Dei esta entrevista para o Blog de Rosana Hermann. Como é raro ouvir perguntas inteligentes por aí, a exceção vale reproduzir:
1. Durante décadas o mundo projetou como o futuro seria nos anos 2000. A Internet, tal qual é, ninguém previu. Onde foi que os oráculos erraram?William Gibson cansou de dizer que o futuro já está por aqui, o problema é que ele é mal distribuído. Marshall McLuhan dizia que as pessoas andam com os olhos no retrovisor (tanto que todas as utopias são projeções do passado) e, por isso, têm uma enorme dificuldade em ver o presente. Existe uma tendência comum a muitos de projetar o cotidiano como o conhecemos em linha reta para o futuro, imaginando que o que vem por aí será mais do mesmo que já existe, sem levar em consideração a evolução que as mudanças nos processos podem provocar. Em 1990, não se levava a sério a Internet, em 1998 a NASDAQ parecia inquebrável, em 2003 comunidades eram vistas como mania de programadores ou modas passageiras de adolescentes.
Há uma dificuldade recorrente em se identificar os elementos presentes que podem causar grandes mudanças. É por isso que o mercado de ações e as tendências de comportamento são tão imprevisíveis. Na Feira mundial de Chicago, em 1897, pediu-se para que diversos líderes mundiais projetassem o mundo dali a 100 anos. Falou-se de tudo e muitas previsões eram certas. Uma ausência marcante, no entanto, foi o motor a explosão, que tinha sido inventado há algum tempo e que mudaria completamente a cara do século XX.
Prever o futuro não é fácil. Enxergar o presente é ainda mais difícil. Muitos erraram por imaginar que o futuro seria a mecanização do presente. Isso é tão errado quanto acreditar que a banda larga é apenas uma mudança em velocidade e infra-estrutura.
2. Metade da ocupação mundial do Orkut é composta de brasileiros. Isso tem alguma relevância que mereça uma interpretação?
Há uma participação significativa de turcos e diversos países asiáticos começam a migrar do Friendster para lá. A primeira interpretação é simples: você quer estar aonde seus amigos estiverem.
A segunda é mais dolorida. Ela leva em conta o tempo que os usuários da Internet brasileira passam em sites de relacionamento e mostra a falta de opções de conteúdo relevante, em português, para os menos favorecidos. Praticamente não há ambientes de aprendizado, de troca, de informação. O que sobra é muito papo furado e interação vazia.
3. Que fronteiras você traçou entre o publico e o privado nos seus domínios na rede? Essas fronteiras tendem a mudar com o tempo?
Meu MSN é privado, não tenho conta no Orkut, meu blog e meus posts no Twitter dizem respeito à minha vida profissional, quase ninguém tem meu celular e quase nunca me conecto no fim de semana. Mas isso, claaaro, muda com o tempo. Não tenho um perfil voyeur e acho que minha vida não daria uma biografia nem se fosse escrita pelo David Lynch. Mas leio muito, e me concentro no que posso contribuir de relevante. A fronteira entre o público e o privado está automaticamente definida.
4. Como você analisa o fenômeno de super-exposição na rede? Por que todo mundo quer ser famoso?
Acredito que seja por que não tenham muito a dizer, ao mesmo tempo que têm a obrigação de manifestar sua identidade. Em um ambiente que todos são absolutamente iguais na tentativa de se provarem diferentes, chega a ser cruel para uma pessoa ser, simplesmente, “normal”. A excepcionalidade compulsória faz de todos feitores de si mesmos, e obriga uma auto-flagelação em busca de qualquer coisa – pouco importa o critério ou as penas envolvidas – que atraia a atenção alheia. Vivemos em um gigantesco “freak show”, e as telas dos computadores são suas vitrines. O quadro crônico de depressão endêmica é reflexo disso, do mesmo jeito que o são as formuletas vazias de placebos culturais como “O Segredo” e “Quem somos nós”.
5. O sucesso dos livros de auto-ajuda é uma medida do desejo generalizado de buscar soluções milagrosas ou é a prova de que é possível enganar muitos de forma lucrativa e sistemática?
Não se venderia Crack se não houvesse uma clara demanda por ele. Da mesma forma, em ambientes satisfatórios não há lugar para os mercadores da alegria cosmética. Em uma análise mais ampla, tudo é auto-ajuda: de poupança a religião, de estudo a atividade física. O problema não está na demanda por melhoras – até porque o ser humano está mais para homo dissatisfactens que para sapiens – mas no desejo (e na crença) que a melhoria possa ser imediata, instantânea. Sob esse aspecto, os livros do gênero são, quando bons, os equivalentes literários do Xenical ou Viagra, uma correção de um sintoma que ignora a condição subjacente e pode, com o tempo, piorá-la. Um bom livro de dicas financeiras não substitui um curso de Economia, um blog de conselhos de reformas não elimina um arquiteto.
Ou seja, mesmo que os livros de auto-ajuda fossem bons, eles fariam mal. O que dizer então quando se constata que 99,9% deles são palpites vazios, desqualificados, preconceituosos, tendenciosos e, em última instância, perigosos? Para mim, eles são os equivalentes psicológicos de uma auto-medicação com remédios tarja preta. Arriscada e efêmera, mas que traz a ilusão de solução imediata. Mas o que se pode dizer quando se constata que há quem coma Doritos para matar a fome?
6. A Internet pra você é uma ferramenta, um vício, uma diversão?
Infra-estrutura. Como luz, água, gás, saneamento. Ela não faz nada sozinha, apenas monta o palco. Cabe a cada um decidir o que fazer com ela.
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Ainda nao terminei de ler esse post, mas quando você falou em Egosurfing, fui ver suas estatísticas no google trends, em comparação com outros professores “famosos” da usp.
Pelo menos dentre os que conheço, inclusive vc, não têm dados o suficiente pra fazer o trend. Mas só por curiosidade, quando se busca só por Luli: http://www.google.com/trends?q=luli&ctab=0
Bem, vou trabalhar :P
As perguntas realmente foram ótimas, e as respostas melhores ainda :)
Mto inteligente tudo!
Só pra constar, me passa seu passaport do msn e seu cel?
KKKK
Muito bom Luli.
Pena que você tem toda a razão.
Quando você fala sobre os “placebos culturais” (que eu chamo de xamanismo cultural, principalmente no caso do O Segredo) eu concordo absolutamente.
E fico pensando: Para o que ou quem eu trabalho? Que diabos eu faço aqui?
Agora eu entendo um post teu anterior…
Obrigado a todos pelos comentários. Só uma coisa, Tarsila, eu não posso aparecer no Google Trends. Eu não sou tendência, apenas as comento.