A questão das interfaces.
À medida que o ambiente digital que nos cerca se transforma em um sistema de informação manipulável, algumas condições precisam ser revistas. A maior delas, acredito, é a relação de equivalência de suas ações com o mundo dito “real”. É necessário aceitar algumas ações claramente artificiais como se elas fizessem parte da realidade, sem tentar compará-las com nada que tenha existido anteriormente.
O duplo-clique e o ctrl-Z são bons exemplos de ações sem equivalente mecânico, mas não são os únicos. A transformação, como todas as outras, vem acontecendo há algum tempo e não é nada sutil. Já faz um tempo que os efeitos da energia elétrica se desvincularam completamente de qualquer coisa conhecida na natureza. O mesmo pode ser dito de relógios, automóveis e documentos burocráticos. Atividades corriqueiras, como ouvir música, se alimentar e praticar esportes se tornam a cada dia mais estéreis e frias, e são ativadas ou desativadas quando forem convenientes.
Não demora muito para o sexo e os relacionamentos afetivos seguirem o mesmo caminho, se é que já não se foram. Nesse ambiente de crescente artificialidade até a morte e o lixo foram removidos do cotidiano. Os falecidos, como os objetos descartados, simplesmente desaparecem da vista, como se fossem desmaterializados. Ou melhor, deletados. E o que os olhos não vêem o coração nem pensa em sentir.
(a mãe morta, Edvard Munch.
Às vezes parece que ele e Egon Schiele viram um mundo com um século de antecedência)
Ninguém de bom senso tem tempo ou paciência para se interessar pelo caminho que percorre um produto industrial até chegar às mãos. Muito menos no que acontece com o lixo que o trouxe e será descartado, como verdadeiro subproduto defeituoso de design. Reciclado? A Economist tem dados de arrepiar os cabelos.
Ao perder o compromisso com o mundo físico e suas limitações, é natural que a digitalização promova uma crescente artificialização. Das pessoas, dos objetos, dos ambientes, das relações. Mas artificial não quer dizer ideal, e em muitos casos o efeito é exatamente o contrário. Não é à toa que cada vez mais haja gente deprimida, anestesiada e inerte, sem saber o que fazer ou sentir. Não há mais nada para ser “feito”, ninguém mais manipula coisas. Tudo que há para se operar são conceitos simbólicos. Como ícones e janelas, os mais visíveis, mas também como palavras e frases. A linguagem foi o primeiro passo do homem para fora de seu contato com o real.
Linguagem é um vírus, dizia William Burroughs.
Pense em uma maçã. Em seu cheiro, seu gosto, seu barulho ao ser mordida ou ao ser apanhada quando jogada para o ar. Símbolos são virtuais e lindos, um admirável mundo novo.
A interface é grande e abrangente, muito mais ampla que aquela besteirinha que nos consome em uma imitação pobre de uma mesa de trabalho. As novas interações gráficas, como algumas do novo sistema operacional da Apple, já se desapegaram da bidimensionalidade física. Faz sentido: como administrar em pastas um conteúdo de 120GB ou mais?
O cenário fica mais abrangente ao se extrapolar o sistema WIMP (windows, icons, menus, pointing devices) das GUI e mergulhar em outras formas de interface, algumas tão comuns que não se dá atenção a elas.
- Interfaces de linha de comando - Command line interfaces, ou CLIs, em que o usuário digita comandos para operar um sistema. Usadas em muitas linguagens de programação e em sistemas como DOS. Mas também usadas em comandos de teclado (como ctrl-C, por exemplo) de programas gráficos. São de aprendizado mais lento mas de operação rápida e precisa. Já houve quem acreditou que elas morreriam. Já acreditaram que o papel morreria também. E no entanto continuamos a buscar atalhos em teclados QWERTY de Blackberries.
- Interfaces tácteis ou hápticas - Tactile / haptic interfaces, a resposta é feita através de movimentos. Vibracall de celular é básico. Mesmo antes dele, alguns controles de videogames com force feedback já simulavam resistência à aceleração. Veio o Wii e provou que isso está longe de ser coisa de nerd. Agora ele invade as academias de ginástica e promove até Ioga, que já foi um dia uma forma de buscar o transcendente.
- Interfaces sensíveis ao toque - Touch interfaces recebem estímulos tácteis, mas sua resposta pode usar outro canal. Os melhores exemplos estão nas telas de caixas eletrônicos. E, claaaaro, no iPhone e iTouch.
- Interfaces de atenção - Attentive user interfaces interrompem o usuário e chamam sua atenção, normalmente como advertência ou mensagem que demanda atenção imediata. Sons e janelas de alertas são os melhores exemplos. O sonzinho que o Windows faz ao me dizer que sou um criminoso, pois fiz uma operação ilegal e serei fechado é um clássico. O que me mata é o OK. “você vai perder a tarde de trabalho, OK?” é de uma triste ironia como “vou quebrar a sua cara, OK?”
- Interfaces de processos - Batch interfaces costumam não ser interativas. Elas avisam quando um processo longo acaba. São os programas que se desconectam ao terminar uma tarefa longa ou que emitem um aviso sonoro quando um processo acaba, como a gravação de CDs ou codificação de vídeos. Protetores de tela e estado de standby em câmaras mostram que o escravinho está à disposição, mas cansado e sem vontade de brincar. Mas é só chamá-lo de volta que ele reaparece, abanando o rabinho.
- Interfaces conversacionais ou agentes - Conversational Interface Agents tentam tornar as máquinas mais “humanas” ao dialogar com o usuário. Ainda são poucos e simplórios, feito o hediondo Clipe do Microsoft Word.
- Interfaces gestuais - Gesture interfaces respondem a movimentos do usuário. O cursor faz movimentos maiores conforme a velocidade do movimento do mouse, por exemplo.
- Interfaces de comando de voz - Voice user interfaces geram respostas sonoras a partir de interações do usuário, que podem ser sonoras ou não. O sistema de atendimento telefônico automático é um exemplo. Não reclame, ele já foi pior. E pode melhorar em próximas versões, ao contrário do que “vão estar fazendo” alguns programas de treinamento de telemarketing.
- Interfaces ambientais - Zero-Input interfaces se adaptam ao ambiente, sem interferência. Teclados que se acendem ao diminuir a luz ambiente e controle automático de balanço de cor em câmaras digitais são mais populares e eficientes que as velhas células fotoelétricas.
A relação que estabelecemos com um sistema digital e manipulável transcendeu a desktop e começa a cercar seus usuários, em todos os sentidos. Compreendê-los, manipulá-los e saber resistir a eles é o grande desafio do design que vem por aí.
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Fora do tópico :-P
“Interfaces de linha de comando - Command line interfaces, ou CLIs, em que o usuário digita comandos para operar um sistema. Usadas em muitas linguagens de programação e em sistemas como DOS. Mas também usadas em comandos de teclado (como ctrl-C, por exemplo) de programas gráficos.”
Poxa, Luli, você nem mencionou o Linux? :-P
Li no seu Twitter, algum dia desses, que escreveu sobre Software Livre ser uma boa inovação. Tentei pedir através do meu Twitter os artigos para você, logo que vi a mensagem, pois achava que o Twitter era uma espécie de scrapbook on the fly. Acabei descobrindo só esses dias que essa feature foi incorporada apenas recentemente no Twitter, mas é preciso ativá-la. Se der, envie, por favor, o artigo ou link para ele no meu email. :-) Um artigo legal sobre software livre que escreveram no Stoa. (desculpe falar sobre software livre aqui rs)
Em relação ao assunto do seu post, você viu que o Henry Story, da Sun, deu uma palestra na USP? Foi bem na hora do TCC da Tarsila!
Bem interessante o que ele diz sobre dedicar nosso tempo escrevendo um blog, como escreveu o professor Ewout:
“Perguntei (o professor Ewout perguntou) a Henry se o investimento em tempo e energia de escrever um blog valia a pena. Respondeu que sim, que é uma maneira de não se repetir. Comparou escrever blogs com o seu envolvimento com uma comunidade de código aberto que levou diretamente ao seu atual emprego no Sun. Deixe isso servir de lição, meninos e meninas: o seu blog aqui pode servir como vitrine dos seus talentos e te conseguir um emprego bom!”
Temos que estimular mais as pessoas na USP a escreverem blog. ;-) Me parece que uma maioria lá ainda pensa que blog é diário de adolescente. Aposto que menos de 10% dos docentes da USP sabem o que é um blog. Não estou exagerando.
CLI é o maior, maior barato
http://estudiolivre.org/Linha%20de%20Comando
Luli,
Impressionante, vim aqui justamente defender as CLIs e o que eu encontro? Os únicos dois comentários falando exatamente isso :-) Que belo!
Mas é fato, uso Linux e sou adepto do uso *único e exclusivo* da linha de comando. Não abro mão. A navegação é simples e precisa, mas de fato: A curva de aprendizagem dos comandos é um pouco custosa.
Ainda falando em interfaces, talvez por que eu esteja abituado a usar apenas linhas de comando no meu dia-a-dia, prefiro muito mais texto plano. As poucas formatações que faço são em ASCII-Art mesmo e cabô, elas possuem todo o significado pra mim - inclusive os emoticons :-) Não vou abandonar o CLI tão cedo.
E uma crítica rápida às telas tocáveis:
1- Eu simplesmente não sei mais escrver, apenas digitar (minha caligrafia se tornou horrível com o passar do tempo da minha vida de computeiro)
2- A tela (iPod / iPhone) fica melequenta facilmente.
3- Eu PRECISO do feedback quando aperto um botão, preciso saber se funcionou. Em uma tela eu nunca vou sentir o “click” nos meus dedos depois de apertar uma tecla.
E chega,
Abraço!
Vamos deixar claro: eu adoro CLIs. Também adoro atum e mídia impressa. Mas é preciso uma dieta variada. CLIs são excelentes para um acesso rápido, mas têm uma curva de aprendizado mais íngreme e são feitas para usuários mais avançados.
Não acredito que elas morram. Mas, como em todas as tecnologias e mídias, elas precisam conviver com o que surge de novo. O ônibus da tecnologia continua a seguir, em cada ponto entra um novo passageiro e os outros precisam se acomodar.
Endosso o comentário do Henry Story,Everton. E estimulo meus alunos a escreverem blogs sempre que possível.
O comentário do Eduardo mostra bem a confusão que as pessoas têm com relação às interfaces. Eu DETESTO o teclado do iPhone, prefiro o Blackberry em 200%. Mas isso é interface táctil, não CLI nem sensível ao toque. Já o reconhecimento de caligrafia do Palm é um tipo de interface gestual. Pode-se usar algumas interfaces diferentes para editar uma linha de comando em uma CLI.
Eu tenho um iPod Touch. Ele fica melequento, mas o vidro não risca e pode ser limpo na camiseta. E aquele zoom é excelente.
Enfim: cada interface é um complemento para a grande relação de interação que temos com essas maquininhas e com a Internet que as permeia.