam muito mas entregam pouquíssimo, estão sempre discursando sobre o novo, mas raramente esse novo é tangível ou relevante.
  • Os modismos. Guerrilha sem porquê – e feita por quem acha que qualquer barulho é bom, empresas que acreditam serem capazes de desenvolver um “viralzinho” sem agregar valor, comunidades forjadas em redes sociais, blogs hipócritas, games mal-feitos… a lista não tem fim.

Seria interessante se, como em uma feira de ciências, um cliente pudesse sentar-se ao lado de um desenvolvedor e perguntar a ele “o que você desenvolveu aqui?”. Se a resposta for em português (não em Nerdolês), melhor. Mas isso é uma quimera. Eu tentei chegar perto de alguns caras dos games e do Software livre para ouvi-los, mas os poucos que me atenderam não conseguiram se fazer entender. E olha que, antes de entrar na área de Comunicação, eu me formei em Ciência da Computação.

Outro problema que percebi é que há uma sobrecarga de inovação (eu disse INOVAÇÃO, não INFORMAÇÃO). As pessoas estão sobrecarregadas do novo, o tempo todo. Aquilo que antigamente surgia como experiência inusitada hoje não é nada mais que o simplesmente obrigatório. Não importa se algo é bom; se não é novo, não presta. Com isso, é natural que as pessoas vivam de empilhar experiências, colecionar novidades e permanecer em constante pânico, em busca de uma curva de aprendizado que nunca termina. Pelo contrário, só tende a aumentar.

O fato é que, mesmo se não considerado o problema da comunicação, há cada vez menos novidade. Ao conversar com meu amigo e igualmente pioneiro da web Caio Barra Costa sobre como as coisas pareciam mais vívidas há dez anos, ouvi a resposta mais brilhante do ano: “Pare de ler RSS”. Ele tem razão. As notícias correm muito rapidamente hoje, mas sua assimilação não mudou. Como há pouco contato (e pouco financiamento), os pobres inovadores precisam desesperadamente pagar o Jack Daniel’s das crianças, e o resultado é uma grande replicação de fórmulas em busca do Santo Graal. As agências de propaganda conhecem bem a estratégia. A DPZ inventou o garoto da Bombril e depois reproduziu a fórmula com o baixinho da Kaiser, o peru da Sadia etc etc etc.

A democratização ao acesso à informação deveria proporcionar um resultado diferente: mais inovação, produtos mais consistentes e, principalmente, a redução do “digital divide” que existe entre quem produz e quem compra. Quem sabe daqui a alguns anos? Ou em outros fóruns?

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