Informação vs. Interação.
(Esse texto é a primeira parte de um especial de fim de ano,
que vai ter umas três ou quinze partes, ainda não sei.)
Goste Goste você ou não do termo web 2.0, é bom se acostumar com o conjunto de mudanças que ela representa. Toda essa alteração de enfoque que transformou completamente a forma com que consultamos e nos relacionamos com a Internet é, na verdade, apenas um pequeno sintoma da metamorfose gigantesca que está por vir. Colaboração, personalização, manipulação e compartilhamento são pré-requisitos de um novo tipo de relação que, sem perceber, passamos a ter com o ambiente digital. Se hoje ainda é possível ignorar a participação do usuário, em breve ela será a regra. A transformação é estrutural, e bem maior do que se imagina. A Internet evolui furiosamente, a ponto de ficar cada vez mais difícil defini-la. Se antigamente era fácil classificá-la como uma grande estrutura de informação navegável, hoje essa definição parece ingênua. Com ela, as visões pessimistas de dominação global parecem simplórias.
Informação é importante, mas só parte da brincadeira. A partir do instante que se faz o upload de boa parte das operações cotidianas para um sistema digital, a rede passa a ter um papel muito mais importante. Ela também responde por parte da funcionalidade e por que não dizer, da própria identidade do indivíduo. Como você explicaria para uma criança de 4 anos de idade o que é a Internet? Uma rede mundial de computadores? Então o que ela está fazendo no seu celular? Na sua TV? No seu carro? Por que ela altera tanto o seu humor?
Antigamente, lá pelo final do século XX, falava-se muito nas melhorias trazidas pelo acesso à informação, a grande força transformadora. Uma vez conseguido o conteúdo, comunicá-lo passou a ser a grande força motriz. Hoje a facilidade de manipulação é o fator mais importante. Com ele, a distinção entre o que é real e o que é virtual começa a se borrar. Personas, conteúdos, opiniões, gostos, relacionamentos… tudo o que diferencia o indivíduo é facilmente alterado, selecionado, segmentado e, em casos mais extremos, hackeado. A mudança não é sutil nem lenta. Muito pelo contrário.
Quando a Web começou a se tornar popular, o que mais se falava dela era uma tal de “interatividade” que, sob o ponto de vista atual, era limitada e simplória, pois significava apenas a capacidade de exercer o livre-arbítrio, escolhendo uma opção entre um conjunto de ofertas. Nada muito diferente de uma banca de jornais, canais de TV ou títulos em uma videolocadora.
Hoje é diferente. À medida que o indivíduo pode INTERFERIR no conteúdo e REDISTRIBUÍ-LO, a informação muda de papel, se torna matéria-prima e demanda manipulação. Como ingredientes em uma cozinha. Ou ferramentas de software.
Mas isso não quer dizer que a Web deixa de ser parecida com um jornal e passa a se assemelhar a um editor de textos ou de imagens. Não é tão simples ou previsível assim. O novo software coletivo e manipulável é muito diferente de tudo que se conhece por suítes de aplicativos ou até mesmo sistemas operacionais, sejam eles de código aberto ou não.
A nova ferramenta é remota, interativa, evolutiva, orgânica e multiusuário. Ainda se sustenta em informação, mas as fontes são muitas e a relação que se estabelece com elas, completamente diferente. Sem que se percebesse a mudança, os profissionais de web passaram a falar cada vez menos em navegação e mais em experiência, em inteligência social, em crowdsourcing.
Gosto de pensar no termo UCC – User-Centered Content, ou conteúdo centrado no usuário. Não importa mais quem o constrói, mas como ele é consumido. Essa nova relação determina tags, tendências do Google, ações virais, blogs e muita, muita personalização. São os blocos de Lego que, aos poucos, determinam a nova interface e identidade.
O filósofo Bauman fala que vivemos em uma sociedade composta de indivíduos, ou pessoas que fazem questão em se mostrarem únicos. Sob esse aspecto, são todos iguais em sua vã tentativa de ser diferentes. Não é fácil. Para ser verdadeiramente único nesse ambiente seria necessário abrir mão das diferenças e, portanto, da individualidade. Seria preciso deixar de ser indivíduo. Ainda é uma decisão muito dura para ser tomada.
Os novos produtos digitais não deixam de ser sistemas de informação, mas agregam a eles as funcionalidades de ferramentas de software. Essas são baseadas em tarefas e trazem outras demandas. Saber integrá-las é a função do design.
Antes que o ano acabe prometo postar mais algumas considerações sobre essa mudança e suas implicações para quem trabalha com design e construção de interfaces. É minha contribuição para as reflexões de fim de ano. De qualquer forma, muito já foi dito na apresentação que publiquei no post anterior.
Luli, muito bom saber que você está pensando no que eu estou pensando. De fato é uma transformação maior do que parece, que afeta todos os setores produtivos e consumptivos. Na verdade, vejo precisamente como uma fusão entre processos de produção e de uso.
O Design como uma área do conhecimento até então, separava processos de produção e de uso, restringindo sua atuação à produção. Entretanto, com essa fusão, o Design está sendo alargado e apropriado pelos usuários. Os próprios usuários projetam seus produtos através de crowdsourcing, programam seus aplicativos usando APIs, pintam suas páginas de perfis de múltiplas cores e etc. Na verdade, chamá-los de usuários é subestimá-los; eles são co-criadores.
http://webinsider.uol.com.br/index.php/2007/02/05/de-usuario-a-co-criador/
Designers que sacaram isso não estão mais tão preocuapados com Gestalt, Semiótica ou Usabilidade e sim com Do It Yourself, Design Participativo, Antropologia/Sociologia. O desafio é encaixar esse movimento de participação popular nas rotinas das empresas, o que é muito difícil. Um exemplo interessante é o trabalho documentado pelo Eric von Hippel nesses vídeos:
http://web.mit.edu/evhippel/www/tutorials.htm
Olá, obrigado pela citação e principalmente, pelo conteúdo do post. A tendência da difícil diferenciação entre o “real” e o “virtual” é um tema que tem ocupado bastante meu pensamento ultimamente. Acho que o Bauman é um dos pioneiros nas reflexões sobre a mudança de comportamento nos humanos face as mudanças tecnológicas contextualizadas dentro do pós-modernismo.
Luli,
Muito (mas muito mesmo) interessante este tema de comportamente e web. Fico pensando muito sobre como o comportamento das pessoas mudam com Twitter, blogs, celulares e banda larga. Daí de duas uma: Ou começo a ficar louco ou o ônibus passa.
Como o ser humano ficou TÃO dependente de informação de uma hora pta outra? Eu simplesmente PRECISO de informação sendo twittada no meu celular, preciso me comunicar com pessoas, comentar posts, dar minha opinião, escrever e ser lido…Ufa! A moda agora é a informação. Pronto, disse.
Ficarei atento aos seus posts sobre este tema.
[]‘s
Realmente está tendo uma distorção do termo virtual. A Internet não é virtual, ela é real , ela existe. A virtualização seria no caso, a intenção, ou algo suscetível de se realizar.
Agora a questão de participação do usuário, é inevitável, e eu acho super interessante este conceito. Se levarmos em conta que a internet é um outro plano, uma outra mídia, ela ainda copia mídias precedentes, como o Jornal, e as Revistas, porém venho acompanhado uma inspiração inversa também, que é o caso dessas revistas impressas, com o conteúdo gerado pelo leitor.
Pois é, Amstel, o trabalho do Eric von Hippel é um bom exemplo que a inovação está em uma curva exponencial crescente. O problema é aquela questão que apresentei em um Intercon há três anos, e que, se não me engano, tinha você na platéia: o problema do fetiche de informação e do crescente anseio por dar ao usuário o que ele quer pode levar a uma situação em que, mimado, ele passa a reforçar seus próprios vícios e pára de aprender. Acredito que o risco continua presente.
Adriel, a distinção entre o virtual, o digital e o remoto sempre foi uma preocupação em minha pesquisa. Os termos são muito diferentes, mas as pessoas teimam em confundi-los. Em uma transação bancária pela Internet usa-se uma máquina digital, para acessar remotamente uma agência virtual. Mas a transação e o dinheiro são reais e palpáveis. Ou pelo menos deveriam sê-lo.
Eduardo, isso que você identifica foi chamado pelo Richard Saul Wurman de Ansiedade de Informação. O cara merece respeito, nem que seja por ter popularizado o termo Arquitetura de Informação e ajudado a inventar as conferências TED. Existe um bom livro dele, publicado em português, chamado Ansiedade de Informação 2.