O futuro é fácil de imaginar: é só pegar o presente e remover tudo o que não faz sentido
No começo da década de 1890, um sindicato de jornalistas dos Estados Unidos perguntou a 74 eminentes cidadãos como seria a vida em 1993 e publicou o resultado na Chicago World’s Columbian Exposition de 1893. O mais impressionante em suas respostas não é – como seria previsível – a omissão da microeletrônica ou das armas nucleares, já que as tecnologias necessárias para isso ainda não haviam sido inventadas, muito pelo contrário: muitas figuras públicas do fim do século XIX previram tanto novas armas de destruição em massa quanto novas formas elétricas de comunicação global. A ausência marcante nessa pesquisa é o crescimento da motorização em massa e de todo o impacto social e urbano que isso causaria. Hábeis em prever vagamente aquilo que seria o “futuro”, eles não pareciam compreender a cadeia de eventos tecnológicos, comerciais, sociais e políticos que cercariam o motor de explosão, base dos automóveis e caminhões, a ser patenteado alguns anos mais tarde, em 1886, por Karl Benz.
Essa “miopia” com relação ao presente é sintomática e recorrente na história. É possível identificá-la, em graus diferentes, nos países que se recusaram a patrocinar as frotas de navegação oceânica na Idade Média, na falência do Pony Express por não acreditar que trens fariam um serviço postal mais eficiente, na relutância de países em abrirem seus mercados ao comércio internacional ou mesmo no crescimento irracional de empresas de internet que levariam à quebra da NASDAQ. Não é de se estranhar que Mikhail Gorbatchev, então presidente da União Soviética, tenha ficado desapontado ao descobrir que a maioria dos jovens soviéticos, com a liberdade de imprensa, estava mais interessada em punk rock, discos voadores, astrologia e haxixe que em assuntos políticos: visualizar o presente e todos os seus diferentes estímulos é muito mais difícil do que se imagina.
É por isso que nos surpreendemos com o sucesso de coisas que são aparentemente tão óbvias, como o home banking ou os telefones celulares: mais do que qualquer avanço tecnológico ou inovação eletrônica, eles simplesmente fazem sentido. Por isso, como o e-mail, são tão populares. Se você quiser imaginar o mundo em que seus descendentes viverão, sugiro uma técnica simples: imagine um cotidiano como o que vivemos hoje e tire dele tudo o que não faz sentido. É mais fácil do que parece.
Pra começar com um exemplo simples, imagine a popularidade da foto digital, do som em MP3, dos sistemas pay-per-view: uma das coisas mais importantes da digitalidade é que ela separa a informação do seu suporte. Explique isso para seu pai ou avô e ele nunca entenderá. Afinal, como separar uma carta do papel que a transporta? Uma imagem do filme? Música do disco? Como entender que um jornal tem a ver com notícias, não com um monte de papel imundo que chega diariamente na porta da sua casa? Como ter tv a qualquer hora ser ter que carregar uma fita ou um disco de plástico? Ou montar minha própria rádio? Ao separar a informação do seu suporte é possível vesti-la, senti-la, usá-la de verdade e não ser mais dependente dela. Digitalidade merecia entrar nos dicionários do futuro como sinônimo de libertação.
Em outras palavras: ouvimos música, não discos de plástico. Lemos livros, não papel mofado. Vemos filmes, não fitas magnéticas. E essa informação não risca, não apodrece, não mofa, não se desmagnetiza e nunca, nunca sai de catálogo. Até porque não tem cabimento atravessar a cidade pra correr atrás de uma caixinha de plástico e ser dono dela? Ou, pela internet, em um processo ainda mais estúpido: usar um sistema avançado de ecommerce e fazer toda a transação online para esperar semanas para que o correio traga um pacote com a música. Seria cômico se não fosse trágico.
Se você, como todos hoje em dia, trabalha com tecnologia, pense na forma que usa para comunicar o que faz, como define seus produtos. Posso apostar que seu consumidor está muito menos interessado na quantidade de megapixels de uma câmara do que se vai sair bem na foto.
Aqui acaba esse artigo. Esse é o problema da mídia impressa, coitada, em que os textos têm começo, meio e hora de acabar. Um dia você lerá um texto como esse no meio de outros textos em uma tecnologia que não sou capaz de sequer imaginar mas que, certamente, fará muito sentido.
Julho de 2003 – Revista Propaganda
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