Nunca se deu tanta importância para criatividade e inovação como hoje em dia. Provavelmente isso se deva ao fato que as empresas e instituições finalmente tenham percebido que a capacidade de renovação é essencial para a evolução, e, conseqüentemente, um excelente valor agregado para qualquer um. Se é certo que o uso de padrões neurais bem-estabelecidos gasta menos energia (e corre menos riscos) que a busca por novas idéias, a questão óbvia parece finalmente ter surgido: se você sempre pensar do jeito que sempre pensou, vai conseguir o que sempre conseguiu – as mesmas velhas idéias.
Mas tomar consciência da importância da criatividade, apesar de importante, não é suficiente. Da mesma forma que a regência de uma orquestra, de nada vale você simplesmente “querer ser” criativo. É preciso compreender um pouco melhor como essa experiência “mágica” funciona.
Um passo importante nessa direção foi dado pelos ganhadores do prêmio Nobel de medicina de 1981. Ele foi conquistado graças a uma pesquisa que mostrava as diferenças funcionais entre os hemisférios direito e esquerdo do cérebro. Em um resumo bastante simplificado, descobriu-se que a massa de neurônios não era uniforme. Algumas funções seriam realizadas pelo hemisfério direito e outras pelo esquerdo.
Segundo a pesquisa, o hemisfério direito seria o responsável pela percepção. A ele caberia um conjunto de funções extremamente complexas que até hoje mal conseguimos reproduzir em computadores. Entre elas a orientação espacial, o reconhecimento de imagens, a compreensão de melodias, de alterações em modulação e tons de voz e outros padrões complexos, como o reconhecimento de expressões de humor em faces.
Já o hemisfério direito esquerdo (oops) cuidaria de algumas das principais vantagens do Homo Sapiens sobre as outras espécies: a linguagem e o raciocínio simbólico. Graças a eles pode-se desenvolver a ciência, transmitir conhecimento e, no que diz respeito ao design, imaginar a cor, cheiro e ruído produzido por uma maçã sem precisar vê-la, por exemplo.

O ruído DESTA Apple, entenda-se.
Em outras palavras, enquanto o hemisfério esquerdo cuida da comunicação, o direito administra a expressão. Em um poema, música ou graphic novel, o hemisfério esquerdo analisa a seqüência de letras e as integras em palavras e frases, seguindo a lógica da linguagem escrita, enquanto o direito integra a informação com idéias anteriores e imaginação, permite o surgimento de imagens e reconhece o conteúdo metafórico.
Já que todas as pessoas, em diversos níveis, são capazes de se comunicar e transmitir suas emoções, não parece estranho que tão poucas sejam consideradas criativas? Por mais que se diga por aí que nascemos criativos mas somos gradualmente reprimidos, a quantidade ainda me parece muito pequena.
O panorama muda de figura à medida que se revê sua concepção de criatividade. Não há dúvidas que alguém como o Steve Jobs, por exemplo, seja criativo. Mas pense bem: o que ele inventou? Não foi o telefone celular, nem o MP3 Player, nem mesmo o laptop ou o micro. Até mesmo sua famosa interface gráfica foi inventada pelos pesquisadores da Xerox. A criatividade da Apple está na melhoria de produtos, não na sua invenção. É menos criativa? Eu acho que não. Sob esse aspecto, o McDonald’s e a Dell também são criativas.
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Outro tipo de inovação que surge de idéias criativas tem muito pouco a ver com a invenção de coisas novas. Pense no Donald Trump, por exemplo. Ou nos capitalistas de venture de Wall Street. Eles são agressivos e extremamente rápidos. Mas identificam oportunidades inexploradas e ganham uma fortuna com elas. Como negar que eles também sejam criativos?
Pois é, a inovação tem várias caras. Pense em Alcoólicos Anônimos, Vigilantes do Peso ou Doutores da Alegria? Esses indivíduos, desapegadamente, mudaram a forma com que se trata e administra problemas bastante sérios. Não há como negar que a inovação que eles promovem seja, na maioria das vezes, muito mais relevante e significativa para o progresso social que um novo sanduba, celular ou mesmo que mais um milionário à solta.
Vale a pena pensar um pouco sobre a criatividade. Ela é cada vez mais importante, e cada vez menos um mistério.
Luli, venho publicando em meu blog artigos sobre criatividade. Acabei de postar esse citando a fonte é claro. Se houver algum problema me contate que retiro. Postando em http://www.kriatividade.com
Fique à vontade, Ueuler. Bom que você gostou.
Ei, na sua descrição o cérebro tem dois lados direitos! *
Ooops, Lúcia. Falha nossa. Já corrigido. Espero que não tenha levado a alguma confusão. Já chega o Ramsés com dois pés esquerdos, hehehe.
É muito interessante como o conhecimento sobre o funcionamento do cérebro tem tamanha importância na forma como trabalhamos as internfaces e as campanhas publicitárias. Daniel Goleman escreveu os resultados de pesquisas sobre as vias cerebrais Primária e Secundária. Respectivamente uma é a via racional e a outra emocional. Conhecer o funcionamento disso nos ajuda a elaborar campanhas mais eficazes e interfaces mais amigáveis, ainda mais agora com a internet e suas formas de atrair a atenção do público pelo tempo necessário para que sua mensagem seja transmitida.
Se trabalhamos para interação com humanos, é interessante que conheçamos todas essas coisas sobre nossas mentes. Seus posts sempre são muito interessantes e ajudam a raciocinar.
Obrigado, Giva. Por mais que muitos pensem o contrário, criatividade é tarefa importante demais para ficar a cargo de um só hemisfério cerebral.
Posso postar no meu?
Olá Luli, bele?
Venho acompanhando seu blog há algum tempo, mas só agora estou fazendo um comentário. Não tenho uma razão para não ter feito antes. Mas ai vai…
Esse post me fez lembrar de quando eu ainda estava na faculdade de design de Bauru em 2002, discutindo com uns amigos e com uma professora de sociologia sobre o que é ser criativo. Na época eu não tinha quase nada de experiência, mas me lembro bem que ela dizia que não há nada de criativo em um designer que projeta um balde novo, porque o balde ja foi inventado e não será nada mais que um balde. Esse era só um exemplo, mas que valia para muitas outras coisas: carro, pente, secador de cabelo, etc. Isso ficou me martelando a cabeça por um bom tempo. Hoje, já com alguma experiência, é claro que vejo o comentário da professora com outra mentalidade e sei que a criatividade está sim em resolver problemas antigos com novas idéias e fazer um novo balde também pode ser criativo.
Abração
Pode postar à vontade, Pedro. Só não esqueça de citar a fonte. Muito obrigado pela deferência.
Obrigado, Claytão. É engraçado como muita gente boa faz essa confusão entre a inovação na forma e no conteúdo.
Na minha opinião (que, não custa lembrar, é só mais uma opinião), qualquer melhoria relevante é importante e merece elogios. Não se pode mudar os baldes o tempo todo, até porque algumas coisas, mesmo ruins, são tão usadas e as pessoas estão tão acostumadas com elas que não faz o menor sentido tentar “corrigi-las”.
O melhor exemplo é o da ordem das teclas no teclado do computador, resultado de uma inovação no uso de molas para máquinas de escrever, que não faz o menor sentido em um teclado de iPhone.