Cultura Digital, Textos

A cara da mídia

Esqueça a NASDAQ. Esqueça o Dólar. A culpa é sua mesmo
Perguntinha metafísica em tempos macroeconômicos: o que é um “banco” pra você? Um lugar? Uma pessoa? Uma máquina? Uma solução? Um problema? O que melhor representa esse banco: suas agências? Seus caixas? Seu logotipo? Sua propaganda? Como você explicaria a um monge tibetano o que é um banco?

Na minha opinião um banco é, em sua essência, um agente financeiro: um administrador de dinheiro que, como todo gerente de recursos, se preocupa em maximizá-los. Como agente, não deve perder tempo: deve ser objetivo, claro e ir direto ao assunto – afinal, ninguém vai a um banco para ler notícias, perguntar se vai chover em Jericoacoara ou saber dicas de cinema. Claro? Afinal, dinheiro é tempo e ninguém tem nenhum dos dois a perder.

Essa definição da essência de um serviço é muito importante em um tempo (e uma mídia) digital, que torna muitos elementos materiais irrelevantes. Ainda no nosso exemplo, um banco é um serviço intangível, por isso suas agências e documentos de papel (comprovantes, extratos, contas pagas) são anacronismos que deverão ser reduzidos ao mínimo, se não extintos. Assim, é muito importante que desenvolva uma ação de branding que o identifique nesse cenário, já que logotipos, totens e casinhas coloridas já não são suficientes para transmitir a força da sua marca. Nesse ambiente, a forma com que comunica seus produtos e/ou serviços em sua comunicação digital é essencial.

A internet é realmente impressionante: em tão pouco tempo ela passou a fazer parte da nossa vida cotidiana em tal grau que até parece que existe desde sempre. Ela representa tanta novidade e um conforto tão grande que faz com que seus usuários sejam pouco exigentes com relação a seu formato. A tal ponto que, quando se especula sobre o futuro da rede, a maioria não é capaz de imaginar algo mais que uma conexão mais rápida e/ou um aparelho multimídia portátil.

Por isso não é de se estranhar que, ao procurar uma forma de familiarizar o usuário com o novo – que já não é tão novo assim – muitos tenham se preocupado em construir uma estrutura familiar e dar a ela a mesma cara de um jornal ou programa de TV. Só que a internet não é jornal, muito menos TV. E, ao tentar imitar as outras mídias, perde o que é mais precioso: sua maleabilidade e customização. Em um passeio pelos principais (ou mesmo pelos mais populares) sites que existem, não é difícil que se chegue à conclusão que, se existe um formato internet, ele é o de um portal ou uma animação com coisas que piscam e pulam. Triste fim para uma mídia que prometia tanto.

Como na indústria automobilística, o design digital é mais que simples direção de arte. Ele envolve funcionalidade, ergonomia, hábitos de uso e uma série de outros fatores que formatam um produto. Home Banking à parte, a internet hoje praticamente ainda não tem forma e, para que venha a ter, é preciso que se ouse mais. Ao se projetar um website (ou mesmo um reles banner) é preciso levar em conta que na rede todos os serviços são intangíveis e é em sua interface que residirá a diferença. Assim, não há motivo para que todos os sites tenham a mesma cara de jornal, se só uma pequena minoria é noticiosa. Por provável temor, desconhecimento e falta de exemplos não há, na internet, a riqueza visual nem mesmo de um videoclip ou um videogame. O que há, na grossa maioria, é uma cópia barata de um jornal, de uma vinheta de TV ou — pior — de uma Bloomberg.

Por desconhecer a real dimensão que a internet representa na forma com que nos comunicamos uns com os outros e com as fontes de informação – e nem ao menos se importar com isso – a maioria dos clientes, designers e usuários desiste de inovar e, depois de um certo número de layouts recusados, se acomoda e passa a chamar de formato aquilo que não passa de um amontoado pobre. É uma pena, pois dessa forma perde todo o diferencial que um produto ou serviço poderia ter.

Assim, se um site não dá certo, torna-se muito fácil colocar a culpa na Nasdaq, na bolha especulativa ou na subida do dólar, mas o problema provavelmente é outro, já que, a cada dia, mais pessoas passam a acessar a internet. O fato da mídia não “dar dinheiro” deve-se muito mais a um mau planejamento e a uma interface pobre – que leva as pessoas a considerar a rede lerda, feia e chata – que a qualquer fator externo. Se você não concorda, pense no mercado editorial: a cada dia, títulos nascem e quebram e ninguém pôe a culpa nas gráficas, fornecedores ou investidores.

Como crianças mimadas pelo excesso de liberdades, olhamos para as páginas em branco da web e não sabemos o que fazer. Como os que invocam as musas invocam as musas, invocamos nossos bookmarks e neles não encontramos inspiração, talvez porque a resposta simplesmente não esteja por lá. Daí, por pressa, preguiça ou simplesmente por falta de referências, criamos as coisas como todas as outras coisas são criadas, cópias das cópias das cópias dos primeiros sites, feitos por quem entendia de HTML, mas não sabia nada de design ou comunicação e o resto é todo o blablablá que você já está careca de saber.

Abril de 2003 – Revista Propaganda

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