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As cores que o executivo vê

No dia-a-dia, muita gente com quem interajo e não conheço me pergunta se trabalho com comunicação, publicidade, essas coisas. Devo estar me descuidando. Em uma época mais chique, já fui categorizado como arquiteto. Teve até uma vez, em que estava a caminho do Museu em que trabalhava durante um Fashion Week, que me perguntaram se era um estilista. Bom, aí acho que foi exagero.

“Deve ser por causa dos óculos” – pensei. Afinal de contas, meu guarda-roupa não é maior nem diferente, em sua essência, do da maioria das pessoas: calças jeans, camisetas brancas, camisas, jaquetas. Tenho algumas roupas esquisitas, mas são tão poucas quanto minhas roupas de rigor. Não sou muito fã do estilo funerário e, como não trabalho em firmas, não tenho calças cáqui, bermudas cargo, camisas pólo, docksides ou moletons de punho na canela. Tenho uns casacos de lã, mas você jamais os verá jogados em meus ombros.


Se é fácil entender porque popstars e estilistas usam roupas tão diferentes (sua vestimenta é metáfora de sua identidade) não fica claro por quê os outros – todos, todos os outros – tenham que se vestir iguaizinhos. É certo que muitas firmas têm seus códigos de vestimenta para impedir bizarrices como regatas e havaianas, mas por determinar em vez de instruir, por limitar em vez de incentivar, essas restrições de vestuário acabam por criar uma série de leis obrigatórias que, por falta de noção e medo do ridículo que pode ter conseqüências funestas na carreira, se uniformizam com roupas e cores que parecem ter sido feitas com o objetivo exclusivo de remover do indivíduo qualquer traço de personalidade e identidade.


Calças cáqui, camisas brancas, tailleurs beges, ternos azuis, sapatos caramelo, blusas de seda creme e muito, muito, muuuuito preto. O guarda-roupa de uma viúva siciliana é uma policromia quando comparado com o de uma executiva. Nesse ambiente, a idéia ingênua da “casual friday” se torna para muitos uma tortura, por falta de critério de escolha. E obriga o executivo a ter um “uniforme” para as sextas-feiras, da mesma forma que o tem para o resto da semana. Enquanto isso não acontece, o que se vê é um carnaval patético.

As mesmas roupas “profissionais” são, por comodismo e/ou conveniência (ou por medo de serem flagrados por colegas), repetidas em ambientes sociais e nos finais de semana, a ponto de, para muitos executivos, a única diferença entre a roupa de trabalho e a de lazer é a ausência de crachá.

Gosto não se discute, lamenta-se, você poderia dizer. Afinal de contas, se o indivíduo está feliz com seu guarda-roupa de tio, por que se incomodar? Acredito que por um motivo simples: sua falta de referências acaba por prejudicar o trabalho dos profissionais de comunicação que o atendem.

(a variedade da paleta de cores de um executivo
considerado “chique” é impressionantemente restrita)


“Você é o que come”, a pérola de sabedoria popular que eu adoro repetir, aplica-se mais uma vez aqui: o indivíduo que vive em um mundo bege, branco, preto, cinza, azul e marrom; e que passa a maior parte do tempo imerso nessas cores – já que ele quase se mimetiza com seu ambiente de carpetes, baias e esquadrias – não tem muitas opções de cor. A situação se torna ainda mais grave quando se constata que esse mesmo indivíduo aprende a evitar (sob certos aspectos, até temer) cores vibrantes, chamativas ou “estranhas”.

Como se pode esperar que alguém que não tenha contato e intimidade com o, digamos, Amarelo, tenha critério para escolhê-lo ou aprová-lo? Acreditar nisso é o mesmo que achar que se possa amar, jogar videogames, lutar kung-fu ou administrar empresas sem experiência prática.

Temos uma tendência natural a achar feio aquilo que desconhecemos. Experimente explicar o Twitter ou baseball ou raves para alguém que não esteja familiarizado com o cenário e você verá que, na melhor das hipóteses, receberá como resposta uma generalização. Na pior das hipóteses, uma rejeição completa. A quantidade de pessoas que “não gostam” de Jazz (ou, pior, acham que Kenny G é jazz) só reforça esse conceito.

No ambiente empresarial, especialmente naquele que controla o orçamento e os recursos para aprovar as idéias de comunicação,
o dress code é um limitador cromático. E criativo.

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