O problema com termos que de repente surgem do nada e entram “na moda” não está em sua natureza ou eventual utilidade, mas na quantidade de pessoas que saem despudoradamente a posar de especialistas e falar qualquer bobagem sobre eles. Foi assim com editoração eletrônica, internet, personal trainers, incubadoras, motivos para a explosão da bolha de pontocom, web 2.0… mais ou menos como sexo para pré-adolescentes: o tanto que se fala costuma ser inversamente proporcional à profundidade do conhecimento que se tem a respeito.
Nesse universo, poucos termos estão mais na moda que Inovação. É divertido ver a quantidade de consultores que se apressam a definir o tema e a desenhar diagramas com fórmulas para a sua implementação em qualquer empresa, para qualquer mercado. Não pode dar certo. Como a criatividade (ou o sexo, para não fugir do assunto), qualquer idéia verdadeiramente nova não pode surgir de um procedimento-padrão.

Inovação e Invenção são processos. Costumam demandar uma quantidade enorme de informação e pesquisa e, de vez em quando, até uma boa idéia criativa no meio do processo, não o contrário. Leonardo da Vinci e Júlio Verne são boas provas que não é difícil se imaginar coisas novas, o duro é colocá-las em prática.
Profissionais da área criativa são conhecidos por sua capacidade de tirar novas idéias aparentemente “do nada”, o que é muito bom. O duro é que, em sua busca pela novidade contínua, eles também são conhecidos por se entediarem com facilidade e não terem a paciência, atenção ou dedicação que o desenvolvimento de um projeto demanda.
A Roberta manda um link interessante sobre a importância da utilidade das novas idéias. É só pensar na quantidade de telefones celulares ou websites de comunidades que existem por aí que isso se torna bastante claro. Para que você precisa de um Krazr, de um Pebl, de um Rokr, se eles não trazem nada que seja útil e novo? Por outro lado, é óbvio o sucesso que um Blackberry faz, mesmo tendo aquele tecladinho ridículo e design nerd.
Em serviços web, isso é ainda mais evidente: comunidades virtuais surgem a cada instante, nenhuma delas com algo de novo, só mais um serviço de mensagens instantâneas, mais um calendário, mais um espaço de compartilhamento de arquivos etc etc etc… alguém se lembra do Multiply? Do Flock? Pois é. Enquanto isso o iPhone é conhecido (e desejado) por um terço da população dos EUA.
A revista New Yorker trata muito bem do tema ao mostrar que, ao longo do século XX, foi o uso, não a novidade. Um dos exemplos que mais gosto é o a artigo da revista BusinessWeek de 1975, que defende um “escritório sem papel” no futuro, que… bem, deixa pra lá.
Isso não significa que você tenha que dar o braço a torcer para os críticos da criatividade, muito pelo contrário. Só não seja um alvo fácil e evite fazer brainstorms com qualquer um, principalmente com seu cliente. Pense na quantidade de idéias que quiser, mas só as leve a público quando estiver preparado para defendê-las. Isso costuma poupar muita frustração.
Mudando de assunto para algo mais específico na área de tecnologia, estou lendo um livro espetacular de um inventor americano chamado Ray Kurtzweil. O cara é megalomaníaco e compulsivo, mas suas idéias são ótimas. Veja, por exemplo, sua definição do Ciclo da Tecnologia, com sete etapas:
- Precursor - os pré-requisitos para uma tecnologia já estão disponíveis, os sonhadores imaginam esses elementos reunidos mas não vão muito além. Antes do walkman, muitos imaginaram um som portátil. Foi preciso o presidente da Sony ter a mesma idéia para fazer a diferença.
- Invenção - “estalo” muito breve, comparável ao parto depois de uma longa gravidez. O inventor reúne curiosidade, conhecimento científico, determinação e técnicas de apresentação para criar uma nova tecnologia. É aquele momento “Eureka!“.
- Desenvolvimento - período em que a invenção é protegida e desenvolvida, muitas vezes em um processo que aglutina outras tecnologias ou serviços. Conhecer o ambiente é fundamental nessa etapa, mais importante que dinheiro ou marketing. Que o digam o Microsoft Zune ou os concorrentes do Wii.

- Maturidade - apesar de continuar a se desenvolver, ela tem vida própria e passa a fazer parte da comunidade. Seu papel é tão importante que parece que ela vai durar para sempre. É o sinal de alerta. A Web está neste ponto, a TV, indústria fonográfica e cinematográfica já passaram um pouco dele.

- Falsas ameaças - momento em que novas iniciativas tentam competir com a tecnologia já estabelecida. Seus entusiastas cantam vitória antes do tempo. Ela dá errado porque lhe faltam algumas características importantes, mas nada que um pouco mais de pesquisa não resolva. Como a novidade foi anunciada com entusiasmo, ninguém tem paciência e os defensores da “velha” tecnologia se aproveitam dos defeitos para defender o atual estado das coisas. O fracasso do carro a álcool na década de 80 é um ótimo exemplo. O Newton, da Apple, é outro. Sob esse aspecto é bem divertido acompanhar as críticas ao iPhone.
- Novas tecnologias - as tecnologias estabelecidas não perdem por esperar. As novas idéias que forem fortes o suficiente se fingem de mortas, reúnem forças para corrigir seus defeitos e voltam com tudo, forçando a aposentadoria de sua predecessora. MP3 e Foto digital estão neste estágio.
- Retiro - As velhas tecnologias se transformam em antiguidades excêntricas, como o linotipo ou a máquina de escrever.
Apesar deste ciclo dizer respeito a produtos e infra-estrutura, acredito que também possa ser aplicado a serviços web, como este que você está debruçado a desenvolver neste exato instante.
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È um post no mínimo digno de um parabéns, cara. O mais legal de ler o que tu escrerve é a sintonia de discurso tua e de outros profissionais.
Assisti ontem á uma palestra na escola de Design da Unisinos, e os assuntos se complementam de forma interessante. Enquanto tu aborda sobre as diferenças entre invenção (idéia sem objetivo) e inovação (idéia com objetivo), o Tuti (o palestrante) falou do novo e esperado profissional de design no sul do Brasil (e porque não do Brasil. Ele tem que ser muito mais que interdisciplinar, tem que ser um intermediador de todo o processo produtivo. E esse perfil é inovador em nosso ambiente.
Resumindo: brabo é quem inventa maneira de fazer design. Legal mesmo é quem busca inovar na área.
Amplexos
Para uma visão alternativa, sugiro o livro do Henri Petrosky, uma pechincha na Amazon:
http://www.amazon.com/Evolution-Useful-Things-Artifacts-Zippers-Came/dp/0679740392/ref=pd_bbs_sr_1/102-1269593-8487326?ie=UTF8&s=books&qid=1184957379&sr=8-1
Ele argumenta que as invenções são produtos de todo um contexto histórico, minimizando um pouco a genialidade do inventor. Na verdade, ele diz que o inventor é um crítico que percebe que algo está errado e propõe uma solução para um problema. Entretanto, as invenções sempre criam novos problemas, que não são percebidos inicialmente mas que, no futuro vão permitir que hajam novas invenções.
Qual é o livro do Kurtzweil que você tá lendo?
Legal, Amstel, mas o que ele diz não é exatamente o mesmo que o estágio 1 - Precursor?
O livro que estou lendo é o The Singularity is near. É um tijolo de 600 páginas, mas excelente.
Acho que não dá pra fazer um paralelo direto. O Kurzweil encaixa o processo de invenção dentro de uma lógica de mercado, o que não dá conta de invenções pré-capitalistas, enquanto o Petrosky enfatiza um ciclo, nem sempre positivo, de frustração-criação. Outro ponto importante do Petrosky é que as invenções não são feitas por uma pessoa só, mas são sínteses de diversas idéias provenientes de diferentes pessoas.
Vou dar uma olhada no livro do Kurtzweil.
Você tem razão, a abordagem do Kurtzweil é beeeem capitalista. Para quem quiser ler os livros do homem, recomendo começar pelo The Age of Spiritual Machines, para depois ir para o The Singularity is near.