Design está na moda, não se discute. Mas será que dá para acreditar em afirmações do tipo “as pessoas estão mais atentas à forma das coisas, e conseqüentemente, melhor informadas quanto às tendências de design”.
Veja bem: se por um lado é natural gostar das coisas belas, também sabemos que gosto não se discute. Mas não é bem isso que se vê nos lançamentos das principais marcas. Pelo contrário, me parece que vivemos em uma espécie de “ditadura do design”, em que um único padrão estético se impõe como beleza absoluta, regra geral. Veja os iPods e seus fones de ouvido branco, por exemplo.
Meu palpite para a questão da design-o-filia é outro. Vivemos na sociedade do espetáculo, em que não basta mais simplesmente “ser” algo ou alguém. Mais importante que isso (BEM mais importante, aliás), é se manifestar. De revistas focadas no escrutínio da vida pessoal de “celebridades” a Big Brother, de Orkut a blogs, parece que o indivíduo não existe se não puder contar, rapidamente, quem é, a que veio e do que sabe.
Nesse cenário, as aparências são fundamentais. O design – em especial o design universalmente aceito como belo, esteja ele nas curvas de um pára-lamas ou de um par de seios de silicone – funciona como um referencial de “bom gosto”, garantindo que seu portador está sintonizado com o que há de mais atual e, portanto, aberto para o novo. Mesmo que seu portador seja (e muitas vezes o é) um indivíduo cujo montante na conta bancária é inversamente proporcional à liberdade de idéias.
Ter e portar adequadamente vários objetos de design funciona, nesses dias, como um importante fator de identidade e sociabilidade. Colocado discretamente sobre a mesa, um celular fino, colorido, bluetooth e 3G age, em tempos pós-modernos, como um indicador de que seu portador tem “berço”, e que provavelmente esse berço é de ouro. Uau.
É claro que, até nesse ponto, aparecem os “rebeldes de butique” que, como Chico Buarque muito bem disse, adoram esse design – pelo avesso.
Bom tema à baila, Luli. Pessoal cultua iPod sem crítica. Luke Williams da Frog Design é tão inocente que acredita que o iPod fez sucesso só porque sua superfície clean lembra a louça do banheiro!
Costurando pontos similares aos seus, argumentei numa palestra que o sucesso do iPod se deve ao seu significado social.
Um iPod pendurado no pescoço sinaliza muitas coisas para as pessoas que estão em volta:
- eu tenho o controle do meu nariz
- eu sou igual às outras pessoas de mesma estirpe (porque uso o mesmo iPod), mas sou diferente porque meu gosto musical é único
- meu ipod combina com qualquer roupa minha
- eu estou antenado com as últimas tecnologias
- eu estou levando o mesmo que dezenas de CDs compactados num trequinho minúsculo
- eu posso me desconectar do mundo caótico a qualquer momento
http://www.usabilidoido.com.br/o_que_faz_o_design_do_ipod_tao_atraente.html
O pior de estar na moda é que agora o design também possui tendências, como a dos fones brancos que você citou.
Vejamos os sites atuais. Todos seguem a moda de cores “aqua”, uns selinhos (badges) anunciando algumas coisas, fontes enormes, background em degradê, muito espaço em branco.
Se formos relembrar, há cerca de dois anos eram as pixel fonts. Quem acessa um site com pixel fonts hoje acha tudo com uma cara de ultrapassado.
Culpa do quê se não da tendência-fashion-design? Dá até para pensar que é um movimento proposital para os designers se manterem sempre necessários.
Não sou designer, mas entendo que design está mais ligado a conceito do que a modas passageiras.
Luli, não entendi quando falas em ‘objetos de design’… Ao meu ver, o design sempre se alimentou de tendências, sempre as construiu e acredito que vai ser assim por muito tempo. Ele não ‘está na moda’, mas é parte integrante do nosso dia-a-dia. Há bastante tempo.
Há anos não vivemos um momento único, como tínhamos depois da escola Bauhaus, que instaurou um ‘estilo’ de fazer design. Assim como tantas outras escolas que vieram depois, como Ulm, por exemplo. Nem por isso o design de hoje deixa de ter essas escolas como referência.
Hoje, o design é mais ‘mesclado’, ao meu ver. Mesmo assim, não deixam de despontar lá e cá coisas como o iPod (que para mim é um sucesso porque a Apple é um sucesso. Concordo com o van Amstel quando ele fala do culto sem crítica…). Mas são coisas, ou projetos, que acabam sendo ‘tomados como referência’ para uma infinidade de outros projetos.
Tenho consciência que esses produtos possuem um ciclo de vida muitas vezes pequeno, no máximo até que alguém consiga convencer um meio bilhão de pessoas que seu novo produto é melhor. O iPod é um exemplo. Ele é simplesmente um player. Hoje, já encontramos no mercado diversos players mp3 que têm inúmeras outras funcionalidades. Porque não dão certo? Falta esse meio bilhão de pessoas que acreditem nele.
Não vejo como não portarmos “objetos de design”. Não me imagino mais com um Tijorolla no bolso. Sim, eu e todo mundo, queremos um celular pequeno. Ah, e bonito também.
Sou designer, não antropólogo (rs), mas acho que vivemos em um cenário onde a quantidade de tribos urbanas crescem cada vez mais. Não dizendo que antigamente não havia tribos, haviam sim, mas poucas: beatniks, punks, hippies, entre poucas outras. Mas hoje a coisa é diferente: o próprio mercado de consumo está definindo as tribos, e o mais preocupante, tribos que se unem apenas pelo consumo, sem qualquer ideologia. É só parar para ver as tribos existentes hoje, que se unem apenas pelo seu estilo de roupa e música (que não deixa de ser um produto de consumo).
Hoje somos MARCA. É como o Luli disse: se eu sou uma pessoa com idéias modernas, não adianta eu SER apenas. Preciso ter meu iPOD para MOSTRAR.
Até eu já cai nessa: não me contentei em apenas ter orkut, criei meu last.fm agora, para que? Ah! Para mostrar para os outros meu estilo musical “cult”.
É meus amigos, vivemos na máxima do individualismo: queremos ser iguais a alguns, mas sendo DIFERENTE da MAIORIA.
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Frederick, também sou de Curitiba e estudo essa área de comunicação (faço design na puc). Depois queria ver contigo se tem interesse em dar uma palestra para o pessoal de lá.. entrarei em contato com vc, valeu
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Gosto deste blog quando esquenta – até porque, quando ele não esquenta, a culpa normalmente é minha.
Acabei de ouvir seu podcast, Frederick, e acho que você tem razão. Mas a questão vai além: não tenho nada contra o iPod, muito pelo contrário. Mas por que, de repente, ele virou o sinônimo de MP3 player? Não é o de melhor usabilidade (vc que é o especialista, mas na minha imodesta opinião a estrutura linear de navegação deixa bastante a desejar), tem uma série de restrições – a maior delas de player e é bem mais caro que a maioria dos outros. É esse o ponto. MP3 players são uma evolução, mas não são sinônimos de iPod. Ou não deveriam. Um pobre coitado que carregue um shuffle por aí enfrentará problemas de acesso e compatibilidade muito maiores que os de um usuário de Philips ou Nero.
O que leva à questão muito bem posta pelo Walmar, ao lembrar do padrão “aqua” e das pixel fonts – modismos sem real significado que se tornam velhos muito rápido, pois não tinham função.
De novo: o iPod é muito legal, e sua função não se discute, Moisés. O ponto não é esse, mas o do fetiche. Uma cadeira Mackintosh é dura e desconfortável, um tijorolla (adorei!) também. Nenhum dos lados está certo. Se supervalorizarmos o design, corremos o risco de não chegarmos a uma evolução razoável. Vejo meus vídeos portáteis em um PSP (PlayStation Portable), e ele é BEM melhor que um iPod video. Tenho um iPod Nano, não vejo problema em usá-lo.
A questão posta aqui é a da DITADURA do design, a imposição de um modelo único de “belo” vs. “feio” (maldito Platão, quanto estrago fez às nossas pobres mentes ocidentais), inquestionável como obra divina, mesmo que efêmero.
Na minha opinião, as pessoas não estão mais atentas ou interessadas em design. Elas estão doutrinadas. E isso, como qualquer doutrina, é daninho e perigoso.
Também não sou antropólogo, Fábio, mas acredito que essa busca incessante por uma identidade manifestada através de símbolos externos – e diretamente relacionada ao poder de compra, portanto – pode levar a um cenário ainda pior. Afinal de contas, pra que se trocar de celular se o aparelho anterior tiver praticamente o mesmo tamanho e as mesmas funcionalidades, ainda mais se você não usá-las?
PS: Se quiser falar com o Amstel, vá para o Usabilidoido.
Aqui não é lugar de conversas paralelas, né?!?
Tsk, tsk, tsk…
A visão de um publicitário, o cara que vende o produto (lembram dele?).
“Invente coisas pertinentes e inteligentes e as desenhe bem, pois assim eu as venderei com muito sucesso e sem culpa”.
As vezes nosso discurso de vendas busca criar necessidades inúteis para coisas impertinentes, matar a sede, firmar uma amizade e ser feliz e saudável com Coca-cola?
Pois bem, acho que o consumo pelo consumo provocado pela vaidade é o grande vilão da questão.
sei lá, eu sou muito chato pra ficar comentando no blog de quem eu não conheço, mas lá vai:
Luli, discordo de ti, iPod faz sucesso pq é o melhor produto pra quem quer um player de música daquele tipo. (Vai parecer q eu trabalho na apple, mas blz) Primeiro q ele é, sim, pra um público específico, então não adianta ficar comparando ele com qqer coisa. Vc comparou com o PSP, por exemplo. PSP é melhor pra ver vídeo pq tem uma tela enorme, mas o PSP “é” enorme também, diferente do ipod, q é compacto. Ipod tem saída de vídeo, PSP tem?
Usabilidade? a melhor coisa do ipod. Vc falou da “estrutura linear de navegação”. Há, o grande lance do iPod é ‘não ter “estrutura linear de navegação”‘, e sim transversal. Você pode procurar por artistas, albuns, playlists… é muito bom.
(xii, vou parar por aqui pq o post não é sobre iPod)
Bleh. o que é um bom design?
Atualmente, no brasil, é o que a globo fala q é. Engraçado é ver q a Globo tenta imitar a realidade, mas aí a realidade imita a globo, q imita a realidade… e por aí vai. Isso cria monstros. A moda que manda é a moda da novela das oito.
Acho q falta mais opinião crítica da galera em relação às coisas. Ter iPod só pra ter é uma coisa, ter iPod pq é exatamente o que eu preciso, é outra.
e, claro, entre bonito e feio vc prefere o q?
ah, alguém falou dos sites aqua…
hã, a novela das oito não é a única influência.
sempre exsitirão os hypes, modas e ondas do momento… masssa mesmo é ficar esperto e ver quem vai lançar a próxima.
@Uira Porã: Discordo de vc… Ipod (pelo menos no Brasil) é sucesso por conta do modismo que foi inserido sobre ele. Todo mundo quis/quer ter um, inclusive, agora, quem é de baixa renda e conhece de tecnologia.
No Brasil as coisas costumam ser assim… As pessoas se importam mais com esses modismos sazonais do que ter personalidade nas suas escolhas.
Itero dizendo que o Ipod realmente é um ótimo produto, sem dúvida. Porém eu, particularmente, estudaria vários fatores antes de adquirir um. Não será o fato de meu vizinho ter comprado que eu irei ansiosamente comprar o meu pra poder fazer parte do mesmo clã.
E isso se atribui ao design propriamente dito aqui iniciado pelo Luli e comentado pelos demais. As pessoas se preocupam mais com o que vão pensar delas, então é mais prático usar aquilo que está na “moda”.
Isso se atribui à web também, como o amigo Walmar citou e acredito que também aconteça nas outras diversas áreas do design.
Em meio a isso tudo a essência do design se perde. É uma pena.
Para começar, Publicitário não é quem vende o produto. Quem vende o produto é o VENDEDOR. O Publicitário trabalha com estratégias de comunicação.
A tendência do marketing é desestimular ao máximo a compra racional (porque é o melhor em usabilidade, porque é o q tem a maior tela) e estimular a compra sentimental (porque dá status, porque é bonito) já que desse modo é possivel subir bastante o preço. E é ai que entra o design, publicitários e designers ajudam na estratégia de marketing dos produtos. É bom os designers lerem um pouco sobre Teoria de Maslow também.
O produto jah não importa tanto quanto o sentido portando ele.