Post adequado para um final de semana:
considere um surfista.
Antes que bata o preconceito, pense no que significa este esporte. Se você já tentou pegar uma onda com aquela tábua de plástico e, depois de 25 caldos em aproximadamente 8 minutos, desistiu, pense no porquê.
Teoricamente, nada deveria dar errado. Assumindo que você saiba nadar, que o equipamento esteja OK e que o mar… bom, o mar é o mar, por que é tão difícil? Por que cargas d’água alguém tão esclarecido como você, que conhece minúcias tipográficas e que faz milagres com CSS, não consegue fazer algo tão ridículo quanto se equilibrar?
Em uma análise mais detalhada, o surf é muito parecido com o processo de criação e inovação – e isso tem tudo a ver com análise de tendências. Aquilo que parece “só” um golpe de sorte ou jeito é, na verdade, fruto de muita preparação e observação. Poderia discorrer sobre Tai Chi Chuan, mas continuemos no mar.
O surfista chega à praia, protege seu equipamento (deixa normalmente a prancha à sombra), cruza os braços e observa o mar. Nada escapa de seu escrutínio: forma e tamanho das ondas, força do vento, posição e movimento de quem já está no mar. Daí junta-se a alguns colegas e conversa para saber o que lhe é invisível: temperatura e força da água, buracos, correntes etc. Daí finalmente pega a prancha e… caminha até um ponto da praia cuja entrada no mar seja mais fácil. Ninguém passeia com aquele fraldão de neoprene, arrastando e pisando na cordinha e com aquele peso debaixo do braço para se achar sexy.
Ao chegar no ponto, o surfista alonga todo o corpo, pega sua prancha e nada rapidamente até atravessar a arrebentação. Ao chegar lá, senta-se na prancha e espera. Ele está em um ponto de vista privilegiado, em que pode sentir os movimentos da água e se antecipar a eles.
Quando a onda chega, ele está a postos. Duas braçadas e pegá-la é fácil. Mesmo assim, ele não segue nela até a areia, porque ao atingir um determinado tamanho a onda não apresenta mais nenhum desafio, e atravessar a arrebentação não é fácil. Enquanto houver ação, haverá reação. Acabada a graça, o surfista sai voluntariamente e recomeça.
Se esse processo é consciente, eu não sei – não surfo – mas se o for, tanto melhor. O que é inegável é que esse estado de observação demanda muito esforço, muita tentativa e muito, muito erro.
Agora pense nas “novas ondas” que surgem por aí. Nunca se falou tanto sobre tendências emergentes de consumo, nem se deu tanta importância a elas. Com muita gente falando a respeito o resultado é uma avalanche de termos, uma sobrecarga de informação (e de inovação). Saber escolher as fontes relevantes de idéias – e como aplicá-las – é o desafio de todos.
O que tendências têm de tão especial, afinal? Na minha opinião, elas são periscópios importantes para as pessoas e empresas possam se manter atualizadas e perceber, como o surfista desta parábola, as ondas no momento em que se formam (ou pelo menos antes que seja tarde). Conforme o caso, é possível até se antecipar a elas.
Em outras palavras, estudar tendências e desenhar cenários é uma atitude estratégica, muito mais complexa que determinar a nova “cor da moda” ou um estilo “descolado”. Não tem nada a ver com futurologia, mas com o desenho de cenários de situações que estão para começar a acontecer. Com experiência e um pouco de sorte, é possível se vislumbrar algo que dure para os próximos anos.
Na feira mundial de 1893, líderes mundiais e pensadores foram convidados a imaginar como seria o mundo dali a um século. De guerras a doenças, de transporte aéreo a redes de comunicação, tudo foi sugerido. Boa parte no estilo Leonardo ou Júlio Verne de invenção, em que se propõe a concretização de um sonho sem explicar o caminho para tal.
Curiosamente, ninguém pensou em uma máquina barulhenta, suja e malcheirosa que um alemão chamado Karl desenvolvia no quintal de casa. Ele não era importante, não foi convidado para a festa. Sua invenção, no entanto, que ele batizou com o nome da sobrinha, daria a forma do século XX. Sem ela, boa parte das mágicas imaginadas pelos sujeitos célebres não chegaria a ser um rascunho. O sobrenome do alemão era Benz, sua sobrinha se chamava Mercedes e sua invenção, o motor a explosão.
Marshall McLuhan dizia que corremos para o futuro, com os olhos no retrovisor. O passado é mais confortável, já estivemos por ali. Todas as utopias humanas são retratos do passado – o Comunismo e muitas visões do “paraíso” incluídas. No entanto, ninguém quer voltar para o passado, Muitos nem para o mês passado. Mesmo sem ter filhos, invejo meus netos. Quando rogo uma praga, gostaria que meu antagonista acordasse em Julho de 1977 – sem telefone, computador, ar condicionado ou protetor solar que preste.
É para isso que servem as tendências – elas tornam o mundo novo fascinante, um passo além do admirável. Os desafios que se mostram à frente têm a forma de problemas, não de mistérios. Problemas pedem por soluções, têm sua origem e comportamento próprios e vê-los surgir é a mais fascinante botânica.
Como no estudo de línguas estrangeiras, quanto mais tendências se examina, tanto mais fácil se torna identificar elementos de algumas em outras e, nesse processo, se antecipar às próximas. Até as manifestações mais tímidas se transformam em pistas interessantes.
Acredite se quiser, a propaganda dos anos 80 era considerada uma forma de arte. Hoje muitos a consideram um tédio. O mesmo se aplica a promoções, eventos, ações supostamente “virais” ou “de guerrilha”, design e (!) webdesign. A culpa não está no meio, mas no uso que se faz dele. Quanto mais fórmulas são aplicadas, menos se escuta o público. O resultado é previsível, monótono, um saaaaaco.
Pesquisar tendências é observar onde se está – nesse processo fica mais fácil descobrir para onde se vai. As fontes estão por toda parte: blogs, wikis, fóruns e, em alguns casos muito específicos, até a mídia de massa. A receita para isso é fácil: olhe os sites de tendências, se informe mas não se deixe influenciar. Use-os para identificar coisas que você sente mas não é capaz de definir, desenvolva uma mentalidade aberta, sem preconceitos. Discuta suas descobertas com amigos e busque eliminar todo o viés pessoal.
Nesse processo de filtrar a informação, só tome o cuidado de separar o que você vê do que faz/gosta/é. Eu não gosto muito de SecondLife e de Twitter, mas não posso me comportar como uma criança que fecha os olhos e acha que é invisível. Não dá para deixar de observá-los. O mesmo se aplica para aqueles dois ou três que ainda não se apaixonaram pelo iPhone ;-D
Observar tendências faz bem. Na melhor das hipóteses você terá um ponto de vista privilegiado, inovador, moderno, que não envelhece. E na pior das hipóteses… não existe pior das hipóteses.

Olá Luli, não sei se analisei corretamente seu post, mas ao meu ver é uma comparação extremamente pertinente.
Isso porque a quantidade de tendências que surgem acabam por nos deixar meio “sem rumo” e o surfista do seu post tem que saber quais as ondas que valem a pena para que sua experiência (UX?) seja aproveitada ao máximo.
Agora existe também o processo de saber em que ponto largar a onda, como você mesmo mencionou, e imagino que não pode ser nem muito cedo a ponto dele perder muitas “manobras” nem muito tarde a ponto de chegar na beira da praia, onde a onda já não existe mais.
Desculpe se “viajei” demais!
Adoro seus posts!
Gostei do post, achei bem “radical”.
;-)
Realmente, entrar de cabeça no meio de uma onda em plena evolução é perder metade da festa. Belo post.
Oi Luli,
bom post.
Sempre pensei nesse aspecto de analisar as tendências pelo lado de fora, como dito no filme “sociedade dos poetas mortos”, é sempre bom assumir um outro ponto de vista.
Cada bolha -ou onda – que surge deixa “quase” todos perplexos com uma nova realidade com a qual não previam pois achavam que viviam na melhor época do mundo, não os culpo, é a melhor época do mundo…por enquanto. Antecipar cada onda como um surfista requer tempo, dedicação e um senso crítico acima dos conformados ;]
Também não gosto do SecondLife nem do Twitter, nem do dreamcrowd. Mas sou um viciado em assistir inutilidades em uma tarde de sabado no youtube. Reconheço que eu gosto de rock’n'roll mais não posso negar que no brasil pagode é que faz o gosto geral (não sei se essa comparação teve muito a ver…mas).
Abraços
Olá Luli, gostei do seu artigo. Há alguns meses atrás escrevi “O que o surf pode ensinar sobre negócios“. Ambos os artigos têm muito em comum.
Um abraço
Comecei a ler o seu texto e logo de cara gostei do tema. Infelizmente não me lembro como vim parar aqui neste blog. Hipertexto.. rsrsrs… Felizmente a Internet é caótica, como a vida.
Entendo que o surfista se apropria das insinuações naturais do mundo (ondas) para através delas criar, inventar. Ora, os melhores em seus trabalhos são justamente aqueles que observam o contexto no qual estão envolvidos e fazem algo para além, utilizando o contexto (onde, como e com quem) e as habilidades (técnicas, tecnologias) como ferramenta, dando saltos com os trampolins oferecidos. Qualquer um, potencialmente, consegue fazer isso.
“O que é inegável é que esse estado de observação demanda muito esforço, muita tentativa e muito, muito erro.”
As pessoas costumam atribuir a uma espécie de genialidade, misticismo e etc às habilidades das pessoas criativas (músicos, pintores, inventores, esportistas, pensadores, etc). A questão, acredito, está muito mais relacionada ao exercício da atividade (fortalecer-se nas técnicas) e a capacidade de perceber-se criador do que à alguma pré-disposição natural.
“As fontes estão por toda parte: blogs, wikis, fóruns e, em alguns casos muito específicos, até a mídia de massa.”
Importante, além de observar mídias, é cair no campo. Vivenciar experiências reais com pessoas reais. Sentir cheiro, gosto, aproveitar os sentidos que não são possíveis na web.
“olhe os sites de tendências, se informe mas não se deixe influenciar”
Difícil não se influenciar. Até o que você está falando agora, por mais que eu tenha uma visão crítica (sim, imagino que a crítica é fundamental para o desenvolvimento de qualquer produção – “discutir com amigos” – como você falou), está me influenciando. Talvez o que você queira falar esteja relacionado à leitura para além do bem e do mal. Remover a moral – você chama de viés pessoal – que na realidade é apenas uma repetição, atolada em um rastro histórico deixado pela humanidade (a história que conhecemos é um ponto de vista, apenas). Existem vários rastros históricos, alguns levados em conta pela “moda”, outros deixados de lado. É apenas uma questão de mudar o ponto de vista para o ovo voltar a ser um alimento saudável.
Os sofistas (anteriores a Sócrates) já exercitavam este processo de “enxergar” através de outros pontos de vista quando questionavam a existencia ou a serventia de divindades, ou imaginavam a construção de leis sem levar em conta a existência de Deus(es).
Com relação ao seus dois últimos parágrafos tenho o mesmo a dizer aos que abandonam o Orkut: É um lugar onde boa parte da sociedade está. Deixar de estar lá é perder parcela relevante da vida das pessoas e a maneira como elas enchergam o mundo.
Dava para escrever um livro sobre isso. :)
Metáforas, para mim, são uma ótima maneira de massificar conceitos, e tu foi muito feliz nessa comparação do surfista “de praia” com o surfista “de tendências”.
Como eterno estudante do design (atualmente estudante mesmo), percebo o quanto aquele ditado é verdadeiro: quanto mais se sabe, mais se vê que pouco se sabe. Sendo assim, perceber as novas tendências – sejam elas inovadoras ou não – é um ponto crítico em nossa formação profissional.
Obrigado por nos lembrar dessa regrinha, cara.
Amplexos.
Olha, realmente, uma ótima comparação.
Sobre o comentário do Fabricio Jedigner, tenho um colega que disse o seguinte em relação a uma tecnologia que ele utiliza em sua empresa: “Olha, eu já aprendi tudo sobre essa ferramenta, não sei mais o que tenho que estudar…”, “ah, isso é fácil, já sei tudo.”.
E estes comentários que ele fez não foram só pra mim, foram pra outras pessoas também.
Conclusão: revolta, exclusão. As pessoas possuem o costume de repelir outras que pensam e, inclusive, “divulgam” seu excesso de “sabedoria” através desta arrogante atitude. Realmente, quanto mais se estuda, mais você percebe que existe uma INFINIDADE de coisas para se estudar. E eu diria “principalmente quando o assunto é informática”.
Mas, como saber que as outras áreas também não possuem uma complexidade equivalente ou maior, se eu não as estudo?
Em relação às tendências, estamos diante de um exemplo NATO: expression blend(silverlight), javaFX ou continuar com FLASH????
São 3 empresas fortíssimas no mercado por trás destas tecnologias, todas já apresentaram a vantagem de seus novos produtos sobre os outros concorrentes. E agora?
Bom, realmente, não é futurologia!!! E isso que é legal e ao mesmo tempo assustador. Mesmo o cara com maior experiência e um GRANDE conhecimento do assunto não vai poder lhe dizer COM CERTEZA qual tecnologia aderir! Todos podem dar palpites e sugestões com o nariz lá em cima e o tom de certeza absoluta, mas o mercado é totalmente imprevisível e quanto menos se espera, ele te surpreende!
O importante é, como mencionado no artigo, ficar ligado, atualizado, sempre visitando fóruns, sites… e , uma boa dica para acesso rápido a notícias: ASSINE FEEDS, de preferência, utilize como página inicial um web service (como o netvibes, bloglines google reader, etc) onde você pode incluir todos os seus feeds favoritos entre outros gadgets.
A segurança nos da conforto, assim como proporciona estagnação, também oferece sensação de certeza, mas nos prende a uma vida não evolutiva e rotineira.
Eu acredito que o medo do fracasso também pode te cegar perante grandes oportunidades!!!
Até mais!!!
Os anúncios do Google para este post são a relevância em pessoa.
Luli, já tomei muito caldo, tombo e rasteira. Observei também, muita coisa. Não gosto do conforto. Precisamos procurar algo novo. Sempre aprendendo, no seu blog também.
Abraço!
É verdade, Paulo Robson. manter-se em posição de vanguardista é como estar na linha de tiro: quem sabe o que fazer atira, quem não sabe é baleado.
As empresas mais inovadoras da atualidade têm exemplos muitos bons de tendências. Mas precisa de feeling e estudo. Como diz o Luli, “vá estudar, menino!”
Excelente esta postagem Luli! ;)
“Seja um surfista. Observe o oceano.” (Getting Real,
http://gettingreal.37signals.com/GR_por.php)
Acho ainda que a Internet é de fato uma massa volumosa, maleável e imprevisível de água, tal como o Oceano, e nós estamos nos acostumando a ela, já que nascemos em terra firme.
Abraço!
Oi Luli!
achei esse texto tuuuuuuudo e tomei a liberdade de postá-lo no Update or Die.
O link é http://updateordie.com/updates/geral/2007/08/surf-e-tendencias-por-luli-radfahrer/
Parabéns, Luli. Todo o seu trabalho é mto bom.
Pati
ps: tentei mandar esta msg para dwd3@luli.com.br mas voltou
Obrigado Pati pelo link e pelo alerta. O e-mail já foi consertado. Espero que você goste do novo post.
cara…
digitei no Google: “tendências do surf”, e me deparei com esse texto maravilhoso…
Parabéns Luli
Rodrigo Guerra
Caraca Luli, que Feeling, parece que você foi um surfista dos bons em alguma encarnação passada.
Quanto a presentir as tendência tudo indica que nós surfistas voltaremos a tona, a grande maioria deixou de ser composta por pseudo vagabundos e hoje constitui-se de trabalhadores, salvo haja onda.
O brilho nos olhos das crianças ao nos ver passar em direção ao mar é um indicador de tendência, é amor a primeira vista.
A nós, nos enche de energia eleva nosso espirito e reconforta nossa alma, pois fizemos a escolha certa.
Se somos caçadores de tendência eu já não sei mas que já reconheci instintos atávicos eu reconheci, segui-los faz a probabilidade de nossa escolha ser a melhor, ou a tendencia correta.
Uma prova disso é a utilização por parte dos surfistas da tecnologia desenvolvida para prever o tamanho das ondas, Wave Watch III, seguir a tendência correta nos possibilitou verificar o comportamento das ondas de forma muito acurada graças a essa tecnologia desenvolvida pricipalmente para a navegação, foi um efeito colateral de seguir a tendência correta oque fez com que o Universo conspirasse a favor.
Por fim, reconhecer a beleza em algo muito embora seja um indicador não define nada, pois quando apontamos uma tendência queremos na verdade saber se o Universo vai conspirar a favor ou não.
Beijo a todos parabêns.
Aloha.
Tudo que sei é que nada sei.
Nada em demasia.
Luli,
Depois vc precisa nos contar a história do cara que fica observando as tendências e esquece a prancha fincada na areia. Vejo muita gente por aí achando que já sacou as ondas todas, mas nada de ação.
By the way… um complicador desnecessário para vc: Creio que a tal Mercedes não era sobrinha do Benz. Era filha de um vendedor de destaque (Emil Jellinek). E mais… Mercedes era apelido, porque a pobre se chamava Adrienne Manuela Ramona. Inútil mas interessante
Muito bem colocado, Junior. Observar as tendências não é o suficiente. Muitos podem ter concebido o motor, mas foi ao meter as mãos na massa que o Benz fez a diferença. Já a origem da Mercedes é divertida, mas não tão legal :D
Surf é surf e empreendedorismo é empreendedorismo.
Usa o surf como uma maneira de empreender? Daqui a pouco vão inventar um novo termo para isso e ja não será mais surf! Será essa a tendência? ou é surf ou não é surf.
Surfar é inovar a cada onde que se pega. Empreender é aquilo que você faz antes de surfar. Mesmo que tenha os melhores equipamentos ou os mais simples que seja, surfar é o que realmente interessa.
Não basta apenas ter imaginação, que seja, metafora!