Criatividade, Cultura Digital, Design, Inovação, Tendências

Introdução: Pós-Moderno, digital, design e você. (II)

(anterior)

Outra característica interessante dos tempos atuais é a questão da velocidade. Por que se tem sempre um monte de coisas para fazer e nenhum tempo para executar metade do que se programa? Será que, ao operarmos computadores, delegamos a eles a capacidade de planejar a ponto de não conseguirmos mais administrar nossa própria vida? Ou seria exatamente o contrário: à medida que aumenta a eficiência, cresce também a quantidade de coisas a fazer, a ponto de qualquer coisa que escape ao controle – fome, relacionamentos, sono, necessidades biológicas… o corpo e o outro, enfim – cause desespero?

O computador não tem culpa. Ele é só um empregado rápido e burro. Como é capaz de realizar muitas tarefas, a carga de demandas aumenta. Com ela se percebe que o “perfeito”, em tempos descartáveis, já não é um valor tão importante quanto a performance. Assim, passa a ser mais importante fazer as coisas rápido do que bem. O importante é lançar uma linha de automóveis por ano, uma coleção de roupas por estação, um website por campanha publicitária, um aplicativo por período… a pressa pode ainda ser inimiga da perfeição, mas quem está interessado em perfeição hoje em dia? A regra da nova indústria parece ser: “lance antes, conquiste mercado, corrija depois”. A quantidade de versões beta e recalls não deixa dúvidas.

Para atender às novas demandas é fundamental um sistema de comunicação rápido e eficiente, em que tudo se desmaterializa. Um e-mail é como uma carta, só que sem a dor de cabeça de selos, papéis, correios etc. Coisas e pessoas perdem substância e se tornam informação, índices, estatísticas. Tudo isso em “tempo real”, como se a realidade fosse instantânea.

Nosso contato com o mundo se tornou artificial e simbólico. Das imagens da TV aos ícones da desktop, quase mais nada precisa ter vínculo com a realidade. Você conhece algum equivalente mecânico do duplo-clique? Do gigabyte? Quem nunca sonhou ter direito a um “Ctrl-Z” ou a refazer a personalidade por completo para deletar episódios ruins?

Esse mundo impessoal, distante e frio não é tão estranho quanto parece. Nós nascemos nele e nos acostumamos muito rápido às coisas sem equivalente material. A Guerra do Golfo foi transmitida “ao vivo” pela CNN em 1991 e, depois disso, um bombardeio em Bagdá é um show de luzes parecido com o ano novo em Copacabana, um corte no seu dedo se torna muito mais real que um monte de gente morrendo queimada quando os aviões derrubam o World Trade Center. À medida que operamos a vida por símbolos, os sentidos se embotam e a consciência se amortece. A sensação de irrealidade é natural e não é à toa que a artificialidade (dos seios, do Viagra, da lipo, da eterna juventude) seja celebrada.

Sem perceber, viramos pessoas hiperativas, ansiosas, estressadas e desfocadas. Pode não ser o fim do mundo como o conhecemos, mas certamente é uma crise de referências. Instintivamente, as pessoas procuram rótulos, elementos ou categorias que expliquem a situação. Mas como novos objetos, idéias e acontecimentos precisam de novas palavras para descrevê-los, essa compulsão classificatória não leva a lugar algum. A fluidez dos novos conceitos é contrária à rigidez das antigas categorias.

Parece papo de velho pessimista, mas é exatamente o contrário. Eu não tenho a menor intenção de voltar no tempo e acredito que você compartilha de meu ponto de vista. Afinal de contas, vivemos o mundo dos Jetsons: operamos máquinas digitais; andamos em elevadores transparentes; nos comunicamos por monitores e teclados; apertamos botões para conseguir comida pronta; nossos aparelhos de comunicação causariam inveja aos personagens de Jornada nas Estrelas; a maior parte das operações cotidianas, de compras em supermercado a pagamentos bancários, pode ser feita sem sair da mesa de casa ou do escritório. Estamos na Utopia tecnológica, quem quer voltar para 1975?

Além do mais, por mais que se reclame de globalização e massificação, nunca houve tantos canais para se exercer a liberdade de expressão sobre qualquer assunto (incluindo racismo e pedofilia); a quantidade de opções de consumo também é enorme (embora seja impensável simplesmente “não consumir”); as identidades são maleáveis e se adaptam aos grupos sociais. O mesmo pode se dizer das escolhas sexuais, como bem mostra o sucesso das paradas GLBT.

Nós fomos avisados: as vanguardas modernistas abriram caminho para a percepção por símbolos e já faz mais de meio século que as coisas vêm mudando. A computação desde os anos 50; a arte pop desde a década de 60, a filosofia como crítica dez anos mais tarde; a moda, cinema, música e publicidade a partir do Punk de 1977; o digital – via computadores e videogames – há mais de 15 anos; até a personalização da internet hoje em dia.

O problema é que ninguém quer ver o presente. O passado é mais seguro e confortável, já estivemos lá. As utopias da humanidade são imagens de eras anteriores, bucólicas, rurais, serenas… desde o Renascimento tem sido assim. As projeções idealizadas que se faz do futuro nada mais são que lembranças fora de lugar. Em última instância, um tédio. Tanto que a maioria dos jovens que moram em “paraísos” como pequenas cidades na praia, não vê a hora de fugir de lá para “infernos” urbanos. Mesmo quem vive nas grandes cidades cultua a ilusão da cidade pequena como uma cenoura de burro. No fundo, ninguém quer ir para lá. Se for, morre de vontade de voltar em menos de um mês. Se me oferecessem uma casa em uma ilha deserta, minha primeira pergunta seria: tem ADSL? Bobagem. Não existem mais ilhas desertas hoje em dia.


(continua no próximo post)

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