Diz-se por aí que a criação de metáforas visuais é um caminho certeiro para o desenvolvimento de boas idéias de design. Pode até ser que funcione, mas como em humor ou em cantadas, acredito que a aplicação de fórmulas pode levar a um resultado artificial, forçado, e com resultados ainda piores.
De qualquer forma, a idéia de se usar metáforas visuais é velha. Bem velha, aliás. Tem cerca de 3500 anos de idade, chega a ser anterior ao que conhecemos como escrita. A civilização egípcia a utilizava para representar seus Faraós e pessoas importantes, com um refinamento visual de fazer inveja aos melhores artistas contemporâneos.
Naquela época, a população era analfabeta – se é que o termo faz algum sentido antes da invenção do alfabeto – portanto extremamente dependente da informação visual que captava. O retrato de um Faraó, nobre ou rico senhor de terras tinha, portanto, que representar mais do que a mera reprodução fiel do indivíduo.
Um dos detalhes mais fáceis de reparar é o tamanho: quanto mais importante o indivíduo representado, maior a figura. Repare que não existem anões: as figuras representadas são perfeitamente proporcionais, pouco importa seu tamanho.

Outra coisa intrigante é que todos aqueles indivíduos representados são estranhamente semelhantes entre si – e diferentes das pessoas que conhecemos. Dois faraós de dinastias diferentes são, para o ponto de vista ocidental contemporâneo, muito mais parecidos do que dois nobres em uma pintura do Rembrandt… e, no entanto, tão diferentes de nós.

Mas o aspecto mais importante de que poucos se dão conta é que ninguém ali é retratado de perfil.
Compare o mané aí embaixo com o original:

Para os egípcios, a principal função das imagens não era a de copiar fielmente a cena observada, mas sim a de representar o seu significado da forma mais completa possível. Como naquela época as pessoas “liam” imagens (e como não se retratava qualquer um), era fundamental garantir à figura seu valor simbólico.
Se você olhar bem para os dois rostos acima, vai perceber que, apesar das cabeças estarem de perfil, os olhos estão de frente. Na figura do Faraó, isso também acontece. Todas as partes de seu corpo estão representadas de acordo com o ângulo mais característico. Assim, a cabeça está de perfil, os olhos e os ombros de frente, os braços e as pernas de perfil, as mãos de frente e, se não me engano, o Ramsés aí em cima tem dois pés esquerdos.
Taí a força de uma boa metáfora visual: os reis-deuses dessa civilização foram representados por designers geniais, que identificaram o que eles tinham de mais significativo, em um conjunto tão harmonioso que, mesmo mais de trinta séculos depois, indivíduos com uma bagagem de referências visuais inimaginável na época continuam a achá-los belos e proporcionais. Mesmo quando descobrem que eles são tão pouco possíveis que não é à toa que sejam parecidos. Eles simplesmente não são humanos.
Talvez esteja aí sua beleza.

Muito interessante essa forma de se retratar uma figura humana na arte egípicia. Quando me lembro do rosto de alguém, sempre está de frente, os ombros são prcebidos de frente também, os pés normalmente nos lembramos de perfil e quando lembro de uma bela moça que vi em algum lugar, a minha referência de sua dupla músculos glúteos é recordada de lado. Essa forma de arte parece não ser fruto de muito estudo e elocubrações sobre design, mas de apenas retratar da forma mais parecida possível a como se lembram das partes do corpo individualmente.
Hoje e que nós ficamos pasmos ao estudar essas coisas, mas para eles talvez fosse apenas a forma correta de se desenhar alguém.
Interessante seu comentário, Giva, só não concordo com a “forma correta de se desenhar alguém”. Primeiro por não acreditar em fórmulas corretas. Mas, principalmente, porque talvez não seja uma boa forma de se desenhar, mas de se representar graficamente. A primeira só mostra o que está lá. A segunda mostra o que aquilo significa para quem a registra.
Ah, ok, entendi e concordo. Essa coisa de “formas corretas” deve ser um vício de linguagem que acabei adquirindo por aqui, hehe. Sabe aquela coisa de ficar rotulando coisas e métodos? Tipo chamar a internet de verdade de “UÉBI DOIS PONTO ZERO”? Vc falou mito bem sobre isso no Intercon 2007.
To sempre acompanhando teu blog, inclusive coloquei um link pra ele no meu blog roll, hehe. O pessoal daqui de Salvador tá curtindo tb.
A forma “correta” seria a clássica, muito adotada na pintura renascentista, com proporções corretas e perspectiva invejável, além de anatomia “correta”…Pouco estilizada.
Ao meu ver a forma “correta” é aquela que você constrói, consciente do que está fazendo.