O apego às tecnologias.
Ninguém discute que as tecnologias trouxeram mais soluções que problemas. Mas o apego a elas gera uma espécie de fetiche, tão abrangente a ponto de identificar as pessoas não mais pelo que pensam dizem ou fazem, mas pelo que consomem. O grau de adoração do indivíduo faz com que ele seja mais ou menos Geek.
Por mais que se tente atribuir algum valor ao termo, o fato real é que quanto maior sua distinção no grupo, maior sua dependência do objeto de idolatria para a construção de sua personalidade.

Outro dia, em uma banca, um professor comentou que a Subservient Chicken pode ser vista como uma caricatura do consumidor moderno, que obedece direitinho que o mercado mandar. A ele são oferecidas várias opções, menos a de não consumir.
Até porque, ao deixar de consumir ele deixaria de manifestar sua identidade nesse ambiente. E assim voltaríamos para a questão do primeiro post desta série.
(continua)
Ilustríssimo prof Luli!
Essa coisa de ser geek está realmente ficando na moda. É só reparar nos seriados que estão saindo por ai: Big Bang Theory, Heroes e por ai vai.
Já faz um tempo, mas escrevi uns posts sobre ser nerd no meu blog, e já fazendo um jabá, fica ai o link:
http://z3r00.blogspot.com/search/label/nerds
Abraço!
Luli,
um post interessante de um amigo, também físico, sobre geeks, nerds e dorks. :-)
Repito aqui um trecho interessante do livro ‘O mundo assombrado pelos demônios’, do Carl Sagan, que comentei no post do Rafael.
“Pedi a uma conhecida minha, especialista em crianças de onze anos, que me fizesse uma caracterização esquemática contemporânea dos nerds da ciência. Devo enfatizar que ela está apenas relatando, e não necessariamente endossando, os preconceitos convencionais.
Os nerds usam o cinto logo abaixo das costelas. As suas camisas de mangas curtas são equipadas com protetores de bolsos que exibem um conjunto formidável de canetas e lápis coloridos. Uma calculadora programável é carregada numa bolsinha especial preso ao cinto. Todos eles usam óculos de lentes grossas com armações quebradas em cima do nariz que foram consetadas com band-aids. São destituídos de talentos sociais, fato de que se esquecem ou de que não fazem caso. Quando riem, o que se ouve é um bufo. Conversam uns com os outros numa linguagem incompreensível. [...] Desprezam pessoa normais, que por sua vez riem deles. [...] Há mais nerds masculinos que femininos, mas é grande a quantidade de nerds de ambos os sexos. Ele não tem encontros amorosos. Se alguém é nerd, não pode ser legal. A recíproca também é verdadeira.
Isso é, sem dúvida, um estereótipo. Há cientistas que se vestem com elegância, que são muitíssimos atraentes, com quem muitas pessoas desejam ter encontros amorosos, que não carregam calculadoras escondidas para eventos sociais. Pessoas que nunca imaginaríamos que fossem cientistas, se as convidássemos para uma reunião em nossa casa.
Mas outros cientistas correspondem mais ou menos ao estereótipo. São bastante ineptos socialemente. Talvez haja, em proporção, muito mais nerds entre os cientistas do que entre os operadores de escavadoras, os estilistas de moda ou os policiais rodoviários. Talvez os cientistas sejam mais nerds do que os garçons de bar, os cirurgiões ou os cozinehiros de refeições rápidas. Por que seria assim? Talvez as pessoas que não tem talento para o convívio social encontrem refúgio em investigações impessoais, particularmente na matemática e nas ciências físicas. Talvez os estudo sério de temas difíceis requeira tanto trabalho e dedicação que sobra pouco tempo para aprender algo além das cortesias sociais simples. Talvez seja combinação desses dois motivos.
[...]
“Naturalmente, quando entrou para a escola, ele já era chamdo “Dafty” – sendo daft uma expressão britânica para quem não é bom da cabeça. Ele era um jovem excepcionalmente bonito, mas vestia-se com desleixo, procurando antes o conforto que a elegência, e seus regionalismos escoceses no modo de falar e na conduta eram objetos de zombaria, especialmente depois que entrou para a universidade. E ele tinha interesses peculiares.
Maxwell era um nerd.
Ele se dava melhor com os professores do que com seus colegas. Eis um dístico pungente que escreveu na época:
“Ó anos, passem e apressem a época tão esperada
Em que será considerado crime bater em meninos.”
Muitos anos mais tarde, em 1872 em sua aula inaugural como professor de física experimental da Universidade de Cambridge, ele aludiu ao estereótipo do nerd:
“Não faz tempo assim que todo aquele que se dedicasse ao estuda da geometria, ou de qualquer ciência que exigisse aplicação continuada, era considerado necessariamente um misantropo, alguém que devia ter abandonado todos interesses humanos, voltando-se para abstrações tão distantes do mundo da vida e ação que se tornara insensível tanto aos atrativos do prazer como os apelos pelo dever.“
Os comentários do Eduardo e do Tom só provam ainda mais o ponto. Caso você ainda ache que ser nerdola está fora de moda, recomendo ver o sensacional último dia de Bill Gates na Microsoft.
Para mim, a melhor frase é do Spielberg, desconsolado: “what money can’t buy?”