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Você trabalha com comunicação digital


Você é capaz de explicar o que faz em uma frase ou menos? Mais: essa definição se sustenta ao longo dos anos? Agora que a profusão de termos relacionados a web 2.0 deu uma sossegada, é hora de pensar melhor em como definir sua posição no ambiente em que trabalha, seja para uma apresentação, um currículo, um portfólio ou um simples papo de boteco. Em tempos de popularização das tecnologias digitais, não dá mais para ser definido como “o sujeito que trabalha com Internet, essas coisas”. Não há mais
espaço para o triatleta digital. Por mais que algumas empresas pequenas ainda insistam, nenhum cliente leva a sério o homem-banda que diz fazer um site sozinho.

Muitos podem se perguntar se essa definição faz algum sentido. Afinal de contas, o ambiente pós-moderno não faz com que a rigidez das categorias não se aplique mais? Aquilo que antigamente poderia ser classificado como coisa de homem, de mulher, de criança, de nerd ou qualquer outro rótulo, não demanda hoje um escrutínio mais detalhado? Se algumas profissões mais tradicionais (dentistas, advogados, professores) ainda permitam uma explicação simples e até resistam a termos específicos, a maioria das outras não pode se dar a esse luxo. Você pode entregar seu caso a um criminologista ou um advogado, deixar sua boca aos cuidados de um especialista em oclusão ou um dentista, mas experimente trocar o especialista em Arquitetura de Informação pelo administrador de seu banco de dados para ver no que dá. Para piorar, as novas profissões demandam um conhecimento técnico razoável – como explicar para um leigo o que faz um arquiteto de informação? E um designer de interação?


Essa especialização promove um círculo vicioso. O indivíduo se especializa e passa a fazer um trabalho tão específico que perde a perspectiva para analisar o todo. Com isso acaba por se isolar e se tornar um intolerante vociferador de jargões. A análise e “tradução” de uma atividade específica para termos leigos, embora muitas vezes seja imprecisa e restritiva, é um importante exercício intelectual. Em termos práticos, ela serve para outras coisas além de um subtítulo chamativo em um cartão de visitas.


(a propósito: por que tantos querem ser tão engraçadinhos
com seus cartões de visitas?)

Acredito que a principal vantagem desse processo de tradução seja a de focar naquilo em que é a sua verdadeira especialidade em um mercado que muda, se especializa e se profissionaliza cada vez mais. Mesmo que você, como todos, tenha uma grande curiosidade a respeito de diversas áreas e palpite a respeito de tudo, deve certamente existir uma área em que seu conhecimento é inquestionável, algo tão grande quanto “design”, “ilustração”, “fotografia” ou “programação”. Se nos idos do final do século passado esses títulos eram suficientes, hoje são um bom começo de conversa. Mas é preciso ir além.

Considerando que designers são projetistas, você projeta o quê? Ambientes? Interfaces? Interações? Experiências? Comunidades? Sons? Vídeos? Perceba que a pergunta não diz mais respeito ao meio – web, TV, celulares, games – mas ao que se pretende fazer com ele. Em outras palavras, não existem designers de celulares ou de iPhones (nem deveriam existir webdesigners), mas profissionais de criação de interfaces e ícones, que podem ser aplicados em diversos aparelhos. Não acreditar nisso é tão exótico quanto não acreditar em CSS. Isso definido, qual é o tipo de projeto em que você trabalha? Sites pequenos de crescimento orgânico? Sistemas de grande porte? Tecnologias ou conteúdos proprietários? Específicos?

À medida que aumenta a precisão da definição, aumentam também os títulos, e você corre o risco de ter um cargo com tantas palavras que voltará a ser definido como “o que trabalha com Internet”, ou, pior, “aquele nerdola que trabalha com Internet”. Nem todas as definições precisam estar em sua apresentação, mas quanto melhor for seu título, mais fácil será para determinar uma proposta para seus clientes, uma posição com relação à sua equipe e fornecedores, uma lista de coisas que você é capaz de entregar – e, principalmente, as que não é capaz. Com um horizonte em mente é mais fácil selecionar, dentre a tsunami de informações disponíveis na web, quais são as verdadeiramente relevantes.

Em resumo: quando o ambiente é mutante, quem transita nele é que define os pontos de referência.

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