ATENÇÃO: nenhum iPod foi maltratado durante a execução deste post.

Primeiro foi o iTunes. O formato MP3 já existia há algum tempo, e o mesmo poderia ser dito dos programas para tocá-lo, como o WinAmp (lembra?). Mas a digitalização de CDs não era um processo simples. Para piorar, as skins, opções e controles disponíveis até poderiam dar um maior controle para quem entendesse de som ou se dispusesse a aprender e pilotar o programa. Para o usuário comum, aquele mundaréu de botões tornava o processo ainda mais complicado. Sem contar que a maioria das skins tinha uma cara nerdola de dar vergonha.

O iTunes era pobre, mas limpinho. Desde suas primeiras versões, a digitalização de CDs e a criação de playlists era transparente. As outras características foram sendo acrescentadas gradativamente, quase todas escondidas atrás de telas e menus. Algumas características que muitos programas tinham não foram desenvolvidas por ele. O vizualizador nunca mudou, sua interface pode ter qualquer cor, desde que seja cinza. Lançado junto com o sistema operacional da Apple, ele demorou para ser popular entre os usuários de outras plataformas. De certa forma, sua simplicidade e resistência à personalização poderiam ser encaradas como uma metáfora do próprio MacOS, quando comparado a outros sistemas operacionais tão customizáveis quanto pouco amigáveis.

Depois dele, o IPod, e novamente a mesma estratégia: em um mundo de opções customizáveis – algumas seguramente mais baratas e potentes – um aparelho simples, elegante, fácil de se usar e monocromático.
Nessa linha evolutiva, a Music Store (depois rebatizada de iTunes Store) marcou mais um ponto para a Apple. À medida que o consumidor foi se dando conta que não precisava pagar por um CD inteiro, o armazém que vendia músicas a um dólar era certamente mais limpo e seguro que as vielas escuras dos Kazaa da vida, com seus vírus, arquivos errados, pedofilia e outros crimes. Ali na lojinha as opções não eram muitas, mas tudo era claro e bem arrumadinho.
A penúltima ação profilática veio com os Podcasts. Como em todos os capítulos dessa história que já está ficando repetitiva, programas de áudio e vídeo distribuídos por RSS não eram novidade. Mas achá-los, baixá-los e mantê-los atualizados era coisa digna de personagens de Haloween. Mesmo que um programa se encarregasse disso, a lista de conteúdos disponíveis não era assim tão clara. Para facilitar o uso, o nome “podcast” foi criado. Ele deu tão certo que até o Zune, da Microsoft, depois de muito relutar, teve que jogar a toalha e aceitar o termo do concorrente. Ninguém entenderia o que quer dizer um “netcast”.
Ai que tédio… Este seria um post de cases de marketing Apple se, nas últimas semanas, ela não tivesse sido protagonista involuntária de mais uma revolução de simplicidade e popularidade na web. Só que, dessa vez, o efeito foi o contrário. Ao lançar brinquedinhos tão desejados quanto o iPhone e o iTouch, deixar o mundo inteiro babando com suas possibilidades e trancá-las todas em uma jaula de vidro ao bloquear a instalação de novos programas e o uso com outras operadoras, a empresa foi um pouco longe demais. Como uma stripper que dança perto demais ou um bolo de chocolate na geladeira de um spa, a tentação era muito grande. Não era difícil prever que muitos não aguentariam e cruzariam a linha da legalidade em direção ao desbloqueio.

Foi aí que aconteceu o inesperado: o desejo reprimido era tão grande que acabou provocando uma inversão de valores. Os primeiros hackers a desbloquear o iPhone foram elevados à condição de celebridades, as medidas de defesa de acordos comerciais foram interpretadas como maldades e os programas para desbloquear e instalar aplicativos nos aparelhinhos se tornaram cada vez mais transparentes.
(Atenção Apple Brasil: essa foto tem mero efeito ilustrativo, nenhum desses iTouch é meu.)
Isso dá o que pensar. Até o iPhone, poucos se arriscariam a baixar um patch de firmware obscuro de um endereço desconhecido na web. Menos ainda arriscariam bloquear ou explodir seus aparelhos ao tentar fazer o processo em casa. Esse tipo de serviço normalmente era realizado por um profissional especializado, clandestino, escondido na sobreloja de um prédio decadente. Hoje é feito às claras, e até documentado em vídeo.
Parabéns, Apple. Você conseguiu mais uma vez. Aquela operação obscura de desbloqueio de telefones agora está ao alcance de qualquer um. Talvez não tenha sido essa a sua intenção, mas obrigado mesmo assim ;-D
Luly, vc eh o cara, parabens pelo post… hahahahahahahaha adorei… assim como sou fan do cara que desbloqueou o iFone…
Pela lembrança do Winamp, quem o ainda usar por odiar o iTunes (o meu caso), experimente o AIMP2 . Esse já é aberto desde sempre.
KKKKKK
Simplicidade é tudo!