Há aproximadamente 12 anos, o filósofo Umberto Eco escreveu um texto hilário sobre as diferenças entre as interfaces MS-DOS e MacOS, comparando-as com as diferenças de prática entre Católicos e Protestantes. Sob sua lógica, a jihad não-declarada entre os usuários dessas “seitas” de sistemas operacionais (que, até agora, não excedeu os limites do escárnio verbal, ainda bem) trazia em si elementos históricos do conflito entre os seguidores das duas religiões Cristãs.
Em sua opinião, a interface gráfica dos Macintosh era católica, enquanto a interface de linha de comando do DOS, protestante. Na verdade, a estrutura WIMP (janelas, ícones, menus e cursores, em inglês) dos Macs seria uma atitude contra-reformista baseada no ratio studiorum dos jesuítas. O texto, claro, foi uma grande brincadeira e fazia referências à maioria das igrejas ocidentais. Se Inglês não é o seu forte, aqui está o texto em Francês. Não achei a versão em Italiano.
Hoje em dia, apesar da discussão “sou Mac, sou PC” ainda fazer algum sentido, o Vista, os MacIntel e o fim do DOS praticamente encerraram a questão. No entanto, ao traduzir parte dos argumentos para a grande (in)definição do que é web 2.0, o texto se mostra surpreendentemente atual. Tomo a liberdade poética de me apropriar dele a seguir, fazendo as modificações necessárias.
O fato é que o mundo está dividido entre usuários de sistemas proprietários que geram páginas estáticas e sistemas abertos que produzem conteúdo dinâmico e colaborativo. Sob a lógica do prof. Eco, a Web que conhecíamos até há pouco seguiria uma linha Protestante, enquanto aquela que rotulamos de 2.0 seria claramente Católica. Contra-reformista e sob influência da Companhia de Jesus, ela é alegre, simpática, conciliadora; orienta seus fiéis como proceder passo a passo para alcançar – se não o reino dos céus – o ambiente divino das comunidades. Seu catecismo se dá por fórmulas simples para se publicar em blogs e divulgar escrituras via RSS. Todos têm, hipoteticamente, o direito à salvação.
A “velha” web, não-AJAX, não-comunitária, seria, sob esse raciocínio, Protestante, provavelmente Calvinista. Ao permitir uma interpretação livre das linhas de programação, demandaria escolhas pessoais sofisticadas, imporia uma hermenêutica sutil a seus designers, e assumiria como pressuposto que nem todos poderiam ser redimidos. Para que seu sistema funcione é preciso uma interpretação individual das entranhas do Código. Distante da comunidade barroca dos pregadores, o usuário está confinado à solidão de seu sofrimento.
Pode-se argumentar que o Flash seria o redentor do HTML, aproximando-o da tolerância contra-reformista da Web 2.0. Sob certos aspectos, isso pode ser verdade: o Evangelho de Santo Adobe, conhecido pelos antigos como Santo Macromedia (o que não é um problema, já que anjos não têm sexo) representou uma Cisma no estilo Anglicano, com grandes cerimônias animadas em suas Catedrais multimídia. Mas é importante lembrar que existe sempre o retorno ao Código (ou pior, aos ActionScripts) para adaptar o ambiente às demandas dos tempos – e rever dogmas históricos.
Naturalmente, o Catolicismo e Protestantismo nada têm a ver com as posições culturais e religiosas de seus seguidores. Mas é natural conjeturar se, com o tempo, uma prática poderia levar a determinadas atitudes. Pode-se programar HTML e jogar WoW? Harry Potter teria um final diferente se J.K. Rowling usasse OpenOffice? A quantidade de variáveis disponíveis para a construção de um membro da família Sims os aproxima de plug-ins do WordPress ou de Applets Java?
Para ampliar a polêmica, o que pensar das bases de dados, que permeiam e definem todo o conteúdo que buscamos na Web, envolvendo Google e Wikipedia, sistemas bancários e de infra-estrutura e sustentando o mais simples feed XML? Que religião elas seguiriam? Ora, o Velho Testamento, de tradições talmúdicas e cabalísticas. O lobby judaico, diriam alguns…
E mais: seriam o iPod e o iPhone Evangélicos ou Carismáticos em sua eficiente catequese?
Ah, como é confortável ser agnóstico em tempos iconoclastas.
Nooossa!
Confesso que sou pouco agnóstico em TI. mas ser agnóstico religioso já me ajuda :)
Que post!
Umberto Eco, religião e web!
Confeso que fiquei meio atordoado com o teor do post, mas cheguei a uma conclusão… é muito bom!!
Até me lebra o U2 com suas letras sobre sexo, política e religião (foi mal e Luli rs).
http://www.comics.com/comics/dilbert/archive/dilbert-20070909.html
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