Meu último post sobre as características necessárias para o novo Diretor de Criação gerou uma enxurrada de comentários. Muitos deles são tão bons que não podem ser deixados de lado.
O Leandro e o Fernando comentam que o mercado fora do eixo Rio-SP é mais lento, mais pobre e mais amador. Ora, isso não é necessariamente uma má notícia. São Paulo é muito mais lento e pobre que a Califórnia, o que nos permite observa-los atentamente e evitar que certos erros cometidos por lá sejam repetidos por aqui. Se o seu cliente ainda não conhece o potencial dos blogs, melhor para você, que tem gigabytes de pesquisas, cases, teorias e artigos acumulados. Para quem é novo na área, já foi muito difícil explicar para a Volkswagen ou para a Coca-Cola que elas deveriam ter websites.
Ele também comenta que muitas agências não fazem idéia do que significa Web 2.0. Eu sei que a gente tem mania de achar que os “gringos” estão com tudo, mas é sempre bom lembrar que os EUA tem quase o dobro da nossa população e muitas agências de São Francisco e Nova York não fazem a mais pálida idéia do que isso significa. São as pequenas, de nicho, que falam para um mercado de nicho como eu e você, que fazem tanto barulho. Pegue a AKQA, por exemplo, ou a Isobar, que estão na moda. Elas são pequenas e não fazem marola em um mar de BBDOs, JWTs e DDBs.
E, no entanto, a Internet é pública e cada vez mais acessível. Enquanto o micreiro faz um site barato e inconsistente, enquanto seu cliente fecha a mão e não faz idéia que os resultados de web são mensuráveis, você pode acompanhar o que está acontecendo por aí e mostrar a ele que o dinheiro investido em um site será, no fim das contas, uma economia. É o que você gostaria de ouvir se estivesse no lugar dele.
Um profissional com as qualidades que eu destaquei não é raro: é virtualmente inexistente nos dias de hoje. Tanto aqui quanto fora do país. Mas ele pode ser formado. Não é tão diferente do que já foi: antigamente era preciso entender de HTML, servidores, um pouco de Unix e códigos de cores que funcionassem nos 640×480 pixels de monitores de Macs e PCs.
O estagiário e o estudante deve, hoje em dia, se manter atualizado. Ter um blog. Trocar informações. Entender que trabalha em um negócio e que custa dinheiro. Só daí, na ponta do lápis, poderá dizer para seu chefe o quanto ele gera de faturamento e por que merece um aumento. Caras assim não são substituídos, pois ajudam o negócio. Já o conhecimento puramente técnico se desatualiza rápido, e se substitui facilmente.
O Rafael colocou muito bem: “o que se sabia não tem mais tanto peso”. Mas é difícil convencer gente que já atingiu um posto elevado a continuar aprendendo. Alguns diretores de criação que eu conheço, mesmo trabalhando em agências de ponta, não têm conhecimentos técnicos que garantam seus empregos. Minha dica para eles é economizar o salário, pois um dia a mamata acaba. Da minha geração sobra um pouco mais de uma mão cheia, o resto ninguém mais lembra.
Acima de qualquer coisa, um lembrete: essa lista foi colocada para INSPIRAR, não para aterrorizar. É sempre melhor lembrar que o chão não é sólido do que tomar um tombo.
Meus amigos Alexandre Estanislau, da Bolt Brasil, e César Paz, da AG2, sabe muito bem disso. Sempre que converso com eles, o assunto não é este ou aquele problema de cliente que não paga ou de competição desleal – até porque isso é uma lengalenga para a qual eu não tenho resposta. Aproveitamos o raro tempo que temos juntos para discutir cenários, normalmente em torno de uma excelente refeição. Há mais ou menos um ano e meio, para você fazer uma idéia, discutíamos a penetração do vídeo na web, muito antes de IPTV e YouTube e AppleTV tornarem o assunto carne de vaca.
Para aqueles que lêem inglês, vejam aqui a indignação desses gringos com coisa que muitos dos colegas de vocês ainda considera “inovadora”.
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Que tal gravar uma conversa dessas entre vocês 3 e fazer um podcast? Seria bacana ouvir esse diálogo, participar via comentário e, anos depois, ver a realidade se alterando…
Adorei a idéia, Rafael, e já a encaminhei a eles. A idéia é gravar uma conversa só, em um nãoPodCast - para não se comentar notícias, mas desenhar cenários.
A comida não vai ser tão boa, mas acho que vai ser divertido. Os dois são fantásticos.
Nao é uma má noticia mesmo.
O lance do mercado aqui no interior ser lento…é bom para termos sessoes de flashbacks e poder nos sentir ainda em mil novessentos e guaraná com rolha…quando a internet se desenvolvia e tudo era novidade…
Um ponto que chamo a atenção para o descaso com a midia no interior dos estados, é que todos desta praia por aqui visam sempre atingir mercado nacional, quiçá internacional, pensam só em BBDOs, DDBs, WBrasils, leosBournets, e assim por diante, vislumbrados, ninguem se concentra em fazer um bom trabalho com as empresas daqui.
Esquecem…apenas olham para horizontes…
Ninguem se preocupa em oferecer um job de qualidade para os empreendedores regionais e mercado tem de monte.
Ai, o material regional, fica na mao de micreiros!!!!
Eu já estou mexendo meus pauzinhos para enriquecer o mercado regional, que acredito fornecer muitas oportunidades!
Nao será facil…
Golpe Kansas City, Luli!
O que é o “golpe Kansas city”?
[uma dica (caso goste de filmes) para voce ver (se já nao viu) o "xeque mate", disponivel em DVD, eu o adoro!] =)
Grande abraço cara!
PS: Ah!,Uau, como um bom fã, fiquei contente de ver meu nome no post de um grande idolo.
Nossa, esses dois ultimos posts foram extremamente interessantes,
mas após ler esse trechinho:
“o mercado fora do eixo Rio-SP é mais lento, mais pobre e mais amador”
fiquei pensando porque isso acontece, quais sao as diferenças que causam isso?!.
parabens a todos, isso aqui ta ficando cada vez mais bonito!
Entao Duda!
Como disse no meu coment acima…
Galera daqui do interior, não encara o job regional com a seriedade que merecia, pois pensam só em buscar insanamente o mercado das capitais…saturando as capitais, e o material daqui fica a deus darar!
Digo isso, por viver aqui e por conviver com amigos estudantes que sao o agora.
É f*da! hahahaha
Tudo o que vocês dizem é sério e verdadeiro.
No entanto, eu acredito realmente que material de alta qualidade não tem fronteiras. Hoje em dia é muito mais fácil acumular conhecimento que já o foi há alguns anos, e se você se especializa em um mercado amador, se torna rapidamente o caolho em terra de cego.
Se considerarmos que o mercado é assim e não há nada que se possa fazer, como reagir a ele? Meu palpite: ensinando. Um empresário rejeita pagar por layout do mesmo jeito que uma pessoa comum rejeita a contratação de um arquiteto para fazer uma “simples” reforma. O resultado, todos sabemos.
Se você passar a pensar com a cabeça do seu cliente e tentar, por essa via, entender por que ele é tão resistete, talvez possa desenvolver um material didático que explique para ele o que se deve fazer e porque custa caro.
No médio prazo, atitudes assim fazem bem para você, para ele (que passa a saber o valor dos serviços) e para o mercado como um todo, que se profissionaliza e avança.
Mas essa é, novamente, apenas a minha opinião.
Faaaala Luli, fiquei muito feliz de ver meu nome citado em um blog tão nobre. Eu sempre indico ele como leitura obrigatória aos meus alunos.
Bom, eu não concordo que o mercado fora do eixo RIO-SP seja mais lento não. De forma alguma. O que acontece é que o mercado é COMPLETAMENTE DIFERENTE. Aqui em BH e em particular em Minas, temos uma grande quantidade de projetos institucionais e completamente diferentes dos bens de consumo que vemos em SP. Aqui a produção de BANNERS e CAMPANHAS DE MÍDIA INTERATIVA são minorias mesmo. Temos aqui uma grande quantidade de sites empresarias, sites maiores, muitas vezes mais complexos e de seguimentos muito variados.
A última vez que o Luli esteve aqui ele veio me perguntar por que motivos eu fui estudar vídeo. Porque eu comprei uma camera digital, uma estação para edição de material em vídeo digital. E a resposta era muito simples. Porque o vídeo vai invadir a internet e a internet vai invadir o vídeo. Com o crescimento da qualidade da conexão no Brasil era uma trilha que com toda certeza seria seguida. Então conhecer esta linguagem era extremamente necessario. Como o design eu já conhecia, faltava desenvolver a linguagem de vídeo.
Ai veio o estouro do youtube e outros sites. Bom, o que isto rendeu?
A Bolt hoje atende uma gama muito grande e diversificada de clientes. Que vai desde FIAT, passando pela Minute Maid Mais, Banco BMG, BH Shopping, Água de Cheiro e Gerdau Açominas. E justamente para a Fiat fechamos um projeto muito grande para desenvolver material EM VIDEO. E não é para internet, e sim para todos os eventos de lançamentos dos novos modelos de carros. Atendemos a Fiat em todo o Brasil em um seguimento que antes nem era sonhado. E hoje está se tornando um negócio muito lucrativo. E não tem nada a ver com web. Mas com design e vídeo.
Desenvolvemos para a Gerdau Açominas um CD de vendas onde um dos pontos principais são os vídeos.
Apoiamos a produção de um produto, fruto de um trabalho de conclusão de curso de um funcionário e de um amigo, que desenvolveram um player em flash para divulgação e armazenamento de vídeos. Hoje comercializamos este produto em inúmeros projetos - chamado VBOX.
O site de 6 anos da Bolt foi feito exclusivamente com vídeo. Fizemos um documentário sobre o futuro da internet exclusivamente neste formato, inclusive com a participação do Luli.
Existe muita coisa a ser feita e eu parei de pensar em internet, passo a pensar em Comunicação Digital. Que envolve muito mais do que este meio que estamos falando. Te abre mais a mente para procurar outras coisas, outros formatos, outras soluções.
Pessoal, é aquela velha história, quem olha vê um copo meio cheio, outros vêem um copo meio vazio. A muito tempo eu escrevi um artigo para a revista Design Gráfico, que tratava do mercado fora do eixo RIO-SP. Neste artigo eu digo que se a gente analizar temos na verdade uma grande oportunidade de fazer este mercado crescer, pois existe espaço para isto. Portanto, pra mim é uma oportunidade e não uma ameaça.
Recentemente tivemos um grande impacto no mercado publicitário mineiro. Depois do caso do mensalão as duas grande agências mineiras fecharam suas portas e muitos anunciantes migraram para empresas fora de MG ou para menores. E agora que está tudo voltando aos eixos e as agências estão passando a incluir em seus planos de mídia e de campanha a parte interativa. Recentemente criamos uma grande campanha de mídia interativa para uma grande agência, e tem crescido. Então, aqui o mercado está por ser feito, precisando de bons profissionais para que seja feito da maneira correta e sólida. Sem aventureiros.
Amigão, gostei muito da idéia de gravar este material, ou esta conversa. Vamos fazer assim, marca a data que der pra fazer. Eu pego um voo aqui e desco em SP com todo o prazer pra gente fazer mais esta. E outra, se precisar de cozinhar, deixa comigo.
Já até escolhi o prato. Chama-se CARNE DE ONÇA, é um prato típico paranaense. E não é feito com a carne do felino não.
Grande abraço
Alexandre
O comentário do Ale é tão bom que até foi referenciado neste post. Ele é a prova material dos comentários de todos vocês, e reforça três pontos:
1 - A qualidade de um trabalho não tem fronteiras;
2 - A Bolt está mais próxima de empresas de comunicação interativa no exterior que das velhas agências de propaganda nacionais. Estas, apesar de levarem diversos prêmios - estimulados, desenvolvidos, aplicados e comunicados por elas mesmas -, vêem seu glamour (e verbas) se esfarelar e não sabem o que fazer para entrar no século XXI.
3 - BH, como Porto Alegre, Curitiba e Recife, se firma como um mercado sólido e exigente, o que ajuda a sepultar a idéia de um “eixo Rio-SP” como alg tão velho quanto o “Circuito Elizabeth Arden“.A final de contas, quem falaria em Dubai ou Shangai há 10 anos?